Eu e meus problemas inúteis. Foi assim que me senti hoje e em outras ocasiões também. Afinal de contas, meus problemas são inúteis, supérfluos e bobos. Inocentes, por que não. Sempre que penso desta forma, me lembro da mãe, que perdeu seus três filhos homens assassinados, lhe restou sua única filha, que tinha distúrbios mentais. O que são meus problemas perto disto; imagino que nada. Não sou mãe, mas só de imaginar a dor de uma mãe, que perdeu seu três filhos. Para esta mulher, nada é demais. 11 de Setembro, atentado de Munique, um senador matando outro senador em pleno congresso, são coisas normais, o que pode de acontecer de extraordinário pra esta mãe. O que são problemas financeiros, inquietudes do amor, ter um chefe ignorante e carrasco no seu pé perto de perde seus únicos três filhos homens, todos assassinados. Esta mulher tem o direito de declarar guerra contra tudo e todos. Nem mesmo a ONU pode lhe provar o contrário, nada faz mais sentido, nada mais tem valor.
O maior problema de nosso século é a solidão, a indiferença, a falta de conhecimento. Vivem dizendo, que habitamos em uma aldeia Global. As notícias hoje são instantânea em qualquer parte do globo. É claro que estas afirmações, são meras ilusões. Tudo hoje em dia é de plástico, até o amor. Neste mundo de plástico, tudo desaba muito facilmente e nada é tão assustador. Além do mais, não devemos nos preocupar com os problemas alheios. Evoluímos, somos seres ocupados e extremamente importantes, assim são os seis bilhões de pessoas do globo. Não há tempo para se preocupar com o outro. Devemos apenas ler uma notícia, de um ou outro continente, cidade, bairro, país. E não há tempo para reflexão, se antes uma notícia demorava três décadas, para percorrer o planeta e com o tempo foi evoluindo para três anos, três meses, três semanas, três dias, três horas, três segundo, três milésimos. Hoje chegamos a incrível marca de três milésimos. O que isto trouxe de bom, realmente eu não sei, mas alcançamos esta marca tão desejada. Nesta avalanche de informações, nada custa e nada é realmente importante.
Ter seus únicos três filhos homens assassinados um dia já foi notícia. Hoje em dia não é digno nem de nota, o que dirá de uma investigação policial, com conseqüente processo judicial. Nada disto, temos que arquivar, contar, estatísticas, números, planilhas, porcentagens, índices, tendências, projeções, no final das contas homicídio, exportação, importação, comércio, dólar paralelo, varejo, barril petróleo é tudo uma questão de números. Está ai a solução para todos os problemas mundiais, transforme tudo em números e no final das contas tudo vai dar certo. Lembro daquela velha máxima do jornalismo: Cachorro que morde homem não é notícia. Homem que morde cachorro é. Será que isto vale nos dias de hoje, afinal de contas isto foi dito há cinco ou seis décadas, o que em comparação com outros tempos, da algo em torno de 10 mil anos. Lembra da música do velho Raul, em 10 mil anos o cara viu tudo. Hoje em dia, 10 horas não é possível de ser absorvido por uma vida humana. Pode ser uma tarefa fácil, para uma maquina com uma memória de 450 terabytes, mas é algo impossível para um cérebro humano.
É engraçado como a vida é cheia de progressões e regressões, são constantes idas e vindas, um vai e vem incessante, que não para nunca. Temos o tempo biológico, que marca sua estadia na terra com certa precisão, nos dias de hoje não consigo esconder minha velhice e décadas que já se foram. No entanto, apesar das rugas. A criança que existe dentro de mim, cada dia toma mais conta do espaço. E se no fim ou próximo dele acreditamos que vamos tomar as rédeas, ledo engano. A verdade é que nunca estamos preparados, o ser humano é o eterno despreparado.
Não consigo de deixar de pensar na mãe, que perdeu os três únicos filhos homens que tinha, lhe restando uma filha com distúrbios mentais. Minhas inquietações estão todas no passado. Na mulher que me amou e eu desprezei, lhe traí centenas de vezes com outras mulheres, que em algumas vezes nem sabia que eram a outra. Fiz tanta besteira no meu passado, que ele vive insistindo que já foi um dia o presente. Talvez esta seja minha maior dor de todos os meus problemas inúteis, todo meu trágico passado um dia já foi o recente. Passou diante dos meus olhos e eu não fiz nada pra evitar. Agora passa diante de minha memória, que nada mais pode fazer a não ser lamentar.