domingo, 20 de dezembro de 2009

Além do que estamos vendo

Um dia destes resolvi fazer uma excursão antropológica, não vejo lugar mais antropológico em uma cidade grande do que um ônibus, metro e caminhada. Por falar em ônibus, não entendo por que eles vivem trocando os números dos ônibus, os percursos são os mesmos, mas os números não. No meu caso, que fiquei anos sem pisar num coletivo, perdi todos os meus referenciais, os números são completamente diferentes, é como se tivesse me ausentado de minha pátria por umas quatro décadas e neste tempo tivesse tido a troca da moeda corrente no país por varias vezes. Meu referencial de preço não existiria mais, no caso do ônibus acho que é um pouco pior, pois a minha noção de espaço e de onde chegar, como e quando, não existem mais. Agora sou uma formiga, sem qualquer senso de direção.

No entanto, apesar de perdido, tenho tempo. Artigo disponível apenas na sua infância e velhice, na juventude não há tempo. Tudo é muito rápido, depois as coisas vão perdendo a velocidade e volta como era na infância, sem pressa, sem medir o tempo e sem desculpas esfarrapadas. Na juventude temos um ímpeto mais apurado é verdade, um sentimento de que tudo é pra já, algo mais ou menos assim: “haja duas vezes, antes de pensar”, mas não temos tempo. Algo que nos sobra na velhice e na infância. Mas voltamos a minha excursão antropológica, entro no ônibus, acredito que era um tal de 301E. Logo depois que sento, duas jovens sentam no banco de trás, lembro que não eram garotas tão bonitas, apenas comuns. Mas pensei se não é bonito de ver, talvez seja bom de ouvir.

Logo nos primeiros dois minutos, vi que minha presunção do que viria, estava completamente enganado. Pois, lembro que uma disse algo mais ou menos assim: “ O Carlos é o amor da minha vida, é o homem que eu quero ficar pra sempre”. Tal afirmação é uma grande besteira, qualquer um que tenha vivido um pouco mais e tenha certa noção do que é direita e esquerda, irá concordar comigo. Fiz uma cara de nojo ao ouvir tais palavras e mesmo assim a garota continuou: “Ele é lindo, alto, coisa de 1,90m, moreno claro, cabelos bem pretos e liso, uma boca enorme, um sorriso perfeito, os dentes brancos, todos certinhos”. O papo dela me deixou irritado, pensei em abandonar imediatamente a antropologia ao ouvir tamanho disparate. Mas logo comecei a refletir sobre inocência da menina e pensei quantos são assim, julgam a vida como se fosse simples.

A beleza da vida esta na sua complexidade, na sua infinitude de sentidos e significados. Em suas incompreensões, no sofrimento, na sua beleza. É como dizia o grande poeta, uma mulher precisa ter algo além da beleza, precisa ter um pouco de tristeza, um pouco de sofrimento. Com a vida não é diferente, precisamos de alguns apuros, de momentos de indecisão, contradições, uma vida simples e sem sofrimento é sem sentindo. É como ser um objeto inanimado, com sentido lógico e sem contradições, sem erro, talvez seja isto, que os suicidas enxergam ao fazerem algo inesperado. Eles nunca voltam pra contar os reais motivos, todos nós sabemos que a carta de um suicida é a maior mentira documentada do mundo. É como dizer, te amo, mas não te quero.

No caso do suicida, ele não mente por que quer, mas por que é impossível dizer a verdade. Deixo a vida, por que sou tão fundamentalista como uma pedra, seria algo mais ou menos assim, além do mais só depois de morto é que pode se dizer por que deixou a vida. Como isto não é possível, temos um documento falso, a carta de um suicida. Por isto, respeito apenas os suicidas que não escrevem nada, não deixam qualquer palavra explicando por que fizeram isto. Nenhuma linha sequer, nada. Absolutamente nenhum rastro dos motivos, apenas se matam e pronto, tão simples quanto era suas vidas, ou tão simples como o ato. Talvez Getulio Vargas seja o único suicida do mundo, que escreveu algo que não fosse mentira, mas o seu suicídio foi um ato político e não por uma questão existencial.

Mas aquela garota do ônibus me fez pensar nas pessoas que vivem, mas não respiram. É como ver tudo apenas de forma como elas são. O grande segredo é ver além do que estamos vendo. Uma guitarra por exemplo, é um objeto, de madeira, que pode variar o tipo, jacarandá, sucupira, jatobá, keyaki, guariúba e entre outras, com alguns detalhes em ferro, alumínio, aço, seis cordas de aço entre, 0,10 mm e 0,50 mm ou algo em torno disto. Olhando assim, uma guitarra não tem nada demais, mas quando tocada com a alma, é que vemos como ela é fantástica. É algo que só nos seres humanos somos capazes de fazer, sentir as coisas além do que estamos vendo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Este não sou eu

Este não sou eu, este é um impostor. Estes beijos não são meus, este gosto não é seu. Estes versos não são meus, esta forma de escrever não é minha. É assim que me sinto nos últimos dias, não sei onde estou. Me encontro desaparecido. Preciso espalhar cartazes pela cidade com os seguintes dizeres: “Procura-se eu, vivo ou morto”. Acima da frase, uma foto, se é que ainda tenho alguma foto referente à minha pessoa. Na pior das hipóteses e se tratando de hipótese e probabilidade tudo pode piorar, coloco a foto de alguém parecido comigo, tenho um rosto comum e não vai ser difícil achar alguém semelhante ou que lembre a minha pessoa. O problema é se vou lembrar-me das minhas feições.

A vida é arte do encontro, embora haja tantos desencontros. Já dizia o grande poeta. Pois é assim que me encontro, sem nenhum ponto para me concentrar ou me assentar. Na vida tudo é um pouco de inda e vinda, sempre estamos refazendo algo. Nada termina tudo esta em constante construção. Talvez as obras sempre espalhadas pela cidade queiram nos dizer justamente isto, nós, nesta vida relâmpago é que não percebemos os detalhes que vemos todos os dias.

Alias Deus está nos detalhes, me dizia Patrício em sua infinita sabedoria. E os idiotas, onde eles estão? Eu diria que estão no resto, ou seja, o que não é detalhe é dos idiotas. E eles estão por ai aos montões e digo mais: é difícil não ser um deles, não sei se estou neste seleto grupo, acredito que por mais que eu tente, sou mesmo um idiota. É claro que há diversos níveis, eu costumo dizer que os profissionais, os amadores, e intermediários. O profissional é complicado, este com certeza vai te trazer muito aborrecimentos durante sua vida, ele está ali sempre com a missão de te tirar do sério, de te fazer perder horas com algo tão fútil, mas tão inútil, que anos depois você não vai acreditar que realmente se preocupou com aquilo.

Lembro agora da Talita, uma branquela ou seria uma branqueia, sem sal, insuportável e idiota profissional. Está é uma das pessoas, que me marcou por minha repulsa em relação a ela. Acredito que estou indo longe demais em me lembrar desta louca depois de tantos anos, mas acho que isto é um exercício de desabafo, de alivio, um verdadeiro orgasmo. Pena que ela não vá ler, idiotas no nível dela, já não faz este tipo de exercício, leitura pra quê? Isto é algo já ultrapassado e como diria Mario Quintana a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

O pior do idiota é que ele é algo inevitável, vai estar sempre na sua frente. Está tal Talita eu a conheci no trabalho, local onde perdemos metade de nosso dia, isto é se você estiver num bom emprego. No final do mês ganhamos uma merreca, como recompensa, temos o nosso pão com ovo de todos os dias, aquela onde a gema escorre em nossa boca. Não vou aqui me ater à instituição trabalho, que ganhou este nome da uma maquina de tortura. Alias é sem sentido algum dizer a origem do nome trabalho, é obvio ululante que veio da tortura, estamos sendo torturados todos os dias, em algum trabalho que no final das contas é inútil. Sei que alguns irão berrar, irão até me crucificar e diram, se você é inútil não vá pensar que os outros são. O meu raciocínio é muito simples, se somos bilhões de habitantes e todos fazem algo útil, por que no fim das contas não temos resultado? Cadê o resultado global de tanto esforço? Eu só consigo ver intrigas, traições, roubos, violência, homicídios, miséria, desigualdade, injustiça, lentidão e falta de solução. Tudo bem estou na turma de que isto não tem jeito ou do famoso deixa disto. Não é isto, eu vejo sim um futuro melhor, mas primeiro precisamos reconhecer a inutilidade global em que estamos nos afundando.

Mas voltando a nossa adorável idiota profissional Talita, conheci a mesma no trabalho, naquele local insalubre, tenso, constante, inútil e sem solução. Tenho certeza que se passaram décadas e aquele local, continuam com as mesmas tarefas, mesmos problemas e burocracia. E por mais vidas humanas que sejam gastas, não vai melhorar, é como eu já disse, temos de reconhecer a inutilidade global. Falam-se tanto de Stalin e seus terríveis holocaustos, seu genocídio contra milhões de pessoas, nada se compara à burocracia, imagine minha única leitora, quantos já morreram nas mãos da terrível e intransigente burocracia. O idiota profissional acredita piamente nela, ele morreria pela burocracia, como Cristo morreu por nós. Um conselho de amigo, jamais fale mal da burocracia para um idiota, não faça isto, você vai ganhar um inimigo mortal, voraz e ele não vai desistir até um dia você se render a burocracia.

Pois é, eu na minha franca inocência e por ter uma máxima, que jamais aconselharia para alguém. Bom, confesso é piegas, mas por mais que eu tenha quebrado a cara na minha vida, nunca consegui pensar de outra forma. Pra mim todos são bons até que se prove o contrário, quando na verdade deveria pensar, todos são maus até que se confirme o adverso. Mas não, tenho esta máxima, estúpida em meu gene, que funciona quase que como um botão de autodestruição. Partindo disto, acreditei que a tal Talita era uma boa pessoa, não precisei mais do que de uma semana para constatar total erro de princípios, se tinha alguém bom, este alguém não era a tal Talita.

Tal pessoa era uma profissional, amava a burocracia e gostava muito de ferrar os outros, alias é impressionante, como algumas pessoas são fanáticas pelo ferro alheio, o sentimento de prazer e satisfação em ver o outro se ferrar é tão grande que alguns idiotas mal conseguem se conter. Sinceramente, irei morrer sem entender tal sentimento, consigo ser assim no esporte, ao ver meu rival Cruzeiro entregando jogos aos quarenta e seis do segundo tempo, mas sei separar um futebol da vida real. Não consigo entender o prazer de ver alguém sendo assassinado ou de ver uma mãe, tendo que entrar na justiça para que o seu filho recém-nascido receba atendimento do plano de saúde, que insiste em não cobrir a UTI do filho, com a mera alegação de que o plano não incluía o filho, é obvio ululante, que não o incluía, ele estava dentro da barriga de sua mãe até ontem. Algumas pessoas sentem prazer em desgraças e aborrecimentos como este, eu não e continuo com a afirmação, de que morrerei sem entender tal sentimento alheio.

Durante a minha vida, muitas vezes não conseguia me encontrar. Muitas vezes dizia: Este não sou, este é um impostor. Em muitas situações algumas pessoas, que passaram na minha frente me desejaram o mal, torciam para que eu desse errado. Para que tivesse filhos problemáticos, para que a minha mulher me traísse, para que o meu pai me matasse, para que a minha empresa falisse. Algumas jogaram veneno para o meu cão, outras deram o veneno para mim. Sei que passei disto tudo e hoje continuo respirando, gostaria de saber o que ganharam com isto. Não pense, minha única leitora, que tenho raiva destas pessoas, por que não tenho, não tenho raiva de ninguém, tenho apenas pena de sentimentos tão mesquinhos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Não vai embora

E aqui, que acaba a nossa história. Foi justamente isto, que eu pensei em certo momento onde já não agüentava mais ser esnobado por ela. Em uma relação entre duas pessoas, chega uma hora que as coisas acabam e quase sempre sem aviso prévio. No entanto, se uma das partes entende que não estava na hora de acabar fica algo incompleto, inacabado e o sentimento que um dia as coisas irão voltar ao normal pode permanecer pra sempre.


Pensando racionalmente, se eu conheço uma pessoa, digo ola tudo bom? e a conversa não dura mais do que quinze minutos é por que a outra pessoa não esta muito interessada no seu papo. No entanto, algo chamado intuição, que é um sentimento interior, onde estamos convictos, de que isto é para ser desta forma, nos diz que aquela pessoa é a mãe dos seus filhos ou a mulher que você vai ficar até os seus últimos dias de vida. Em outras palavras a racionalidade sempre perde para intuição.


Alias, acreditamos estar pensando racionalmente. Afinal de contas se existe a convicção de aquela pessoa vai ser a mãe dos filhos ou um de seus melhores amigos devemos realmente insistir e não desistir ao primeiro blefe. É natural que neste jogo as cartas não estejam na mesa e que as regras sejam esparsas ou quase que nulas. A grande dificuldade neste jogo é a falta de objetivo é por isto que gosto tanto do futebol.


Neste esporte o objetivo é claro e simples. Você deve meter a bola no gol adversário com os pés ou qualquer parte do corpo que não sejam os braços. O desenho do campo é simples os gols adversários ficam um de frente para o outro, as marcas no campo são poucas, uma divide o campo em tamanho igual e a outra marca a grande área, que é o local onde se houver faltas é marcado o pênalti, que é a maior punição que você pode sofrer no futebol, pior até do que uma expulsão de um dos jogadores do time, são onze homens em cada equipe.


Este esporte traz emoção por seus lances imprevisíveis e pela facilidade ou dificuldade que pode haver em fazer um gol. As partidas podem terminar sem a realização de nenhum gol, como pode haver numerosos gols. Apesar das polêmicas que podem surgir em uma partida de futebol, suas regras são claras e o objetivo mais ainda, quem fizer mais gols ganha a partida. É justamente esta objetividade e clareza que não temos na relação com outra pessoa, seja ela sua amiga, esposa, filha ou algo do tipo.


Ela, a pessoa para qual eu dedico minhas lamentações, é muito confusa e suas regras se é que existem são variáveis conforme o seu humor. Desde o dia que eu a conheci tive a convicção de que ela seria a mulher da minha vida, uma certeza boba, mas que não deixava dúvidas. Isto era mais do que o suficiente para tentar e tentar.


Inicialmente minhas previsões se confirmaram, ela gostava de mim com a mesma intensidade ou mais do que eu. Tudo era tão gostoso, nossas conversas, beijos e confidências, tudo com muita sinceridade e com regras e objetivos bem simples e claros. Não havia blefes, palavras pela metade e conversas sem ponto final.


Com o tempo as coisas mudaram e não se encaixavam mais ou ficavam sobras. Espaços e faltas que faziam tudo ruir. Inicialmente eu pensava que era uma simples questão de charme feminino. Pois as mulheres têm muito disto, elas não são de admitir que estão envolvidas, que estão gostando de ficar com você. Parece que é o mesmo, que admitir que matou alguém ou que cometeram um sacrilégio.


Minha convicção permanecia firme e não dei muita bola para as provações que ela vivia me fazendo. Dizia que não pensava mais em mim, que não gostava, dizia até que estava saindo com outros. É claro que não levava a sério tamanhas bobagens. A mulher dos meus filhos não me esqueceria e muito menos, me trocaria por outros.


Com o tempo ela se tornou agressiva, mal educada e insuportável. Comecei a evitá-la, passava semanas sem nos vermos ou mesmo trocar algumas palavras e não era por causa da distância, éramos vizinhos. No fim não sentia mais falta, mas de vez em quando me batia um sentimento, uma lembrança do seu olhar vivo e de seu sorriso lindo. Queria vê-la , beijá-la, tocá-la, então eu corria atrás dela, pensando que fosse me receber de braços abertos.


Minha desilusão era completa, mas pior do que ficar irritado e chateado era o sentimento de não acreditar que aquilo estava acontecendo. Não acreditar é pior do que o fato em si. Você simplesmente nega que isto tenha acontecido, neste caso o acontecimento por mais simples que seja torna-se uma verdadeira tragédia.


Para exemplificar o que eu falo, vou ilustrar com um caso bem banal. Você esta comendo uma torta, de repente por um lapso de memória esquece, que o pedaço que acabou de comer era o último. Você volta na geladeira para comer mais um pedaço e não há mais um pedaço. Sua reação é de perplexidade, cadê a torta? Sua memória lhe nega, como um réu nega um crime, que você tenha comido aquele pedaço.


Foi isto que aconteceu comigo em relação a ela, eu não conseguia acreditar, que ela estava indo embora, sem se despedir e o pior, sem nenhum remorso. Naquela altura eu já tinha me tornado um fardo, que ela não estava disposta a carregar. No final das contas nunca mais tivemos contato, vinte e cinco anos depois eu a vi passando pela rua, com uma garotinha, que provavelmente deve ser sua neta ou sobrinha.


Foi neste dia, vinte e cinco anos depois, que percebi que havia mesmo perdido o amor da mãe dos meus filhos, era assim que eu gostava de me referir a ela, brincava com ela carinhosamente. E como um profeta anunciava que ela seria a mãe dos meus filhos, que ironicamente não foi mãe de nenhum filho meu. Parece que ela foi mesmo embora, demorei em reconhecer, mas pelo menos não morri com isto no meu peito.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Alma Seca

Dizer de muito é o mesmo que falar sobre nada. É tão frustrante quando conversamos com alguém e ao notarmos que a pessoa não esta bem perguntamos, o que você tem? O que te deixou decepcionado? O que esta te magoando? Recebemos como resposta, muita coisa vai mal. Dizer isto é o mesmo que não dizer nada. Talvez por isto eu não tenha dito muita coisa nos últimos tempos, sinto que andava dizendo muita coisa e quase todas sem sentido algum. Talvez Alma Seca não tenha feito nada, já que fez tanta coisa ruim.

Acho que devia parar de me preocupar em ser substancial, já passei anos procurando por isto e não consigo passar da minha futilidade. Quando vou à casa da minha única leitora e tenho conversas sempre todas adoráveis, sempre me pergunto: Como ela consegue ser tão substancial, tão profunda, tão sensível, tão prudente e sensata. Enquanto eu continuo o mesmo idiota de sempre. O engraçado é que a minha única leitora me acha o máximo, diz que sou muito inteligente, único e insubstituível, homem como eu são poucos, me compara com grandes escritores. Claro que gosto de ouvir isto tudo, ainda mais dela. Mas tenho espelho e sei da realidade, por isto poucos minutos depois volto ao que de fato existe. Sempre me pergunto como assassinos casam, tem família e filhos. Normalmente os assassinos são bons pais.

Estou aqui falando de mim, mas na verdade quero falar de uma pessoa, que pra mim é mais um personagem. A figura do personagem sempre me impressionou, é incrível como uma pessoa pode conserva dentro dela tantos significados, sejam eles bons ou ruins. Vejam os casos de Frank Abagnale Jr, Assis Chateubriand, Luis Inácio Lula da Silva, Adolf Hitler, Michael Jackson, Ronald Reagan, John Lennon, Dom Quixote, Jesus, a lista é longa, mas é inegável o peso que um personagem têm na história da humanidade. Quero falar aqui de um personagem esquecido, na verdade ele praticamente não existe é mais ou menos como aqueles dialetos indígenas, de uma tribo com pouco mais de cinqüenta pessoas, que cedo ou mais tarde irá deixar de existir. Talvez com a minha modesta contribuição este personagem maldoso e perverso sobreviva. Estou falando de Alma Seca.

Sei que vou ser julgado por não deixar Alma Seca morrer e cair no esquecimento, mas ao fazer isto não estou enaltecendo as maldades que ele cometeu, muito pelo contrário, quero que eles sejam lembradas para que ninguém as cometa novamente. Alma Seca foi um dos maiores homicidas que já existiu, ele matava por prazer e justificava que era o que sabia fazer. “Alguns são doutores, outros são juízes, alguns são carpinteiros e outros serviçais. Eu sou matador”, é assim que Alma Seca se definia, sem nenhuma vergonha. Se alguns acreditam que fazem o bem por uma dádiva divina concedida por Deus, Alma Seca tinha plena convicção que Deus o enviou a terra para matar. Ele não via pecado e muito menos erro em matar alguém, esta era a sua obrigação ou destino. Alma Seca tinha gosto de sangue.

Alma Seca não nasceu com este nome, sua mãe lhe deu o nome de Francisco Tavares da Costa. Menino bonito, forte e com o sorriso sempre aberto. Não podia ver a mãe que ia correndo abraçar. Nascido na cidade de Betim, município vizinho da capital Belo Horizonte, a cidade grande. Sua família era de Delfinópolis, inclusive não sabe ao certo se Alma Seca nasceu em Betim ou em Delfinópolis. Mas não tardou e aquele menino bom e feliz se tornou logo ruim e sedento por sangue. Ele tomou gosto pela coisa, gosto de sangue. Alma Seca mesmo relata esta passagem na sua vida. “Eu tinha uns cinco ou quatro anos, vi um cachorro passando de frente para a minha casa. Lembro que ele avançou em mim. Não tive dúvidas, eu tinha de matar aquele cão. Peguei uma pedra e bati com toda a minha força na cabeça do bicho. Ele morreu na hora, senti em mim a alma do bixo partindo e fiquei muito satisfeito. Satisfação de dever cumprido. Ali eu já sabia que iria matar muitas pessoas durante a minha vida”.

A frieza com que Alma Seca descrevia suas vítimas era de arrepiar. Para ele matar era tão ou mais satisfatório quanto fazer amor. Ele gostava de dizer todos os detalhes e adorava escutar o ultimo suspiro de suas vítimas. Era o seu orgasmo, seu clímax, seu momento de êxtase. Ele gostava de vítimas indefesas, abaladas e transtornadas psicologicamente. “Sempre gostei de matar mulheres. Elas são indefesas, fracas e fáceis de serem dominadas. Primeiro eu abusava delas sexualmente, mordia os seios, gostava de vê-las chorando. Claro que eu as estupravas e fazia questão de que não fosse nada prazeroso. Eu gostava de ficar horas espancando e estuprando as mulheres, algumas me pediam para matá-las logo. Elas preferiam morrer do que agüentar minhas torturas, intermináveis, lembro que certa vez, fiquei torturando uma mulher por quase trinta dias, ela implorou para que eu lhe matasse, só quando me cansei dela é que eu a matei.”

Alma Seca foi realmente um sujeito mal, vê-lo sempre foi apavorante, ouvi-lo pior ainda. Lembro que me assustava, o ódio que eu tinha por ele. Minha vontade era fazer com ele coisas muito piores do que ele fez com todas as suas vitimas. E isto me assustava. Igualava-me aquele ser perverso e mau, sentia-me capaz de cometer tais atrocidades com a mesma intensidade. E no final das contas, eu concluía, qualquer um pode ser mau como Alma Seca. Ele não era só mau, como também sortudo. São incríveis todas as acrobacias em que ele se meteu. Matou milhares de tiras, bandidos, inocentes e fez incontáveis vítimas, todas as fugas mirabolantes com destruição da cidade por onde passava.

Sobre este personagem peculiar, que acabo de relatar. Não posso dizer que foi o mais cruel e impiedoso, pois para a maldade não há limites. Não estou aqui elogiando suas atitudes. Ao lembrá-las, minha intenção é que isto não morra, não caia no esquecimento. Hitler, Stalin e Alma Seca estão sempre acontecendo novamente, pelo simples fato de que são esquecidos. Por isto, eles sempre renascem das cinzas e voltam cada vez piores. Eles querem que o esquecemos, mas prefiro lembrar de cada cena sórdida e cada sofrimento que homens com gosto de sangue são capazes de fazer e repetir.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Eu e meus problemas inúteis

Eu e meus problemas inúteis. Foi assim que me senti hoje e em outras ocasiões também. Afinal de contas, meus problemas são inúteis, supérfluos e bobos. Inocentes, por que não. Sempre que penso desta forma, me lembro da mãe, que perdeu seus três filhos homens assassinados, lhe restou sua única filha, que tinha distúrbios mentais. O que são meus problemas perto disto; imagino que nada. Não sou mãe, mas só de imaginar a dor de uma mãe, que perdeu seu três filhos. Para esta mulher, nada é demais. 11 de Setembro, atentado de Munique, um senador matando outro senador em pleno congresso, são coisas normais, o que pode de acontecer de extraordinário pra esta mãe. O que são problemas financeiros, inquietudes do amor, ter um chefe ignorante e carrasco no seu pé perto de perde seus únicos três filhos homens, todos assassinados. Esta mulher tem o direito de declarar guerra contra tudo e todos. Nem mesmo a ONU pode lhe provar o contrário, nada faz mais sentido, nada mais tem valor.

O maior problema de nosso século é a solidão, a indiferença, a falta de conhecimento. Vivem dizendo, que habitamos em uma aldeia Global. As notícias hoje são instantânea em qualquer parte do globo. É claro que estas afirmações, são meras ilusões. Tudo hoje em dia é de plástico, até o amor. Neste mundo de plástico, tudo desaba muito facilmente e nada é tão assustador. Além do mais, não devemos nos preocupar com os problemas alheios. Evoluímos, somos seres ocupados e extremamente importantes, assim são os seis bilhões de pessoas do globo. Não há tempo para se preocupar com o outro. Devemos apenas ler uma notícia, de um ou outro continente, cidade, bairro, país. E não há tempo para reflexão, se antes uma notícia demorava três décadas, para percorrer o planeta e com o tempo foi evoluindo para três anos, três meses, três semanas, três dias, três horas, três segundo, três milésimos. Hoje chegamos a incrível marca de três milésimos. O que isto trouxe de bom, realmente eu não sei, mas alcançamos esta marca tão desejada. Nesta avalanche de informações, nada custa e nada é realmente importante.

Ter seus únicos três filhos homens assassinados um dia já foi notícia. Hoje em dia não é digno nem de nota, o que dirá de uma investigação policial, com conseqüente processo judicial. Nada disto, temos que arquivar, contar, estatísticas, números, planilhas, porcentagens, índices, tendências, projeções, no final das contas homicídio, exportação, importação, comércio, dólar paralelo, varejo, barril petróleo é tudo uma questão de números. Está ai a solução para todos os problemas mundiais, transforme tudo em números e no final das contas tudo vai dar certo. Lembro daquela velha máxima do jornalismo: Cachorro que morde homem não é notícia. Homem que morde cachorro é. Será que isto vale nos dias de hoje, afinal de contas isto foi dito há cinco ou seis décadas, o que em comparação com outros tempos, da algo em torno de 10 mil anos. Lembra da música do velho Raul, em 10 mil anos o cara viu tudo. Hoje em dia, 10 horas não é possível de ser absorvido por uma vida humana. Pode ser uma tarefa fácil, para uma maquina com uma memória de 450 terabytes, mas é algo impossível para um cérebro humano.

É engraçado como a vida é cheia de progressões e regressões, são constantes idas e vindas, um vai e vem incessante, que não para nunca. Temos o tempo biológico, que marca sua estadia na terra com certa precisão, nos dias de hoje não consigo esconder minha velhice e décadas que já se foram. No entanto, apesar das rugas. A criança que existe dentro de mim, cada dia toma mais conta do espaço. E se no fim ou próximo dele acreditamos que vamos tomar as rédeas, ledo engano. A verdade é que nunca estamos preparados, o ser humano é o eterno despreparado.

Não consigo de deixar de pensar na mãe, que perdeu os três únicos filhos homens que tinha, lhe restando uma filha com distúrbios mentais. Minhas inquietações estão todas no passado. Na mulher que me amou e eu desprezei, lhe traí centenas de vezes com outras mulheres, que em algumas vezes nem sabia que eram a outra. Fiz tanta besteira no meu passado, que ele vive insistindo que já foi um dia o presente. Talvez esta seja minha maior dor de todos os meus problemas inúteis, todo meu trágico passado um dia já foi o recente. Passou diante dos meus olhos e eu não fiz nada pra evitar. Agora passa diante de minha memória, que nada mais pode fazer a não ser lamentar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Revolucionário chinês

Sonhar é difícil, lembrar mais ainda. Incomoda-me este estado, onde custo a sonhar sendo ainda mais ardoroso recordar do que sonhei. Fiquei assim por um bom tempo, sonhando pouco e não me lembrando de quase nada. Pra mim este é o estado vegetativo, se não sonho, não vivo. O pior é estado de inércia, em que estamos fadados a cair, é difícil injetar o veneno antimonotonia na veia e dizer boas palavras em um bom português, ou seja, é complicado desabafar, por mais que você tenha muito a dizer.

De fato eu preciso muito destas injeções de veneno antimonotonia, anda preocupante o meu estado de inércia fútil, que ando me arrastando. Mas posso fazer uma autodefesa, se faço isto é para sair do mais do mesmo. Não quero passar décadas falando o mesmo discurso por mais revolucionário que seja. Revolução não é ser coerente, não é dizer o que os outros querem ouvir e muito menos dizer a mesma coisa por vários anos. Tenho medo de cair neste arcabouço comum e de me copiar. O erro mais fatal que posso cometer é um auto-eu infinito, onde digo coisas que eu mesmo já disse, da mesma forma, com o mesmo olhar, da mesma perspectiva. E no fim das contas eu ser uma cópia continua do que já fiz há muitos anos atrás. É como entrar em um estúdio e gravar um Nevermind, In útero, The Dark Side Of The Moon ou um Thriller a cada ano que passa. Nenhuma obra artística é revolucionária quando você esta fazendo o que já fez, por melhor que seja a qualidade desta obra.

Talvez para evitarmos nos copiar indefinidamente devêssemos parar. Dar um tempo e ver no que vai dar. Foi mais ou menos isto que tentei fazer, mas ainda me vejo com o mesmo discurso repetitivo, revolucionário e vazio. Além do mais é intrigante se vamos sempre ter algo a dizer, a fazer, a criar, a construir. É como se fossemos infinitos e como o universo estamos sempre em expansão. Tenho minhas dúvidas, acho que a minha falta de fôlego em alguns momentos é o sinal, que a corrida esta chegando ao fim. "Amanha vai ser outro dia" é sem dúvida. Uma frase de esperança de um sentimento inabalável, de que dias melhores viram e que vamos estar sempre construindo um futuro mais agradável. Não sei, sou um tanto cético e sempre questiono até coisas deleitosas como: amanha vai ser outro dia.

Eu continuo discursando coisas tão vagas quanto discursava aos meus vinte anos. Tenho a leve impressão de ser um eco de mim mesmo. Faz alguns anos, que sempre penso: deveria ler mais, deveria me dedicar mais a música, ao canto, a vida social, aos prazeres da vida, sempre digo que logo farei isto. O fato é que este logo, já são algumas décadas. Eu sempre estou deixando algo para logo. Faço depois, digo sempre ao ver algo que me interessa e me deixa em estado de êxtase. O “faço depois” vira um bolo tão volumoso e incontrolável que o melhor é esquecê-lo. Recomeçar sim, mas por um novo caminho, o problema é que penso estar em um novo traçado, mas quando percebo estou no antigo, no velho, no ultrapassado. Estou novamente me copiando.
Como um revolucionário chinês, igual a mim tem mais um bilhão. Me sinto como uma rosa no meio de um ramalhete de rosas, quero ser a rosa de Léon Werth, sendo ela única não por ser a mais bela ou mais formosa. Ela é diferente por ser a rosa de Léon Werth, isto lhe torna única. Léon só tem aquela rosa, nenhuma outra é capaz de substituí-la por mais que semelhante que seja. É uma particularidade difícil de ser constatada e ainda mais de ser percebida, geralmente não damos bola para isto. Já tive a melhor mulher do mundo e não dei muita veemência, quando me dei conta não a tinha mais. Ela se foi, sem dizer adeus, nem mesmo um até mais. E assim continuo me copiando, sempre pensando: vai passar.

Guimarães Rosa dizia, que para falarmos do universal, devíamos partir do nosso quintal de casa. Sempre que leio, vejo, ou lembro-me de Guimarães Rosa, penso que deveria ler mais sobre este cara. É o que penso também ao cruzar as pontes de Madison, necessito dar mais valor a simplicidade da vida. As vezes eu me sinto o bêbado, que bebia para esquecer a vergonha que sentia por beber. Sinto-me responsável pela minha única leitora. Desculpe pelo meu sumiço. Mas nem sempre consigo ser um revolucionário chinês, que em sua verborragia dispara mil palavras. Às vezes me sinto tão impotente, quanto um cão, que só é capaz de latir, mais grave, mais agudo, mas intenso e menos intenso, sua variação é entre o latido e rosnar. Em ultimo caso, o grito latente de dor, aquele de momentos inesperados e de extremo pavor.

Deixo agora de ser um revolucionário chinês, que sempre acredita estar dizendo e fazendo coisas imprescindíveis para a humanidade. Percebo, que não, que não faço nada que outros não poderiam realizar. Estou apenas no lugar de alguém, por ter sido mais esperto em certo momento, mais ágil, mais trapaceiro, mais maldoso ou mais estúpido. Quem me garante, se estou no melhor lugar ou no máximo confortável. É aquela velha coisa: você já sabe, o que eu já sei, que você já sabe, que eu já sei, e não sabemos se vamos para onde não vamos, e não sabemos se amamos, quem não amamos, e não sabemos se fazemos, o que não fazemos, você já sabe, o que eu já sei...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Faço-te o favor de lhe prestar atenção

Nestes dias me aconteceu algo inusitado. Minha única leitora ganhou uma “concorrente”, para ser mais preciso, um crítico. Isto mesmo, um crítico. Daqueles bem chatos, rabugentos e que botam defeito em tudo. Mas compreendo, um crítico que se preze não pode achar nada bom. No máximo correto, caso contrário, ele não é um. Algo muito bom para um crítico é algo que não existe, um modelo ideal nunca alcançado no máximo desejado. Nem mesmo Pedaço de mim pode ser considerado uma boa canção de despedida. Mesmo que tenha versos como estes “Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim.. Oh pedaço de mim, oh metade amputada de mim.. Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto, do filho que já morreu.”  Para um crítico isto é uma mera simbolização da despedida, que cumpri bem o seu papel.

Minha única leitora vem comentando comigo, que quase não falo dela mais, que já me esqueci de sua importância. Tento lhe explicar que isto não é verdade, que me iludo sim com o meu falso estimulo, que tenho muitos leitores, um fã clube, muitos críticos, muitas mulheres que querem passar só uma noite de amor comigo. Enfim é o estimulo para continuar vivendo, em certos momentos preciso me enganar. Mas volto sim à realidade e lá esta ela, minha única leitora, linda, sorridente e sempre com um bom papo. E gosto da minha condição, se não tenho leitores, tenho uma única, que é muito importante e como conseqüência não tenho leitores indesejáveis, com seus comentários impertinentes ou vazios, que nos fazem arrepender de cada linha escrita. Por isto, não reclamo e agradeço por minha única leitora. Mas agora fui surpreendido e ganhei um crítico, ferrenho, feroz, estúpido e muito sincero.

Ao escrever “Destinos diferentes” me veio o crítico, não sei como tomou conhecimento de minha humilde existência e ainda por cima de minhas publicações. Mas por uma intervenção divina ou não, ganho um crítico. Em minha inocência ao conversar com ele. Pergunto meio espantado “Ahh você leu?  Um texto meu? Como? Destinos Diferentes? Ahh que coisa, não sabia que era um homem público, mas o que achou?” Fui piegas demais, concordo. Mas fui pego de surpresa é como se envolver em uma trama, que de repente muda todo o seu enredo. Alias muito sábio, quando dizem por ai “O combinado não sai caro”. Neste caso não houve combinação alguma, mal sabia eu, que tinha um crítico, sardento, moribundo e frenético bem a minha frente. Ele por ser um crítico fez tudo de caso pensado é o obvio ululante. Tramou tudo desde o início, primeiro pensou preciso de ler um mau escritor, um bem piegas, cheio de falhas gramaticais e com total falta de coerência e adesão. Para não fazer um serviço pela metade, ele queria um escritor inexperiente, ingênuo e sem leitores, tudo bem podia ter uma única leitora. Eis que me encaixo perfeitamente no perfil previsto pelo crítico, por isto me tornei alvo de sua truculência verbal.

Fiz uma pergunta infantil, o que acha disto? gostou? ficou bom? É tipo de coisa que não se faz com um crítico. Você tem de ignorá-lo, subestimá-lo e não dar a mínima importância para o que ele acha disto ou daquilo. Mas não fiz isto, muito pelo contrário, perguntei, mostrei meu interesse em saber sua opinião. Como crítico ferrenho ele começou aparentemente dizendo um elogio. Disse que era muito bom o tema, forte, explosivo e de total relevância. No entanto, pequei, pois só  fui feliz na escolha do tema ao desenrolar  a trama fui chocho. Chocho? Perguntei. É disse ele, chocho. Não disse mais nada, não quis dar maiores explicações. Alias eis que o crítico é perverso e adora provocar e dizer pela metade. Ele não gosta de explicar sua critica e nem gosta que elas sejam claras e simples. Quanto mais confuso ele deixar o criticado, melhor e se for possível até mesmo irritado, possesso, pronto pra matar. Neste caso o crítico atinge o seu orgasmo, chega em sua plenitude ao ponto máximo de satisfação e delírio. Neste momento, o crítico se sente autor de uma verdadeira obra prima de importância muito maior do que a própria obra que originou a sua critica.

Alias os críticos dos críticos sempre dizem isto, mas este povo ai não cria só critica. Um grande erro, pois os críticos criam sim. Eles criam algo que seria o oposto de toda criação. Criam à antípoda, a complementação que o autor não seria capaz de cunhar.  Ele faz o que poucos tem coragem de dizer, além disto, fala com propriedade, embasado em livros de Platão, David Hume, Aristóteles, Descartes. Assim como nas obras semelhantes, suas influencias antepassadas. O crítico é tão bem embasado, que sempre nos perguntaremos, afinal de contas, por que ele é não é um autor? É tão dedicado, inteligente, criativo e tem tanto conhecimento, seria ótimo como criador, no entanto, preferiu ser crítico. Opressor dos sem talentos, dos maus escritores. Daqueles que como eu, custam a escrever três folhas, que apesar da dedicação e empenho, não saem boas escritas.

Nestes dias ouvi falar do escritor Ryoki Inoue o maior escritor do mundo, isto mesmo. Ele sozinho publicou 1079 livros, dentre eles alguns clássicos  e imperdíveis como “E agora Presidente”, “Onde esta Pablo Escobar” e muitos outros. É preciso destacar que ele apesar do nome difícil, não é nenhum norte-americano ou europeu. É um brasileiro, num país onde não se ganha nenhum Nobel e não me venha com o discurso de país subdesenvolvido não ganham o Nobel, pois a Argélia já ganhou, até mesmo as Ilhas Faróe, Irão, República da Macedônia, Mianmar, Trinidade e Tobago, Islândia, o Brasil não, samba e carnaval não ganham nobel só ganha os gringos mesmo que vivem berrando “Rio de Janeiro, cai- pi – ri – nhá (eles falam soletrando) , mulata (como se as norte americanas fossem santas)”, isto atrai  turistas não o Nobel. Mas apesar de tudo isto, temos o maior escritor de livros do mundo, recorde registrado no Guinness Book desde 1993, tendo sido médico antes de ser escritor. E se ele é capaz de escrever um bom romance em seis horas, eu até hoje não tenho meu livro. Espero não morrer sem publicar um livrinho, um mero e único livro pelo menos.

Mas agora me sinto completo, tenho minha única leitora e o crítico, sardento, feroz, truculento, que em qualquer desnível de minha parte ira me denunciar, me delatar sem o mínimo pudor. Para o crítico o simples ato de saber da minha existência, de perder o precioso tempo dele com minhas publicações, já é um grande prestígio alcançado por mim, autor. Entre inúmeros e insignificantes autores, consegui o meu crítico mordaz.  E assim todos estão felizes, eu, minha única leitora e minha pedra no sapato. E sempre ele vai dizer  “Olhe, presto atenção em você, isto não é o máximo”. E assim são os críticos, verdadeiros criadores de todas as obras primas criadas pelo homem.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Destinos diferentes


Conheci duas mulheres tão diferentes que foi impossível não compará-las. Uma era linda, cor de jambo, voz de menina doce,rosto de uma pessoa bem vivida e feliz apesar das angustias. Lorena já não era linda, tinha os traços bonitos, negra e alguns quilos acima do peso, seu rosto não era de felicidade e sim de sofrimento. Este sofrer que alguém só tem quando passa todos os dias pensando no que vai comer amanha. Lorena nasceu em 1978, assim como Lucia. Fora o ano, a letra L e o fato de serem mulheres, elas não tinham mais nada em comum.

Lorena teve seis filhos, Lucia não teve nenhum. (Pelo menos é assim até o presente momento, nunca se sabe quando uma mulher vai dar a luz). Lorena teve dois amores, Lucia não teve nenhum. Lorena nasceu na capital em um berço faminto. Lucia é de ótima família e nasceu nas Veredas. Lorena não conheceu o mundo da arte, não sabe quem é Pixinguinha, desconhece Jimi Hendrix e nunca sonhou em tocar um piano. Lucia tocava piano muito bem, sempre foi uma moça prendada, linda para uns e graciosa para outros. Lorena trabalhava em uma empresa comunitária de reciclagem de lixo. Lucia era médica. São tão poucas as coincidências na vida destas duas mulheres, enquanto Lorena ri, Lucia chora. Lorena ama e Lucia esta angustiada por que não conhece o seu amor.

Falei de Lucia e Lorena. Na verdade conheço Lucia e muito bem, até mais do que gostaria de conhecer. Por que tem certas pessoas que conhecemos e gostamos, mas não é algo planejado e esquematizado. Pode ser que no início pensamos em nos envolver e abusar da pessoa, depois de um tempo descartamos. Pelo menos é assim que pensamos algumas vezes no nosso intimo. Com certo receio e reprimindo a nos mesmo, mas usamos sim as pessoas e fazemos isto quase sempre de forma planejada. Quando conheci Lucia pensava isto, iria usar e abusar dela, depois não iria querer mais e independente do que ela pensasse ou sentisse iria desaparecer da vida dela. Foi assim no começo, mas com o passar do tempo Lucia foi tomando conta de mim e como naquela música, feito um posseiro se apossou do meu coração.

Um verdadeiro tiro pela culatra. Saia comigo quando queria, me beijou quando quis e me dispensou quando pode. Me fez viajar para irritar, me fez ligar para aborrecer. Até me fez compor um poema, para jogar na primeira lixeira que aparecesse. Só fui lembrar de Lucia ao conhecer Lorena. O ano de nascimento das duas era o mesmo 1978. O que aconteceu neste ano? Roubaram o corpo de Chaplin. As ilhas Salomão adquirem sua independência. Morre o Papa João Paulo I depois de 33 dias de pontificado. O cardeal Karol Jozef Wojtyla é eleito papa e adota o nome de João Paulo II. O presidente Geisel envia emenda ao Congresso Nacional para o fim do AI-5. É iniciada a abertura lenta e gradual. Acontece o suicídio em massa dos seguidores do Pastor Jim Jones, morrendo 912 pessoas. Nasce o grande filme O Muro, do Pink Floyd. O São Paulo vence o Campeonato Brasileiro de 1977 ao bater o Atlético Mineiro nos pênaltis, que perdeu o campeonato invicto. São lançados os filmes Superman, A dama da lotação. A Grécia adota a sua bandeira atual. Publica-se pela primeira vez a tira de quadrinhos Garfield, do cartunista norte-americano Jim Davis. Nascem Lorena e Lucia.

Se Lorena não tivesse nascido em 1978 ela não seria nada especial pra mim. Ela tinha sim a cara de sofrimento, o rosto de alguém que viveu todos os dias da sua vida pensando no pão de amanha. Nem por isto Lorena deixou de amar, de sofrer, de dar a luz, de sorrir e de agradecer a Deus a vida que teve. Lucia tinha tudo, mas sua angustia sempre esteve com ela. Parece que ela sabe que ser feliz era algo que ela não poderia ser. Mesmo tendo tudo pra ser, mesmo tendo todos aos seus pés. Mesmo podendo sempre escolher. Lucia não nasceu para ser feliz, não veio ao mundo pra dar a luz, não veio para amar. Sua sina era a infelicidade. Enquanto Lorena, que não tinha nada pra ser feliz, era e muito.


Falei que Lorena teve dois amores, todos os dois foram tirados de sua vida. Saíram de sua vida assassinados. Lucia foi trocada por outra algumas vezes. Enquanto uma teve a decepção de não ser amada como queria a outra teve o amor interrompido por uma ação violenta e inesperada. Afinal de contas um homicídio é sempre algo inesperado, por mais que saibamos de sua alta probabilidade em acontecer. É quase inevitável perguntarmos “Ele morreu mesmo? Está morto? Não tem mais chances? Não é possível, vi ele vivo horas mais cedo”. Mas o que é pior ter um amor vivo ou morto? Afinal de contas o morto não é por que os dois não se deram bem, já o vivo é por que ficou faltando algo. Lucia não teve um amor morto, todos estavam vivos e não queriam nada com ela. Lorena teve dois amores mortos e nenhum vivo.


Lucia era pra mim um assunto encerrado, até o dia em que conheci Lorena. Por falar nisto, é duro ouvir tal afirmação. Você é passado, um assunto encerrado. É bom de dizer e ruim de ouvir. Como dizia a minha professora “Tudo o que é ruim de passar é bom de contar.” O problema é ter coragem de contar, de dizer de desabafar. Gostaria muito de dizer como é na música “Deixa, eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar”, mas não tenho coragem esbarro sempre na minha moderação absoluta e intransigente. Precisamos ser flexíveis com nos mesmos, caso contrário nos tornamos uma Lucia.


Depois disto conheci Carlos e cedo, sem me conhecer dizia “Francisco você é um amigão”. Sempre achei engraçada esta forma dele falar comigo, pois só tínhamos a data de aniversário em comum vinte de abril. Fora isto ele era bombeiro hidráulico e eu um poeta, sem versos é verdade, mas um poeta. Minha mãe sempre me dizia “Menino mais um pouco e você tinha nascido no dia de Tiradentes”, nasci no dia vinte faltando apenas quinze minutos pra ser vinte e um de abril. Mas prefiro ser poeta a ser herói. Assim como prefiro Lucia ao invés de Lorena.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Maldito beijo


Tem histórias que ouvimos ou presenciamos e nunca mais esquecemos. Tenho muitas histórias pra contar, não preciso contá-las para não as esquece-las isto é uma tarefa impossível. Alias quando menino eu pensava que ter uma memória infalível era algo muito valioso. De fato é para se exibir em uma roda de amigos, em uma entrevista de emprego, para uma prova de algum cargo público e para que todos digam: este é o cara. Mas para os nossos sentimentos é cru, para não dizer que é terrível. Relembrar todo o passado e ligar aos fatos presentes pode ser cruel.

 

Quando temos uma memória tão viva é difícil acreditar que a sua companheira realmente lhe ama ou até mesmo a sua própria mãe. Afinal de contas com a convivência são inevitáveis as brigas e discussões. As verdades ou defeitos são disparados todos de uma vez e como em uma guerra onde a estratégia é atirar pesado com toda artilharia disponível. Tudo acontece tão de repente, que o lado que é pego despreparado mal dá conta de reagir. E para quem não esquece relembrar destes fatos é inevitável. Invariavelmente você acaba lembrando e nos momentos de mais intimidade e de entrega.

 

Patrício era um bom rapaz, pelo menos é a forma como eu o via. Ele era mais velho do que eu, minha mãe dizia que ele era um bom moço. De uma beleza discreta, pois não é daquelas que você vê de longe, apenas as pessoas que o conhecia via como ele era belo. Patrício mesmo se achava muito bonito, mantinha sua vaidade, mas pra ele o mais importante sempre foi os seus sentimentos. Ele não tinha vergonha de dizer que amava, de odiar, de mostrar sua indignação, seu sofrimento, sua luta, que sentia, como experimentava. Patrício era de fato um homem, que não escondia os seus sentimentos humanos. Era alto, forte, um sorriso sincero, uma boca grande, olhos pequenos e rosto de menino.

 

Patrício também era músico, escritor, poeta, jovem. E amou muito em sua vida, assim como sofreu muito também. O amor tem este efeito colateral, te faz feliz, para depois te fazer sofrer. Patrício dizia: - Não importa que eu sofra, o sofrimento é proporcional ao amor que vivi. Lembro de uma frase genial que ele sempre dizia: - Deus está nos detalhes. Para ele a vida era decidida por momentos e não por fatos definitivos. Nunca compreendi muito bem a sabedoria destas palavras, mas consigo sentir o que ele queria dizer. A cada passo que dou percebo como os momentos decidem todo o meu futuro, não percebo claramente, não é algo palpável.

 

Falei um pouco de Patrício, que foi uma pessoa magnífica que passou pela minha vida, na época eu era um menino e ele já moço. Mas apesar de toda sua genialidade, de sua sabedoria, sua intensidade de vida, ele deixou uma história que nunca mais vou esquecer. Patrício gostava de Verena desde o início. Como ele gostava de dizer: - Desde o primeiro momento. Verena era uma moça de olhos grandes, boca delicada, ombros lisos, cor de jambo. Patrício nunca escondeu o seu amor, sempre disse em alto e bom tom o quanto gostava daquela moça. Verena só achava graça, ria, corria e dizia que Patrício era um bom moço, mas não dizia se tinha interesse por ele, nem que sim, nem que não.

 

Patrício dizia não ter pressa, que no momento certo Verena iria ver o quanto ele era um bom moço e como ele poderia lhe fazer feliz. Eles conversavam, se viam, Patrício ia com calma, não queria assusta-la e nem pressiona-la. Verena não tinha um amor, queria sim ter um. Ela pensava em ter um homem sincero, de princípios e gostos parecidos. Um homem que realmente gostasse dela, assim como Patrício gostava. Um homem de cultura igual a Patrício, que gostasse de Chico Buarque, Rolling Stones, Frank Sinatra, David Brubeck, Louis Armstrong, Elis Regina. Um homem que gostasse dos filmes  de Woody Allen, Stanley Kubrick, Steven Spierbelg, Sidney Lumet, Quentin Tarantino, Martins Scorsese, Hitchcock, Clint Eastwood, Joel e Ethan Coen, Coppola quase todos os diretores preferido de Patrício. Um homem de intensidade como a de Patrício. Um homem integro e honesto como Patrício. Ele também teria que ser debochado, irônico e divertido como Patrício. Este homem que Verena tanto esperava e queria, poderia ter tudo o que Patrício tinha, só não poderia ser o próprio.

 

Com o tempo Patrício foi se aborrecendo, foi cansando. Ele desabafava comigo: - Se ao menos eu não fosse como ele queria, haveria uma consolação. Mas tudo o que ela me descreve, que lhe interessa eu tenho. Até mesmo o modo de vestir, o corte de cabelo. Enfim realmente Verena idealizava Patrício, mas ela não via desta forma. Pra ela Patrício era um ótimo amigo, mas não o amor de sua vida. E por mais que alguém lhe mostrasse o obvio ululante ela não via. Patrício era um detalhe que Verena não iria perceber nunca. E quanto mais este detalhe se mostrava vivo, mais Verena o negava, as vezes até se aborrecia.

 

Patrício sempre foi incansável, nunca desistiu de nada facilmente, Costumava dizer: - O segredo de que algo ser importante é a dificuldade em consegui-lo. Para ele a dificuldade em conquistar Verena era algo natural, até ali tudo bem. É claro que uma vez ou outra Patrício ficava aborrecido, chateado e dizia, que já havia passado tempo demais. Por fim Verena aceitou o convite de Patrício para os dois saírem, um encontro a dois. Todos da vizinhança ficaram na expectativa do que iria acontecer. No outro dia, Patrício foi simples: - Não aconteceu nada demais, conversamos, rimos. Olhamos-nos, nos tocamos, mas não houve um beijo. Beijei a bochecha, o pescoço, as costas, mas não demos um único beijo. Ela me disse que não era o momento, que ela não beijava ninguém sem estar realmente envolvida.

 

Depois deste episódio Patrício continuou o seu cortejo a Verena. O contato ficou mais intimo e agora Patrício era mais explicito ainda. Verena ria, ficava vermelha, tampava o rosto, mas começava a gostar de toda aquela corte de Patrício. É claro que Patrício sempre comentava no segundo encontro, marcaram uma, duas, três vezes, mas não estava dando muito certo. Um dia era Patrício que não podia, outro era Verena. Mas quase um mês depois, eles se encontraram novamente. Verena disse que não iria beija-lo mas por fim eles se beijaram. Ficaram horas se beijando. Patrício disse que foi o beijo mais sincero, cúmplice e bonito que já deu em sua vida. Ele dizia que poderia beijar muito ainda, mas não haveria beijo como aquele.

 

Trágico ou cômico depois disto Patrício e Verena nunca mais saíram e nem mesmo se viram. Patrício não soube nunca os motivos para que Verena não lhe quisesse mais vê-lo. Ele não procurou saber dos detalhes. Ele tinha achado perfeito o encontro entre os dois, não via motivos para este tipo de reação. Para ele este foi o mais duro golpe que Verena poderia lhe dar. Foi como lhe fincar um punhal pelas costas. Como alguém poderia ser tão intenso e depois tão indiferente. Tão vivo e depois tão ausente. Tão doce e depois tão amarga. Tão delicada e depois tão rude.Patrício nunca disse uma palavra sobre o episódio, alias, ele nunca mais disse mais nada. Ficou mudo, a ultima pessoa quem ouviu a sua voz foi Verena. Patrício morreu quarenta e cinco dias depois do seu ultimo encontro com Verena. Foram quarenta e cinco dias definhando, sem dizer nenhuma palavra, sem murmurar, nenhum gesto, nenhum olhar. Patrício sumiu e ficaram apenas as lembranças que tenho dele.

 

sábado, 4 de abril de 2009

Prefiro não saber

Eu sei que, ando sempre falando as mesmas coisas e bobagens. Tento mudar. Quase sempre em vão. As formulas se repetem, as chatices voltam e os cacoetes não me deixam. É mais ou menos como pisar na lama. Aquele bairro parece que nunca vai sair do seu sapato. Seria a minha sina? Talvez seja. Ir a todo tipo de lugar e ser olhado sempre com os mesmos olhos. As mesmas expressões nada simpáticas e os mesmos julgamentos. O meu corpo parece carregar o meu passado e parece que todos conseguem vê-lo em questão de segundos.

 

Todos nos temos qualidades, mesmo um assassino contumaz tem as suas. Eu tenho uma, que na verdade fico sempre me perguntando. Isto é qualidade? Eu tenho um super poder, leio pensamentos. Isto mesmo. Sei tudo o que as pessoas estão pensando. No entanto, só sei o que pensam de mim. Não sei o pensamento sobre a crise mundial de um economista. Sei apenas, que ele me acha um panaca. Os outros pensamentos que não são sobre mim, eu não sei. Simplesmente, não escuto. Em outras palavras o meu “super-poder” não é tão super assim. É algo bem pessoal, serve apenas pra mim e mais ninguém.

 

Isto pode parecer fantástico, saber o que as pessoas pensam de você, sem exceção alguma.  Sua mãe, seu pai, sua irmã, seu cachorro, seu amigo, sua namorada, sua amiga, seu primo, uma desconhecida, a atendente do caixa do supermercado ou mesmo sua professora. No entanto, só parece, pois isto é uma grande merda. Já “escutei” cada coisa do tipo: “Que cara mais chato”, “Que cara idiota”, “Ele se acha né? Não sabe de nada”, “Que pedante!”, “Ele não sabe nem se vestir”. Enfim é daí pra baixo, em certas situações eu não consigo nem conversar mais. Toda minha inspiração e boa vontade vão por água abaixo.

 

Minha vontade era de não saber, de não escutar. O pensamento do outro é dele, e não posso ter o direito de escutá-lo. Mas ao contrário do que pode parecer, não escolhemos ter ou não um “super poder”. É um dom, é claro que preferia ser um músico do estilo Pink Floyd, mas o que me sobrou foi escutar as asneiras que falam de mim. E como se isto não bastasse, eu sou curioso. Então quando não escutei os pensamentos, pois não estava presente. Pergunto o que fulano de tal ou sicrano falaram sobre isto e aquilo e especialmente, da minha pessoa.

Acho que isto acontece com todo mundo. Especialmente quando estamos falando de relacionamentos. Ficamos um tempo juntos com a pessoa, coisa de dois a três anos. Por fim tem uma briga o relacionamento termina e ficamos uns três meses sem nós ver. Neste intervalo saímos com outras pessoas e acontecem coisas intimas. Depois deste tempo, percebemos que o relacionamento não era tão ruim assim e o mais prudente é voltarmos com a pessoa. Como somos curiosos e bobos perguntamos: -Mas então, saiu com alguém neste tempo? – Sai sim, pessoa muito divertida. – É mesmo? – É sim.  – E teve algo? – Como assim teve algo? – Bom você sabe, foram pra cama? – Pra que você quer saber isto? – Ah só pra saber, curiosidade boba ( Espero que ela não tenha feito isto, não é possível que ela tenha ido tão cedo com alguém pra cama). – É rolou sim. – Ah ta. ( Eu sou um idiota, pensei que estava com uma mulher séria. Ela é uma qualquer). E você saiu com alguém? – Eu? É sai sim, mas não era tão divertido como o seu alguém. ( Mal sabe ela, que sai com todas as mulheres, que ela morria de ciúmes). – E ai, foram pra cama? ( É claro que deve ter ido, homens só querem saber disto). – Cama? Não, foi só uns beijinhos. ( É claro que fui, afinal de contas sou um homem. Alias todas foram muito melhor de cama do que ela). - Ah tudo bem. ( Ele pensa que vou acreditar nesta história, sei muito bem que ele levou a vagabunda da Ana Paula pra cama.)

 

No fim deste dialogo. Com certeza a conclusão não pode ser outra. Por que conversamos sobre isto? É algo desnecessário e sem utilidade alguma. Podia ser muito bem cortado. Alias o corte é o grande segredo do cinema. Só mesmo um filme bem cortado, que pode se tornar uma obra prima. Do contrário teremos um filme qualquer. Mas infelizmente não sabemos fazer isto muito bem. Tem coisas que é melhor não sabermos. Vai nos poupar de desgostos e aborrecimentos. Se um grande amigo seu dá de cima de uma garota que você também já deu, provavelmente eles falaram de você. Mas se ele não te contou nada, pra que você vai perguntar o que eles conversaram ao seu respeito? Com certeza não foi algo agradável. Esqueça o fato e siga em frente.

 

Ser o filho torto da família. É algo que pode ser trágico ou nada demais. Se eu fosse filho da minha irmã mais velha, preferia não saber. Depois de um tempo, em que você está totalmente acostumado com o fato de que sua irmã mais velha é sua irmã.  E que sua mãe é sua genitora. Eles chegam até você, quando tem uns quinze ou dezoito anos e te dizem que sua irmã, na verdade é sua mãe. E que sua mãe é na verdade sua avó. Prefiro não saber. Esta seria minha conclusão em um caso destes. Se eu fosse filho de outro pai, sabe minha mãe saiu com um cara transou com ele e ficou grávida. No entanto, o cara sumiu e ela nem teve como contá-lo. Minha mãe namorava e neste tempo tinha terminado.  O namorado ficou sabendo do caso e por gostar muito da minha mãe, me assumiu como filho e casou com ela. Uma história dessas, eu prefiro não saber. Já estou habituado que o marido da minha mãe é meu pai. Ele já se habitou com isto também, já tenho mais dois irmãos e sou o mais bem tratado de todos. Por que vou querer saber que o meu pai na verdade não é meu pai, que o verdadeiro pai, só transou com a minha mãe uma vez e nada mais do que isto. Ele nem mesmo sabe que eu existo, prefiro que continue não sabendo. Nem eu e nem ele precisamos saber da existência de um do outro.

 

Sinceramente há coisas que não devemos saber. Ao comermos um baby bife se soubermos o sofrimento que o animal passa. Teremos nojo de nossa própria futilidade. É necessário amarrar um animal, para que ele não exercite os músculos para depois comermos um bife super macio?  É preciso saber que o seu ex-namorado transou com a sua melhor amiga? É preciso saber que você nunca foi importante pra sua esposa? É preciso saber que a sua vida foi mera futilidade? Prefiro não saber de certas verdades e de certos fatos. Sou impotente diante de quase tudo, o máximo que posso faze é ficar com raiva, chorar ou me chatear. Portanto a ignorância em certos casos é necessária e de certa forma cai muito bem.

 

 

sábado, 21 de março de 2009

Vai ser feliz

Tão difícil partir. Nada mais complicado do que morrer. Falecer é uma grande partida. Temos várias durante a nossa vida. A mais dolorosa e sem sentido é a morte. É claro que falo sem sentido, pois estou do lado de cá. Talvez do lado de lá isto faça muito sentido e seja visto com bons olhos. Mas como o apego é grande preferimos não teorizar muito sobre o lado de lá. É o fim da linha pra nós e pronto. Não há muito que explicar. Melhor assim, estas discussões onde não se levam a nada são inúteis (Fala dos idiotas da objetividade).

Se tivermos de partir, temos de chegar. Temos de mudar. Existe toda uma necessidade de acontecer. É como costumo pensar sempre, como é engraçado a vida dos seres humanos. Sempre fico pensando como deve ser cômico ver a vida das pessoas em um nível geral. Ver milhares de pessoas acordando cedo ou tarde, se arrumando pra ir pro trabalho, escola, faculdade, encontro, desencontros, academia, enfim. Deslocando vários quilômetros ou alguns quarteirões. Isto sem falar nos vários meios de transporte usados, carro, caminhão, patins, tênis, bicicleta, cavalo, carroça, avião, helicóptero, ônibus. Depois que terminamos as nossas obrigações voltamos pra casa ou então passamos em um bar antes para tomarmos uma cerveja com os amigos. Alguns encontram com os amantes antes de ir pra casa. Mas no fim das contas todos voltam pra casa. Quer dizer todos não, alguns morrem antes de chegar. Isto pode acontecer, tanto na ida, quanto na vinda ou durante qualquer momento do dia. Em todo tempo.

Este pensamento cômico me faz pensar nas formigas, aprimorando o pensamento, num grande formigueiro. Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, estas grandes metrópoles não passam de um grande formiguei humano. E assim como olhamos um formigueiro e as formigas pensamos, que aquilo é uma grande inutilidade. Com certeza alguém pensa isto de nós ao nos observarmos, Deus, pode ser. Vidas fora da terra também, enfim deve ser muito caricato esta visão. E quando alguém pisa na formiga, esmaga aquele ser vivo. É o mesmo que acontece quando somos atropelados, quando um furacão invade uma cidade ou quando acontece um terremoto. Em proporção menor quando alguém mata uma pessoa. Enfim assim como as formigas estamos indo e vindo. Ficamos feito baratas tontas, num movimento constante sem fim e sem sentido.

Tudo bem esta visão geral e cômica não ajuda em nada. Vamos falar do que importa. Na relação das pessoas. O individuo com os demais seres humanos. Seus amigos, colegas, familiares, amores e entre outros. Há uma lógica destas relações. Tudo se baseia numa espécie de vinculo. Um contrato. Como todo bom contrato, todos tem sua duração. Cedo ou mais tarde os contratos acabam. É aquela frase dita nos anos sessenta: “O sonho acabou”. E no fim, como uma mudança de time uma parte diz a outra: “Vai ser feliz”. É claro que nesta frase sempre tem uma carga de cinismo e de sinceridade.

O que fica no ar é se temos este direito. Podemos dizer ao outro: “Vai ser feliz, o caminho é por ali”. Eu aponto a direção, eu sei o que é melhor pra você. Eu me pergunto: Que merda é esta? Afinal quem concedeu tamanha honra. É o que acontece sempre numa mesa de familiares ou amigos. Onde as pessoas começam a falar da vida de outra pessoa, que coincidentemente não está ali presente de corpo e alma. Se as pessoas falassem apenas de fatos pragmáticos, não seria ético, mas talvez justificável. Agora dizer sobre a personalidade da pessoa, sobre o estimulo dela. Como já disse anteriormente, sem estimulo a raça humana seria extinta, varrida do globo em questão de segundos. Me diz, com que direito digo sobre o estimulo de alguém. Nem do meu eu dou conta.

É o que acontece sempre quando vou ao psiquiatra ou ao psicólogo. É algo que costumo fazer com freqüência. Enquanto uns vão a igreja, ao bar, ou para Ilhéus. Eu vou ao psiquiatra. Alias sempre que vejo o Ricardo e sua irmã Larissa eles me perguntam. Então aonde vai amigo? Eu respondo com tranqüilidade: Vou ao psiquiatra, tenho de estar lá daqui a trinta minutos. Até mais, abraços. Às vezes retribuo a pergunta. Eles sempre estão indos passar uns dias num cruzeiro atlântico. E no final das contas, quem faz cara de espanto são eles. Afinal tem alguma demência quem vai passar uns dias num iate, que vai navegar pelo oceano pacifico?

Mas voltando ao meu habito de ir ao psiquiatra ou psicólogo, depende do meu nível de humor e curiosidade, escolho um dos dois. Sempre me pergunto, por que ele é um psiquiatra. Afinal o que da o direito dele denominar que alguém é louco ou não. Um diploma de médico, com especialização em psiquiatria? Isto é o bastante para alcançarmos à sobriedade eterna? E um psicólogo? O que dá o direito pra ele julgar o meu estado psicológico ou qualquer outro ser humano ter este privilegio. Novamente irão-me dizer que é o diploma de psicólogo. Acho ótimo isto, tenho um diploma e posso agora dizer você é maluco ou você não tem um bom psicológico é um fraco.

O meu psicólogo mesmo é um fracasso. Tem um filho problemático. Parece que o menino é viciado em cocaína, heroína e não sei mais o quê. Segundo ele o menino é muito inteligente, acima da média. Mas sempre toma escolhas erradas. Parece que já começou uns cinco cursos universitários, mas não terminou nenhum. Já teve alguns empregos muito bons, mas também não continuou. Ao que me parece o garoto só tem persistência com drogas. Nisto não há quem o empeça de continuar, nem mesmo o seu pai psicólogo, conceituado e muito bem falado no meio. Parece que a filha dele se deu bem, só teve dois filhos de pais diferentes antes dos vintes anos, mas tirando isto é uma ótima pessoa. A vida afetiva dele parece ser ótima também, se não me engano já teve seis casamentos. É um homem disputado.

O meu psiquiatra é uma pessoa tranqüila e paciente, ele só não pode esquecer de tomar os seus remédios tarja preta. Alias ao começar uma consulta ele sempre me fala, daqui a trinta minutos tenho de tomar um remédio. Ele toma vários, então não pode errar os horários, pois caso contrário pode até sofrer uma overdose. No meio da consulta ele levanta e pede licença. Volta e fala: - Este é crucial para manter a minha lucidez. Ele tem uma teoria interessante. Segundo ele todos são malucos, mas com o avanço das áreas médicas temos os remédios, que reduzem e/ou controlam estes distúrbios. Por isso todos devem tomar remédios, do contrário, iremos tomar atitudes fora do padrão aceitável pela sociedade. Eu sempre minto e digo que estou tomando todos os remédios que ele me receitou. Pra mim remédio é só mais uma dependência química e de vício, eu já estou cheio.

Eu posso não ser psicólogo, psiquiatra, cartomante, futurólogo, um messias, mas quem pode nos dizer? - Vai ser feliz.

sábado, 7 de março de 2009

Você não existe pra mim

Como é bom voltar à inspiração, sei que a minha única leitora não vai acreditar. Pode parecer mero recurso estilístico, mas passei por período um bem amargo. Vamos ao que interessa.

Há pessoas que nos encantam, nos deixam transtornados, amargurados, desesperados ou até mesmo a beira da loucura. E tudo isto pode acontecer sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso prévio. Aquela frase: o que é combinado não sai caro. Não funciona bem neste caso. Assim como o Big Bang, onde não sabemos por que começou e muito menos o motivo da continuação, assim é com estas pessoas que nos cativam. Quando vemos já estamos sedados e encantados por aquela pessoa. No primeiro momento isto pode parecer ótimo, formidável, excelente. Mas como quase tudo não é o que parece ser. Isto pode ficar muito mal no final.

Lembro agora de uma linda garotinha que eu conheci. Na época era um garoto também, apenas uns dois ou três anos mais velho. Ela era linda tinha uns quinze anos de idade, branquinha, cabelos ruivos e lisos, olhos cor de mel, lábios finos, algumas pintas no ombro e um lindo corpo. Ela também nunca dispensava uma boa maquiagem e um formidável figurino. Não existia possibilidade de eu não me encantar por ela. Além de tudo, ela tinha um ótimo papo. Em poucas palavras, nos entendíamos muito bem. Como já disse me encantei com ela em questão de poucos segundos, mas houve algo que ela me contou, que nunca mais esquecerei.

Não lembro bem o nome dela, acho que era Clarice ou Clara. O que interessa é que ela me encantou, me deixou a beira da loucura, mas no final eu sobrevivi. A história que ela me confidenciou era sobre uma doença infantil que ela teve. Catapora ou sarampo, pensando bem acho que foi caxumba. Enfim sei que esta doença foi um pouco mais grave do que o habitual e por causa desta complicação, ela perdeu noventa por cento de visão do olho direito. Nesta época ela tinha uns dez anos de idade. Com o passar do tempo este olho dela, perdeu os movimentos e ela usava o cabelo para tampá-lo. Praticamente um tapa-olho natural. Passado um tempo, ela foi ao médico e ele fez a observação sobre a mania de esconder o olho com o cabelo. Por incrível que pareça, ela não percebia que estava fazendo isto. Era algo quase que inconsciente. Mas depois desta “bronca” do médico, ela chegou em casa e passou a treinar o movimento deste olho na frente do espelho.

O treinamento era bem simples, ela ficava bem próxima do espelho, com o dedo indicador fazia movimentos para que o olho acompanhasse. Inicialmente o olho quase que não obedecia, ele ficava lá parado. Depois de uns dias treinando o olhou começou a responder. Ela fez isto por três meses, com isto o olhou voltou a ter movimentos normais como o esquerdo. Ela nunca mais teve problema com este olho, ele apenas continuou um pouco “cego”, mas em perfeita harmonia com o outro, pelo menos em questão de movimentação. Depois disto ela nunca mais precisou do seu tapa-olho natural. Se antes de ouvir esta história eu já era encantado com ela, depois disto ela entrou pra eternidade. Mas não foi isto o que mais marcou.

O que de fato ficou foi o sentimento lindo que eu tinha por ela, mas que não foi correspondido. É claro que houve sim uma correspondência, mas o dela foi fugaz, passageiro. Como um perfume logo o cheiro se foi. Eu permaneci ali encantando, bêbado por ela. Mas nada disto fazia muito sentido pra ela, pelo menos foi assim depois de um tempo. Já se passaram décadas que isto aconteceu e até hoje eu sou encantado por ela, não sofro por isto é apenas a forma que me lembro dela. Não quero falar de uma pessoa em especial, ao longo de nossas vidas são muitas as pessoas que nos encantam, Clara ou Clarice foi apenas mais uma e não estou dizendo encantar apenas no sentido amoroso. Há amigos, colegas, políticos, celebridades, atletas, escritores, músicos, um universo de pessoas que nos cativam.

Encantar é assim mesmo, sem explicação. É como gostar de azeite. Sabemos que é ótimo, um verdadeiro néctar dos Deuses, mas qual é a explicação para isto? É mais ou menos assim, que acontece com as pessoas. O que torna tudo ruim é quando não somos correspondidos. Estamos ali olhando pra pessoa e ela não nos olha. Mandamos uma carta pra pessoa e ela não responde. Fazemos mil elogios e ela nem se mostra grata. Você a cheira e ela nem sente o seu cheiro. Você beija e ela não sente. No final das contas você esta encantando por alguém, que nem sabe da sua existência.

Uma vez conheci uma mulher em uma cidade há cem quilômetros ou centro e trinta quilômetros de distância da minha cidade natal. O nome dela era Lorena ou Gabriela, não me lembro bem. Foi um gostar instantâneo, inicialmente isto aconteceu com os dois. Ela me adorava e eu também. Ela tinha um ótimo senso de humor, um lindo sorriso, uma linda boca, cabelos cacheados e pretos e era muito meiga. Nunca vi mais frágil do que ela, o meu encanto por ela era lindo. Eu não cansava de elogiá-la, pra mim ela era quase perfeita. Depois de um tempo ela se cansou de mim e deixou de me olhar, de me ver, de conversar por fim eu era um estranho. Um verdadeiro desconhecido, enquanto pra mim ela era tão interessante quanto a Natalie Portman. Pra ela, eu não passava de um mendigo, destes que você vê deitado na rua, há dias sem tomar um mísero banho e com uma caneca do lado para as pessoas deixarem suas moedinhas. Ao passar por mim, nestas condições. Nem mesmo esmolas ela me daria, passaria ao meu lado e ignoraria a minha presença, nem mesmo um olhar discreto e rápido eu receberia.

Tem pessoas que a gente cisma com elas e nem sempre ou quase nunca elas cismam conosco. Então fica aquela coisa inútil, que não serve de nada e no fim das contas nem existiu. É muito engraçado quando isto acontece. Sabemos a vida da outra pessoa, o que ela fez, o que deixou de fazer e o que faz atualmente. Com quem casou, namorou, noivou, quantos filhos teve, onde morou, onde nasceu, o que já escreveu, qual música gosta de ouvir, quais livros são de cabeceira, quantos amores ela já teve. No entanto, quando alguém pergunta pra esta pessoa sobre você. Ela simplesmente, não sabe de quem se trata, ou seja, você não existe pra mim. Ela não sabe o seu nome, de onde veio, o que já fez e muito menos o que vai fazer. E nem desconfia o quanto ela é importante pra você. Assim há muitas pessoas que te marcam eternamente e nunca mais vão sair da sua memória, mas esperar que isto aconteça também é um tanto infantil demais.

Alias não importa que você, não exista para a pessoa. O sentimento de carinho não deve fenecer por meros detalhes. Tem pessoas que vimos umas cinco ou quatro vezes na vida e isto foi o suficiente para você lembrar-se dela pra sempre em sua mente. E não é aquela lembrança defunta, muito pelo contrária, é viva, forte e singular. E estas coisas podem acontecer com quem você menos espera, pode ser com a sua vizinha, com alguém que mora longe, com alguém que viu uma única vez ou algumas vezes, com uma pessoa que você atendeu no trabalho ou mesmo com uma que você viu no ponto de ônibus. Neste mundo de possibilidades é difícil mensurar quem vai deixar de existir ou não pra você.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Do contra

Muitas vezes já me disseram que sou o do contra. Dizem que a minha posição é sempre contrária a de todos. Sinceramente, não gosto que me classifiquem desta forma, alias não gosto de nenhuma classificação, Mario Quintana dizia: “O estilo é a uma dificuldade de expressão”. Pois então, me classificar é justamente me limitar, me amarrar, me subjugar, me colocar uma camisa de forças. E não estou disposto a ser limitado, já bastam às limitações físicas. Não vou dizer como Nelson, que se limitou ao dizer que era reacionário. Pode até ser que o meu auto-ego, no fim goste de ouvir “Você é do contra”, “Você é um crítico”, tenho de confessar que isto massageia o ego. Mas é uma perspectiva idiota. Não há nada critico em me rotular como “do contra”. Além do mais, não é isto que eu faço.


Não vou tentar necessariamente me explicar, apenas irei levantar alguns pontos para serem refletidos. Primeiro se um caminho pode ser feito como uma linha reta ou como um rio, cheio de meandros. Fico com o segundo. É claro que isto não é sempre. O mais provável é que eu fique com o caminho tortuoso. Este é o ponto, as coisas nunca são pra sempre, as escolhas não são eternas. Há o mais provável, o mais comum, o cotidiano, mas isto não quer dizer que o inusitado vá deixar de existir. Observamos a natureza, ela se comporta quase sempre na sua probabilidade, há o ciclo da água, o ciclo do carbono, existe todo um comportamento regular. No entanto, vemos catástrofes acontecerem, tsunamis, vulcões em erupção, tempestades, furações. Então cadê a regularidade, nem mesmo a natureza é sempre a mesma, há dias bons e os dias ruins. Eu não sou favorável a morte do inusitado, do bizarro, do avesso, do contra e muito menos de mim.

Na verdade me incomoda me posicionar sobre algo, dizer sim ou não, marcar um x. Escolher é sempre a perda de algo. E isto me incomoda. Eu gostaria de ficar em uma posição confortável. Nesta eu não teria que escolher, sofrer, renunciar. Seria como ficar em cima do muro. Pra mim este é o ponto ideal. Não escolher, mas este não opinar, não é uma negativa e muito menos uma afirmação. É a posição na qual não houve nenhuma pronuncia de valor. Neste caso ele não disse nem sim, nem não. Eu prefiro assim, infelizmente esta dádiva não foi me dada. Sempre me vejo na posição de escolher, não consigo chegar à neutralidade. Refletindo sobre o que acabei de falar, vejo que Deus é muito parecido com isto. Deus não se intromete em nossos assuntos, ele nos deu o livre-arbítrio. Fico na curiosidade se isto foi para nos favorecer ou para favorecê-lo, afinal de contas é justamente esta posição, que vejo como o ponto ideal. Não há dor na consciência, não há culpa. Não há participação seja nas vitorias ou nas derrotas. Não há nem mesmo a torcida.

E qual é a minha posição, se não é a esta de não opinar, de me ausentar de qualquer parcela de culpa. Ser do contra como todos dizem? Se todos tivessem uma visão clara da situação eu concordaria com eles, mas não é este o caso. Eu não sou do contra, sou apenas o defensor dos oprimidos, diria em uma visão poética. Mas sem romantismo, apenas defendo lado que ninguém quer defender. E qual é a razão disto. Simples, acredito que as diferenças sejam um dos fatores que mais contribuem para evolução da raça humana. Há outros que pensam o contrário, um bem famoso é Adolf Hitler. Este acreditava na supremacia da raça ariana. Voltaire já dizia: “Posso não concorda com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”. E este o meu objetivo, defender o lado que esta perdendo, ou mesmo sem defensores. Afinal de contas vivemos em mundo pós-moderno, dito democrático e como dizia Nelson: “Toda unanimidade é burra”.

Um motivo plausível é que gosto de desafios, qual é a graça de torcer para Michael Phelps. Eu não vejo nenhuma. O impossível é que me agrada. Muitas coisas já foram impossíveis, hoje são banalidades. Além do mais imagine, qual seria a graça se todos os seres humanos do planeta terra pensassem da mesma forma. Imagine só que monotomia que seria o mundo, da sono só de pensar. Talvez eu defenda justamente isto as diferenças, a irregularidade, as polêmicas. Sei que isto pode parecer maquiavélico, mas não é esta a minha intenção. Eu simplesmente não sei me calar. Confesso que isto, não é bom o tempo todo, às vezes o silêncio é a melhor resposta ou a resignação. Mas não adianta, não consigo me conter, tenho que me pronunciar sempre que falam aquela frase: “fale agora ou cala-se pra sempre”. Afinal de contas nunca é uma palavra muito pesada, imagine não me pronunciar mais sobre tal assunto, nunca mais. Não sei ser um sujeito mediano. Não sei pensar como a maioria, todo jogo da vida é muito complicado pra mim. Eu resumiria a minha vida no seguinte dilema, um dia, um novo drama ou um dia, um filme.

Como diziam os Mutantes: “Dizem que sou louco, por ser assim, mas louco é quem me diz, que não é feliz, não é feliz”. É justamente este o ponto que incomoda a grande maioria. Não me comporto como eles querem. Sou uma doença, um vírus. Realmente não sei levar a vida sem questionamentos, sem dramas, sem polêmicas. Não consigo levar a vida da mesma forma que um cão. Lembro agora do meu cachorro. Na minha adolescência havia um em minha casa. Sempre o observei e confesso. O animal me incomodava, ele nunca estava preocupado com o seu futuro. Com a vida que levava. Os comportamentos dele eram sempre os mesmos, as manias, irritações e ansiedades não mudavam. Comecei a relacioná-lo com as pessoas, foi nesta hora, que percebi por que eu era considerado do contra. Eu não sabia imitar o cão. O meu grande problema era a falta de simulação e naturalidade em ser um cachorro. Não sabia agir como a grande maioria. Como eu gostaria de ser aquele animal simples e singelo, infelizmente não tive esta sorte, serei eu sempre um ser irracional.

Obs: Trata-se de um desabafo de um eterno desconhecido, não havendo nenhuma proximidade, semelhança ou qualquer coisa parecida com o autor do blog. No caso o autor só teve o trabalho de registrar o choro de um homem brasileiro e ignorado.