quinta-feira, 16 de abril de 2009

Maldito beijo


Tem histórias que ouvimos ou presenciamos e nunca mais esquecemos. Tenho muitas histórias pra contar, não preciso contá-las para não as esquece-las isto é uma tarefa impossível. Alias quando menino eu pensava que ter uma memória infalível era algo muito valioso. De fato é para se exibir em uma roda de amigos, em uma entrevista de emprego, para uma prova de algum cargo público e para que todos digam: este é o cara. Mas para os nossos sentimentos é cru, para não dizer que é terrível. Relembrar todo o passado e ligar aos fatos presentes pode ser cruel.

 

Quando temos uma memória tão viva é difícil acreditar que a sua companheira realmente lhe ama ou até mesmo a sua própria mãe. Afinal de contas com a convivência são inevitáveis as brigas e discussões. As verdades ou defeitos são disparados todos de uma vez e como em uma guerra onde a estratégia é atirar pesado com toda artilharia disponível. Tudo acontece tão de repente, que o lado que é pego despreparado mal dá conta de reagir. E para quem não esquece relembrar destes fatos é inevitável. Invariavelmente você acaba lembrando e nos momentos de mais intimidade e de entrega.

 

Patrício era um bom rapaz, pelo menos é a forma como eu o via. Ele era mais velho do que eu, minha mãe dizia que ele era um bom moço. De uma beleza discreta, pois não é daquelas que você vê de longe, apenas as pessoas que o conhecia via como ele era belo. Patrício mesmo se achava muito bonito, mantinha sua vaidade, mas pra ele o mais importante sempre foi os seus sentimentos. Ele não tinha vergonha de dizer que amava, de odiar, de mostrar sua indignação, seu sofrimento, sua luta, que sentia, como experimentava. Patrício era de fato um homem, que não escondia os seus sentimentos humanos. Era alto, forte, um sorriso sincero, uma boca grande, olhos pequenos e rosto de menino.

 

Patrício também era músico, escritor, poeta, jovem. E amou muito em sua vida, assim como sofreu muito também. O amor tem este efeito colateral, te faz feliz, para depois te fazer sofrer. Patrício dizia: - Não importa que eu sofra, o sofrimento é proporcional ao amor que vivi. Lembro de uma frase genial que ele sempre dizia: - Deus está nos detalhes. Para ele a vida era decidida por momentos e não por fatos definitivos. Nunca compreendi muito bem a sabedoria destas palavras, mas consigo sentir o que ele queria dizer. A cada passo que dou percebo como os momentos decidem todo o meu futuro, não percebo claramente, não é algo palpável.

 

Falei um pouco de Patrício, que foi uma pessoa magnífica que passou pela minha vida, na época eu era um menino e ele já moço. Mas apesar de toda sua genialidade, de sua sabedoria, sua intensidade de vida, ele deixou uma história que nunca mais vou esquecer. Patrício gostava de Verena desde o início. Como ele gostava de dizer: - Desde o primeiro momento. Verena era uma moça de olhos grandes, boca delicada, ombros lisos, cor de jambo. Patrício nunca escondeu o seu amor, sempre disse em alto e bom tom o quanto gostava daquela moça. Verena só achava graça, ria, corria e dizia que Patrício era um bom moço, mas não dizia se tinha interesse por ele, nem que sim, nem que não.

 

Patrício dizia não ter pressa, que no momento certo Verena iria ver o quanto ele era um bom moço e como ele poderia lhe fazer feliz. Eles conversavam, se viam, Patrício ia com calma, não queria assusta-la e nem pressiona-la. Verena não tinha um amor, queria sim ter um. Ela pensava em ter um homem sincero, de princípios e gostos parecidos. Um homem que realmente gostasse dela, assim como Patrício gostava. Um homem de cultura igual a Patrício, que gostasse de Chico Buarque, Rolling Stones, Frank Sinatra, David Brubeck, Louis Armstrong, Elis Regina. Um homem que gostasse dos filmes  de Woody Allen, Stanley Kubrick, Steven Spierbelg, Sidney Lumet, Quentin Tarantino, Martins Scorsese, Hitchcock, Clint Eastwood, Joel e Ethan Coen, Coppola quase todos os diretores preferido de Patrício. Um homem de intensidade como a de Patrício. Um homem integro e honesto como Patrício. Ele também teria que ser debochado, irônico e divertido como Patrício. Este homem que Verena tanto esperava e queria, poderia ter tudo o que Patrício tinha, só não poderia ser o próprio.

 

Com o tempo Patrício foi se aborrecendo, foi cansando. Ele desabafava comigo: - Se ao menos eu não fosse como ele queria, haveria uma consolação. Mas tudo o que ela me descreve, que lhe interessa eu tenho. Até mesmo o modo de vestir, o corte de cabelo. Enfim realmente Verena idealizava Patrício, mas ela não via desta forma. Pra ela Patrício era um ótimo amigo, mas não o amor de sua vida. E por mais que alguém lhe mostrasse o obvio ululante ela não via. Patrício era um detalhe que Verena não iria perceber nunca. E quanto mais este detalhe se mostrava vivo, mais Verena o negava, as vezes até se aborrecia.

 

Patrício sempre foi incansável, nunca desistiu de nada facilmente, Costumava dizer: - O segredo de que algo ser importante é a dificuldade em consegui-lo. Para ele a dificuldade em conquistar Verena era algo natural, até ali tudo bem. É claro que uma vez ou outra Patrício ficava aborrecido, chateado e dizia, que já havia passado tempo demais. Por fim Verena aceitou o convite de Patrício para os dois saírem, um encontro a dois. Todos da vizinhança ficaram na expectativa do que iria acontecer. No outro dia, Patrício foi simples: - Não aconteceu nada demais, conversamos, rimos. Olhamos-nos, nos tocamos, mas não houve um beijo. Beijei a bochecha, o pescoço, as costas, mas não demos um único beijo. Ela me disse que não era o momento, que ela não beijava ninguém sem estar realmente envolvida.

 

Depois deste episódio Patrício continuou o seu cortejo a Verena. O contato ficou mais intimo e agora Patrício era mais explicito ainda. Verena ria, ficava vermelha, tampava o rosto, mas começava a gostar de toda aquela corte de Patrício. É claro que Patrício sempre comentava no segundo encontro, marcaram uma, duas, três vezes, mas não estava dando muito certo. Um dia era Patrício que não podia, outro era Verena. Mas quase um mês depois, eles se encontraram novamente. Verena disse que não iria beija-lo mas por fim eles se beijaram. Ficaram horas se beijando. Patrício disse que foi o beijo mais sincero, cúmplice e bonito que já deu em sua vida. Ele dizia que poderia beijar muito ainda, mas não haveria beijo como aquele.

 

Trágico ou cômico depois disto Patrício e Verena nunca mais saíram e nem mesmo se viram. Patrício não soube nunca os motivos para que Verena não lhe quisesse mais vê-lo. Ele não procurou saber dos detalhes. Ele tinha achado perfeito o encontro entre os dois, não via motivos para este tipo de reação. Para ele este foi o mais duro golpe que Verena poderia lhe dar. Foi como lhe fincar um punhal pelas costas. Como alguém poderia ser tão intenso e depois tão indiferente. Tão vivo e depois tão ausente. Tão doce e depois tão amarga. Tão delicada e depois tão rude.Patrício nunca disse uma palavra sobre o episódio, alias, ele nunca mais disse mais nada. Ficou mudo, a ultima pessoa quem ouviu a sua voz foi Verena. Patrício morreu quarenta e cinco dias depois do seu ultimo encontro com Verena. Foram quarenta e cinco dias definhando, sem dizer nenhuma palavra, sem murmurar, nenhum gesto, nenhum olhar. Patrício sumiu e ficaram apenas as lembranças que tenho dele.

 

sábado, 4 de abril de 2009

Prefiro não saber

Eu sei que, ando sempre falando as mesmas coisas e bobagens. Tento mudar. Quase sempre em vão. As formulas se repetem, as chatices voltam e os cacoetes não me deixam. É mais ou menos como pisar na lama. Aquele bairro parece que nunca vai sair do seu sapato. Seria a minha sina? Talvez seja. Ir a todo tipo de lugar e ser olhado sempre com os mesmos olhos. As mesmas expressões nada simpáticas e os mesmos julgamentos. O meu corpo parece carregar o meu passado e parece que todos conseguem vê-lo em questão de segundos.

 

Todos nos temos qualidades, mesmo um assassino contumaz tem as suas. Eu tenho uma, que na verdade fico sempre me perguntando. Isto é qualidade? Eu tenho um super poder, leio pensamentos. Isto mesmo. Sei tudo o que as pessoas estão pensando. No entanto, só sei o que pensam de mim. Não sei o pensamento sobre a crise mundial de um economista. Sei apenas, que ele me acha um panaca. Os outros pensamentos que não são sobre mim, eu não sei. Simplesmente, não escuto. Em outras palavras o meu “super-poder” não é tão super assim. É algo bem pessoal, serve apenas pra mim e mais ninguém.

 

Isto pode parecer fantástico, saber o que as pessoas pensam de você, sem exceção alguma.  Sua mãe, seu pai, sua irmã, seu cachorro, seu amigo, sua namorada, sua amiga, seu primo, uma desconhecida, a atendente do caixa do supermercado ou mesmo sua professora. No entanto, só parece, pois isto é uma grande merda. Já “escutei” cada coisa do tipo: “Que cara mais chato”, “Que cara idiota”, “Ele se acha né? Não sabe de nada”, “Que pedante!”, “Ele não sabe nem se vestir”. Enfim é daí pra baixo, em certas situações eu não consigo nem conversar mais. Toda minha inspiração e boa vontade vão por água abaixo.

 

Minha vontade era de não saber, de não escutar. O pensamento do outro é dele, e não posso ter o direito de escutá-lo. Mas ao contrário do que pode parecer, não escolhemos ter ou não um “super poder”. É um dom, é claro que preferia ser um músico do estilo Pink Floyd, mas o que me sobrou foi escutar as asneiras que falam de mim. E como se isto não bastasse, eu sou curioso. Então quando não escutei os pensamentos, pois não estava presente. Pergunto o que fulano de tal ou sicrano falaram sobre isto e aquilo e especialmente, da minha pessoa.

Acho que isto acontece com todo mundo. Especialmente quando estamos falando de relacionamentos. Ficamos um tempo juntos com a pessoa, coisa de dois a três anos. Por fim tem uma briga o relacionamento termina e ficamos uns três meses sem nós ver. Neste intervalo saímos com outras pessoas e acontecem coisas intimas. Depois deste tempo, percebemos que o relacionamento não era tão ruim assim e o mais prudente é voltarmos com a pessoa. Como somos curiosos e bobos perguntamos: -Mas então, saiu com alguém neste tempo? – Sai sim, pessoa muito divertida. – É mesmo? – É sim.  – E teve algo? – Como assim teve algo? – Bom você sabe, foram pra cama? – Pra que você quer saber isto? – Ah só pra saber, curiosidade boba ( Espero que ela não tenha feito isto, não é possível que ela tenha ido tão cedo com alguém pra cama). – É rolou sim. – Ah ta. ( Eu sou um idiota, pensei que estava com uma mulher séria. Ela é uma qualquer). E você saiu com alguém? – Eu? É sai sim, mas não era tão divertido como o seu alguém. ( Mal sabe ela, que sai com todas as mulheres, que ela morria de ciúmes). – E ai, foram pra cama? ( É claro que deve ter ido, homens só querem saber disto). – Cama? Não, foi só uns beijinhos. ( É claro que fui, afinal de contas sou um homem. Alias todas foram muito melhor de cama do que ela). - Ah tudo bem. ( Ele pensa que vou acreditar nesta história, sei muito bem que ele levou a vagabunda da Ana Paula pra cama.)

 

No fim deste dialogo. Com certeza a conclusão não pode ser outra. Por que conversamos sobre isto? É algo desnecessário e sem utilidade alguma. Podia ser muito bem cortado. Alias o corte é o grande segredo do cinema. Só mesmo um filme bem cortado, que pode se tornar uma obra prima. Do contrário teremos um filme qualquer. Mas infelizmente não sabemos fazer isto muito bem. Tem coisas que é melhor não sabermos. Vai nos poupar de desgostos e aborrecimentos. Se um grande amigo seu dá de cima de uma garota que você também já deu, provavelmente eles falaram de você. Mas se ele não te contou nada, pra que você vai perguntar o que eles conversaram ao seu respeito? Com certeza não foi algo agradável. Esqueça o fato e siga em frente.

 

Ser o filho torto da família. É algo que pode ser trágico ou nada demais. Se eu fosse filho da minha irmã mais velha, preferia não saber. Depois de um tempo, em que você está totalmente acostumado com o fato de que sua irmã mais velha é sua irmã.  E que sua mãe é sua genitora. Eles chegam até você, quando tem uns quinze ou dezoito anos e te dizem que sua irmã, na verdade é sua mãe. E que sua mãe é na verdade sua avó. Prefiro não saber. Esta seria minha conclusão em um caso destes. Se eu fosse filho de outro pai, sabe minha mãe saiu com um cara transou com ele e ficou grávida. No entanto, o cara sumiu e ela nem teve como contá-lo. Minha mãe namorava e neste tempo tinha terminado.  O namorado ficou sabendo do caso e por gostar muito da minha mãe, me assumiu como filho e casou com ela. Uma história dessas, eu prefiro não saber. Já estou habituado que o marido da minha mãe é meu pai. Ele já se habitou com isto também, já tenho mais dois irmãos e sou o mais bem tratado de todos. Por que vou querer saber que o meu pai na verdade não é meu pai, que o verdadeiro pai, só transou com a minha mãe uma vez e nada mais do que isto. Ele nem mesmo sabe que eu existo, prefiro que continue não sabendo. Nem eu e nem ele precisamos saber da existência de um do outro.

 

Sinceramente há coisas que não devemos saber. Ao comermos um baby bife se soubermos o sofrimento que o animal passa. Teremos nojo de nossa própria futilidade. É necessário amarrar um animal, para que ele não exercite os músculos para depois comermos um bife super macio?  É preciso saber que o seu ex-namorado transou com a sua melhor amiga? É preciso saber que você nunca foi importante pra sua esposa? É preciso saber que a sua vida foi mera futilidade? Prefiro não saber de certas verdades e de certos fatos. Sou impotente diante de quase tudo, o máximo que posso faze é ficar com raiva, chorar ou me chatear. Portanto a ignorância em certos casos é necessária e de certa forma cai muito bem.