domingo, 28 de dezembro de 2008

A vida imitando a arte

Um dia desses ao ir à padaria fui abordado por um vizinho. Nunca tínhamos conversados, no máximo nos cumprimentados. Mas neste dia não teve como ele já chegou me interrogando: "E então camarada como é aquela história da professora? ". Tive um susto na hora, não entendi a pergunta e retruquei: "Que professora? Do que está falando? Não esta me confundindo com alguém, tenho um rosto muito comum". O sujeito foi decisivo e disse: "Claro que não meu camarada, é você mesmo quem publicou a história da professora que te trocou por outro". Nesta hora me veio à memória do que aquele sujeito estava falando. De uma publicação recente minha “Amores da Juventude”. Então expliquei pra ele que era tudo ficção, que há sim pedaços da realidade, mas no fim das contas é tudo fruto da minha imaginação, que sai colando os pedacinhos do real e com isto faz uma história fictícia.

O meu vizinho não ficou satisfeito com a minha explicação saiu de lá mais convencido de que a história era mesmo de fato realidade. Mas esta conversa abruta e no mínimo estranha me estimulou em publicar novamente uma explicação sobre o que eu escrevo ( Já publiquei sobre o assunto em “Ponto nos is”). O fato é que me incomoda muito ter de pensar, que o que eu escrevo vai ter reflexo na realidade. Eu sei que temos responsabilidades pelo o que falamos. Inclusive isto é a premissa da liberdade de expressão. No entanto, escrevo ficção e não posso ser responsabilizado por algo que não tenha de fato uma conexão com a realidade, pode haver sim coincidência, mas isto esta longe de ser algo que possa me responsabilizar. Não estou falando apenas de responsabilidade jurídica, o que mais me incomoda é a obrigação moral.

Certos acidentes entre o mundo real e o meu fictício me impedem até mesmo de publicar ou de escrever sobre algo. É uma verdadeira auto-censura, quando não é uma censura explicita. No mínimo é muito egocêntrico pensar que eu escrevo sobre determinada pessoa ou caso familiar. Nas minhas imaginações não existe conhecidos ou desconhecidos é um modelo ideal, imaginado por mim e pronto. Alias o meu amigo Jô sempre escreve no fim de suas publicações a seguinte explicação: “Esta é uma obra de ficção. Mesmo as figuras históricas nela apresentadas são tratadas de forma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade. Qualquer semelhança dos personagens fictícios com personagens reais não passa de fortuita coincidência.”. É mesma explicação que tenho sobre as minhas publicações, sem tirar e nem por uma linha, palavra, vírgula ou mesmo ponto.

O que me intriga nesta história toda é se as pessoas fazem isto por implicância ou por não conseguirem mesmo distinguir entre ficção e realidade. Pois a diferença é brutal. No entanto, as desconfianças e até mesmo incredulidade total que se trata de ficção estão mais vivas do que nunca. Eu já joguei a bandeira branca contra esta batalha cruel e insana. Desisto de dizer que escrevo ficção pura e simples. Só estou me resguardando para que no futuro não digam que nunca me esclareci e estou fazendo isto pela segunda vez.

Um ponto que me intriga muito é a confusão do autor com a pessoa física quem escreve. Eu autor não sou, o eu físico. Assim como crio vários personagens eu acabo sendo mais um personagem e não mera continuação física e psicológica da pessoa quem assina as publicações. Tudo bem que isto pode parecer um tanto confuso, mas isto tem uma explicação filosófica. Eu não sei dizer, pois não sou filosofo, apenas sei que tem uma elucidação do assunto ou então próximo disto. O máximo que sei dizer, que tendo um autor e a pessoa quem escreve. Separadas uma das outras, há maior liberdade de imaginação. O grau de poder da escrita se torna maior, posso inventar o personagem quem eu bem quiser que seja. A pessoa quem escreve na verdade é muito sem graça, fútil, boba, ingênua e o pior, sem muitas histórias pra contar. Então para dar mais de mim à minha única leitora dou pernas pra quem quer. E tem mais, eu autor discorda das idéias da pessoa quem escreve, enfim as opiniões de um e de outro não são necessariamente convergentes.

Tudo bem que pago caro pela minha liberdade de escrever e imaginar. Mas tudo tem o seu preço e se pagamos é por que vale o valor pago. Mas não culpo a ninguém por esta confusão. No fim das contas tudo é confuso, não há distinção tão clara entre o real e o não real ou mesmo que é a realidade? É difícil dizer até onde um quadro influencia na realidade ou o quanto ele foi reflexo do real. Enfim as coisas não são pretas e nem brancas são cinza. Não quero acabar com as coincidências, sei que elas existem. É bom que isto aconteça, mas que predomine o razoável. Se é que isto é possível.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quando o mundo desaba

Estive pensando sobre a busca da felicidade. Sobre a certeza do amanha. Parece que as pessoas no geral se preocupam demais com a aposentadoria, em ter uma casa pra morar e em ter o que comer. Na velhice ninguém quer saber de se preocupar com dinheiro. Passamos à vida inteira planejando um final confortável e sem muito esforço. Os planos são diversos, as lutas são diárias e os problemas constantes. No fim temos uma única certeza, o medo esta sempre ai, ele é a nossa mola propulsora.


Lembro quando era menino e me diziam, se você não trabalhar ira morar debaixo da ponte. Morria de medo de um dia morar debaixo de uma ponte, como um vádio. Nada podia ser mais assustador do que ter um futuro tão público e miserável. Nesta época qualquer coisa errada que eu fazia vinham às ameaças. O bicho papão iria me pegar e assim foi até eu descobrir que o tal bicho não existia. Depois fiquei sabendo do Diabo, este até hoje eu não sei se existe, mas que ele é usado constantemente como a explicação dos nossos problemas, chego a ficar com pena do Diabo, tudo é jogada na conta dele. Sempre falam: Anota na conta do Diabo, do Cão, do Tinhoso, do Carcará, do Danado.


O engraçado que apesar do medo constante, de vivermos na síndrome do pânico. No fim ou durante a maior parte do tempo “vencemos” passamos por cima dos problemas, com muito custo pagamos todas as contas e prolongamos as que podemos. No fim passamos de ano e de semestre, conseguimos o nosso emprego, o nosso diploma, nosso carro, temos os nossos filhos, nosso companheiro, nossa família. Com um pouco de sorte e suor temos uma vida boa. Estou falando disto, por que conheci uma mulher que tinha tudo isto ou pelo menos era isto que parecia.


A história desta mulher é bem simples, aos dezoito anos casou com o seu namorado, eles já estavam juntos há dois anos. Foi ele, quem tirou sua virgindade. No ano em que eles casaram, ela tinha conquistado sua vaga na faculdade de Medicina. No ano seguinte ela teve uma filha. O marido cuidava de uma das empresas do pai. Dinheiro nunca foi problema, os dois se amavam, viviam bem e felizes. A filha era linda, inteligente e sem nenhum problema grave para a sua idade. Ao formar em medicina esta mulher se especializou e virou cirurgiã plástica. Como dinheiro nunca foi problema, em pouco tempo esta mulher tinha a sua clinica de cirurgia plástica. A sua filha estava em plena adolescência e eles já tinham mais de quinze anos de casado. Eram a verdadeira família americana, podiam até fazer um comercial de alguma margarina.


No entanto, a vida desta mulher como a vida da maioria das pessoas era um castelo de cartas. Esta mulher estava estudando para passar em um seleto grupo de médicos, depois de dois anos de muito esforço ela passou, o resultado saiu. A felicidade era imensa. O sentimento de uma vida perfeita estava vivo neste dia, a filha ficou muito feliz. O marido não a viu pessoalmente, mas por telefone lhe disse o tamanho de sua felicidade. Incrível mas tudo dava certo para esta mulher, ela casou com o homem da sua vida, adorava a sua profissão, tinha uma filha saudável e bonita. O seu circulo social era completo e rodeado de boas pessoas. Uma vida invejável. Até o dia em que ela ficou sabendo o resultado do concurso, apesar de ter passado e estar muito alegre. Esta felicidade não duraria mais do que doze horas. Isto mesmo nem um dia completo durou e não estou falando de uma mera chateação, estou falando de um problema sem solução , sem volta, um sofrimento eterno.


O marido da mulher foi encontrado morto no interior do seu luxuoso veículo. Isto mesmo, assassinado, com dois tiros na cabeça. Se às 18h00min o marido lhe dava os parabéns. Às 10h00min da manha do dia seguinte a Policia ligava pra ela, lhe informando do homicídio cometido contra o seu marido. Não vou entrar no mérito de quem foi e por que o mataram, mas adianto que não se trata de latrocínio. O fato é que a família americana começava a ruir. Dois dias depois, ela descobriu que o seu marido tinha uma amante há cinco anos. Fato contado pela própria concubina sem tirar e nem inventar nenhum detalhe. A mulher quis saber de tudo e a outra não hesitou em contar, as juras de amor, as noites mal dormidas, do noivado, das brigas, de tudo. Sem falar da herança deixada pelo marido, dívidas, muitas dívidas. Negócios sujos também não faltavam, aquele homem ético e cheio de caráter se tornou um verdadeiro canalha. Um canalha mor. A filha tornou aversão ao pai, à mulher começava a pensar no lado positivo do assassinato e a amante foi quem mais perdeu. E agora quem iria sustentar aquele luxo.


Difícil falar da vida, mas entendo que vivemos em uma bolha de sabão, que a qualquer momento pode estourar. E este estouro acontece assim, sem avisar, sem perguntar e sem volta. Uma bolha estourada é pra sempre. O cômico é que não reconhecemos vivermos em uma bolha, muito pelo contrário. Pensamos que estamos seguros que somos capazes de resistir a uma guerra, a uma invasão de extraterrestres. No fim não somos capazes nem de mandar em nossas próprias vidas. Quando o mundo desaba é que vemos a nossa real condição. Não nos damos conta, mas vivemos em um castelo de cartas. A qualquer momento tudo pode desabar, não é que isto vá acontecer. Podemos sim passar por este mundo achando que somos invencíveis, mas sempre acredite, as coisas podem desabar e sem nenhum aviso prévio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Senso comum da porra

Um grande amigo meu, Bernardo, “O fora da lei”, tem o costume de observar a sensibilidade das pessoas, no sentido, de como estas pessoas interpretam, interagem e se comportam no mundo. É um ponto de vista interessante, um tanto mesquinho às vezes, mas Bernardo, “O fora da lei”, não faz isto para se sentir melhor que ninguém, muito pelo contrário, é uma crítica pessoal de si mesmo, o maior medo dele é se tornar um senso comum da porra, como ele costuma dizer.

Alias esta frase dele: “Senso comum da porra”. Sempre contorna os meus pensamentos, de vez em quando me pego pensando justamente isto qual é o senso de certa pessoa. As minhas conclusões na maioria das vezes são frustrantes. Nelson escreveu muito sobre os idiotas, como eles estão por toda parte e como vem dominando o mundo. Sinceramente eu pensava que isto fosse um exagero, que no fundo os idiotas só estão por ai, vegetando como qualquer outro vegetal. Mas como Nelson alertou, os idiotas perceberam que são a maioria e daí foi um passo para a dominação. Um idiota subiu em um caixote e começou a falar, em segundos vários idiotas pararam pra ouvir.

O mais inteligente a se fazer é ser um idiota. Isto mesmo camuflar-se, esconder-se, caso contrário a esfinge irá te devorar. É bom gritar também: “Viva aos idiotas!! Viva!!”. Algo muito similar ao que se fazia na idade média dando vivas as majestades. O que me assusta ou frustra é que os idiotas ou os sensos comuns da porra estão em todos os lugares e quando digo todos é até onde você menos suspeita ou mesmo dúvida. Inclusive as pessoas que você menos espera.

Um dia desses fui a um debate, que discutiam sobre o senso comum. Como as pessoas tendem a pensar o básico. Resumidamente era isto, que estavam debatendo é claro, que em tom crítico e com o objetivo de contornar a situação de alguma forma. Achei brilhante a idéia de se discutir à monotomia dos pensamentos, ideologias, enfim o modo de pensar das pessoas no mundo atual, inclusive havia neste local a presença de pessoas, que a priori não tem nenhum senso comum.

Pois bem não fiquei nem até a metade do debate, os filósofos se assim posso chamá-los só diziam o que qualquer senso comum da porra falaria. Sai de lá frustrado, pensava em como aquilo poderia ser realidade. Afinal de contas onde estão os gênios, nunca conversei com Francisco Buarque de Holanda ou com o pai do mesmo Sergio Buarque. Há muitos gênios, sim há, mas os idiotas são em número significativamente maior. Outro problema os idiotas falam dos gênios e muito. Eles interpretam e discutem sobre o que os gênios falaram. Isto acontece mesmo que eles não entendam uma linha sequer do que esta sendo lido. De tanto conversarem e comentarem fica algo muito parecido, com aquela brincadeira da notícia.

Com certeza brincadeira da notícia não é algo muito claro, vou tentar explicá-la. Ela é feita da seguinte forma conta-se um fato para uma pessoa e esta vai passar para outra, quanto mais isto passar de uma pessoa pra outra melhor a brincadeira fica. Exemplo do fato: João inventou calunias sobre Pedro e este foi tirar satisfações. Depois de passar na boca de vinte e oito pessoas diferente com certeza o fato vai mudar. Podemos imaginar que a ultima pessoa diga o seguinte: João transou com a esposa de Pedro, que por sua vez matou João. É claro que isto é um exemplo, que os fatos podem mudar muito. É justamente o que acontece com os gênios suas idéias, pensamentos, ideologias e etc. São desvirtuados do original. As interpretações feitas pelos idiotas transformaram tudo em uma grande idiotice.

Às vezes eu me pergunto, onde esta o Jazz, a Bossa Nova, o bom e velho Rock, a música clássica, o funk, soul, os grandes escritores, as grandes obras, os grandes filmes. O mundo da arte e cultura se tornaram extremamente monótonos. Vem a minha mente agora a música eletrônica, nada mais maçante. Em outros campos também, alguns já era se esperar, como o meio empresarial, este é o mundo das máximas. No meio acadêmico por incrível que parece, predomina o senso comum não há construção de conhecimento. Não há mais o desvio de pensamento. Parece que os seres humanos estão ligados em rede, mas ao invés de sermos uma rede independente. Somos uma rede de suporte, verdadeiros recipientes vazios e ocupados por alguma coisa que não seja nossa.

O pior de tudo é se envolver com os idiotas, ter amigos idiotas, namoradas idiotas, esposas idiotas e entre outros. Imagina se apaixonar por uma garota senso comum da porra. É o fim, com toda certeza. Mas neste mar de idiotas, é inevitável uma hora ou outra você vai se envolver com uma senso comum da porra e irá apaixonar-se. É como digo sempre: ser corno é apenas uma questão de tempo. Ter um leitor senso comum da porra deve ser algo muito frustrante e ao mesmo tempo freqüente. Talvez seja por isto que os grandes escritores são pessoas reservadas e de pouquíssimo contato com os seus leitores. É medo de ser o pai da tragédia. Afinal de contas é uma grande responsabilidade ser um escritor, no fim das contas você não tem leitores e sim seguidores, alguns lunáticos. Agora imagine se todos são um senso comum da porra. É a morte do escritor, o grande fim com F maiúsculo. Por isto, a reclusão, o afastamento, enquanto não sabem quem é o leitor, os grandes escritores conseguem dormir com a consciência tranqüila.

O trágico é saber que os sensos comuns da porra se camuflaram, eles inclusive adoram posar de certos personagens, como intelectual, educador, consultor, psicólogo, músico, poeta, escritor, engenheiro nuclear, comunicólogo, jornalista, advogado, professor. No fim das contas é aquela velha história: é a vida imitando a arte ou é a arte imitando a vida. Não há como saber onde estamos pisando, não há escapatória. É como ser um político honesto. Um poeta lúcido. Enfim há inúmeros personagens que os idiotas gostam de vestir. No fim das contas eu sou um senso comum da porra. A única diferença entre mim e o mar de idiotas é que eu reconheço a minha realidade e insignificância.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As coisas não são o que parecem ser


Nestes dias vi mais um filme dos irmãos Coen e fiquei empolgadíssimo com o filme. Ele é simplesmente genial, fantástico, surpreendente. Por falar nisto, um amigo meu me disse algo muito interessante. Estávamos falando de um outro amigo e dizíamos que ele tinha um problema em seus atos, pois ele nunca conseguia grandes feitos. E o meu amigo disse tudo, falta gana para este nosso amigo. Isto mesmo, gana, vontade, persistência, insistência. As pessoas precisam disto para viver e saborear as coisas do mundo. Não me faltou gana ao ver este filme, cada quadro foi saboreado lentamente, com muita vontade. Depois do filme fiquei anestesiado, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo.

Os irmãos Coen falam de assuntos que me interessam. Às vezes eles exageram no seu humor negro, mas não é por causa disto que vou deixar de gostar do que eles fazem. Eu gosto dos pontos de vista levantados por eles. O filme termina com uma frase impactante “E, no final, o que nós aprendemos?”. Pois é o que fizemos? O que construímos? E afinal de contas no que deu aquele livro que você leu? Aquela formula de matemática que você resolveu? Enfim, o que nós aprendemos? No fim das contas parecemos formigas. Nada mais que formigas. Já viram como é engraçado, uma formiga percorre uns trinta metros, que deve ser uma distancia quilométrica pra ela, chega uma pessoa e pisa na formiga, que estava carregando algo trinta vezes mais pesado do que ela. Todo aquele esforço empreendido foi em vão.

No fim das contas é o que acontece conosco, estamos em nosso veículo. Um menino de dez anos de idade, que nunca saiu do bairro dele. Aproxima do carro segurando um revolver calibre 38. Ele segura a arma com as mãos tremulas e diz timidamente: é um assalto. O homem se assusta e tenta arrancar. O menino assustado puxa o gatilho. O tiro é certeiro acerta na testa do homem, que morre imediatamente com os miolos estourados. O menino mal vê o rosto do homem, só vê muito sangue. Logo em seguida ele sai correndo sem rumo e direção. O menino não sabe se o homem morreu, ele só queria o relógio e uns trocados. Não queria atirar em ninguém. O homem estava indo buscar o seu filho, de Cinco anos, na escolinha. Neste dia ele tinha sido promovido e iria ganhar o dobro do que ganhava. No final das contas quem é o sujeito da ação?

As coisas não são como parecem ser. È uma das conclusões que tiro desta falta de nexo lógico entre as ações. O que estamos fazendo? Quem esta com quem? Quem é bom e quem é o mau? Quem mente pra quem? Quem trai? Que nos controla? Quem controlamos? Quem manda? Quem desmanda? No fim é patético ser homem. Há algo mais idiota do que a burocracia? Um dia desses em conversa com um amigo, disse pra ele sobre o problema de colocarmos todas as nossas soluções no mundo jurídico e ele me deu uma explicação razoável para este processo. Os homens não confiam nos homens, nem mesmo o pai confia no filho e vice-versa. Os amigos não confiam nos amigos, os primos não confiam nos primos. A desconfiança é absoluta.

Ele deu um exemplo entre nós dois. Eu havia convidado ele para irmos almoçar na minha casa naquele dia. Tínhamos ido a um evento e na hora do almoço lhe chamei para ir até a minha casa. Isto foi combinado previamente no dia anterior. Não fizemos nenhum contrato escrito, foi apenas verbal. Ele confiou na minha palavra e eu na dele. Mas digamos que na ultima hora eu desfizesse o compromisso. O que ele poderia fazer? Absolutamente nada, fizemos um acordo verbal sem testemunhas presenciais. Era a palavra dele contra a minha. Aquele tarde de fome que ele passou, não tinha reparação jurídica. E o mesmo aconteceria caso ele não fosse, nada pior que a visita faltar ao almoço.

No entanto, se tivéssemos feito um contrato, eu poderia descumprir a minha palavra. Ele iria entrar contra minha na justiça e eu seria obrigado a pagar a multa estipulada no contrato, que era o valor de duas semanas de almoços do meu amigo, no seu restaurante de costume. No caso dele quebrar o contrato, ele pagaria o valor de duas semanas da dispensa da minha casa. Este caso é um absurdo, mas no fim das contas é o que fazemos com freqüência no dia a dia. Fazemos contratos estúpidos, pois somos seres desprezíveis capazes de tudo para se dar bem.

Os irmãos Coen sabem muito bem ironizar o comportamento humano, que é um tanto ambíguo e imprevisível. Os seres humanos se tornam idiotas do nada, sem nenhum motivo aparente. Um homem pode ser honesto a vida inteira, isto não é garantia de que nos próximos cinco minutos ele não aceite fazer algo ilícito. É como costumo dizer sempre, todo criminoso já foi um cidadão de bem antes. Isto pode parecer meio idiota, mas é o primeiro argumento dos criminosos. Sou um homem honesto, nunca cometi nenhum crime, tenho a ficha limpa. É o que eles dizem sempre. De fato é verdade, até aquele dia, aquele homem foi honesto. E assim são os homens, um relacionamento tem a sua fase pura, até a primeira traição. Antes de uma mulher ser um saco de pancadas do homem, ela nunca tinha levado um soco. E no fim um idiota, pode cansar de ser idiota e se tornar um grande homem.

Enfim ninguém esta livre de pecar ou de errar. Somos humanos e imprevisíveis. E na maioria das vezes estamos fazendo algo sem sentido ou sem objetivo. E no fim tudo vai ser decidido em uma reunião com pessoas, que você não conhece e nunca viu. Mas são estas pessoas que detêm algum poder de decisão. Elas nem sabem o que estão decidindo e por que, apenas decidem ou apenas fazem. No fim das contas é aquele velho ditado: Não pense, faça. Onde vamos parar com tudo isto? Não importa, o importante é continuarmos o mundo não pode parar. Eu estou no Show business.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Amores da juventude

Estava me lembrando estes dias do tempo em que era jovem, quando eu ainda tinha os meus vinte e poucos anos. Bons tempos aqueles. Tudo bem, que o jovem é por sua própria natureza, é estúpido. Comigo não era muito diferente. Lembro-me bem dos meus abafamentos, das minhas inquietudes, das minhas consternações. Agia por impulso, me envolvia piedosamente nas minhas paixões. Entregava-me de corpo e alma. Eu não devia entender muito bem, aquela famosa frase: “Quanto maior a altura, maio é o tombo.” Pois bem, os meus tombos eram dignos de registro.

Falando assim da minha juventude, lembrei de uma paixão desta época, esta foi um caso singular. Não digo isto, por causa da garota, que era linda, inteligente, extrovertida, única. Neste caso, o contexto, que é o inusitado. Primeiro pela forma que eu a conheci. Foi na época da faculdade, ao contrário de que todos dizem, não tenho muitas saudades desta época, não houve nada de mágico na minha vida de universitário, os meus colegas de faculdade, na sua grande maioria eram todos insuportáveis, um bando de idiotas. Esta garota chegou a ser minha colega de faculdade, mas não tivemos contato, só fui percebê-la, quando ela se tornou minha professora substituta. Muito irônico, eu ainda não havia me formado, e ela, que era alguns períodos na minha frente, já era professora, tudo bem que substituta, mas é inegável, que ela estava em uma posição muito mais confortável que a minha. O fato é que ela ser minha professora, foi à única forma que o destino teve de nos encontrarmos. Desde a primeira aula, trocavamos olhares fulminantes, confesso, que não sabia bem o que os olhares dela queriam dizer, os meus eram claros, eu tinha achado ela fabulosa e não havia nada que eu pudesse fazer para controlar os meus olhares. Já ela, poderia ser simples nervosismo, já que aquela situação não era nada confortável. Ser professor novato deve ser uma experiência muito difícil.

Estava me esquecendo de um pequeno detalhe, nesta época, eu tinha um namorico. Estes namoros, que a gente não sabe bem por que começou e damos graças a Deus de terem terminado. É muito similar a aquelas festas que vamos e no meio dela pensamos: “O que eu estou fazendo aqui”. Mas passado dois meses de aula, este namorico já havia acabado, sem nenhum trauma é claro. O resultado mais interessante do termino dele, foi o meu súbito interesse pela professora. É engraçado chama-la de professora, ela era muito mais a minha veterana do que o contrário. Desta vez eu não apenas olhei, resolvi me aproximar e por fim me declarar apaixonado. Tudo ocorreu de forma muito rápida. Não foi nada planejado, as coisas foram evoluindo, aos poucos a idéia me parecia natural. Tive um medo natural, que tudo desce errado e nada pior, do que levar um belo não da sua professora.

No entanto não foi isto que aconteceu, a professora me correspondeu, é claro, que ela achou aquela história toda complicada. Assim como eu, ela já tinha tido relacionamentos polêmicos, aquele seria apenas mais um. No inicio foi tudo perfeito, escrevi algumas cartas de amor pra ela, ela lia tudo, me respondia e correspondia. É claro, que no começo era tímida, quase não dizia um sim, mas aos poucos foi ficando mais a vontade. Já me escrevia cartas de amor também, naturalmente saímos, trocamos carinhos, nos beijamos. Nas aulas seguintes era um tanto estranho vê-la como a minha professora. Mas disfarçávamos e ninguém desconfiava de nada. Fora da faculdade éramos um casal comum, sem nenhuma diferença do habitual.

Infelizmente, nosso relacionamento não durou muito. Eu esqueci de contar, mas quando ainda estava nas minhas investidas sobre a professora, inclusive fiz uma música pra ela, que era mais ou menos assim: “Espero de você um sinal de viver, uma marca de um doce ou um afago qualquer...Espero que não me entenda mal, afinal eu só quero te amar.. Carla me cala, Carla me ama”, mas nesta época havia uma certa resistência por parte da minha professora. Ela dizia que havia saído de um relacionamento muito chateada e que não se sentia disponível para outro caso, naquele momento. Não dei bola para isto, sabia que era uma questão de tempo e de fato foi. O que eu não sabia, é que este relacionamento ainda estava muito vivo. No momento, em que eu não media as palavras para me declarar, em que me entregava de corpo e alma nas nossas noites de amor, quando tudo era azul. Aconteceu o trágico, o inexplicável. O cara, que havia literalmente chutado a bunda da minha professora, resolveu procura-la.

Não vejo que o cara fez mal, eu no lugar dele teria feito o mesmo. Os homens são canalhas por natureza. Ele saiu do relacionamento, para arrumar algo melhor na opinião dele. Não aconteceu nada, naturalmente ele volta para o ponto onde estava. O raciocínio dele é simples, como de um canalha. O que me surpreendeu nesta história toda, não foi ele e sim ela. Afinal de contas, ela já havia se declarado pra mim, já tínhamos dois meses de relacionamento, já tínhamos tido noites de amor incríveis. Até cartas de amor ela já havia escrito. Eu não esperava outra atitude dela, era natural, que ela lhe desse um não bem dado. Mas como tudo na vida é confuso, ela não fez isto, pelo contrário, reatou com ele no mesmo instante, em que ele terminava de falar a sua intenção. Alias, ele nem acabou de falar, ela já tinha dito: tudo bem, eu volto pra você. Naquele mesmo dia, ele foi para a casa dela e lá fizeram amor a noite toda. Bem parecido com aquela música: “Eu faço samba e amor à noite inteira, e tenho muito sono de manha”.

O mais obvio é pensar no que me aconteceu. Foi bem simples, três dias depois, vou atrás de minha professora e pergunto o que teria acontecido. Era notável a mudança drástica dela nos últimos três dias, não conversamos no telefone, não trocamos e-mails, não nos vimos, enfim ela me evitou este tempo todo. Não houve muitos rodeios por parte dela, ela disse o que aconteceu, em partes é claro, não me falou sobre a noite de amor. Talvez isto fosse ser sincera demais. Primeiro ela me disse o obvio, que eu era lindo, muito, mas muito interessante, que estava gostando muito de mim, que era tudo perfeito. No entanto, o outro tinha aparecido primeiro, ela já tinha uma história com ele, e ela não sabia tomar outra atitude naquele momento, mas talvez um dia pudéssemos ficar juntos. Confesso, meu primeiro sentimento foi de humilhado. Nada pior para um homem, do que ser trocado por outro. O amor pode acabar, as coisas podem não dar certo mais, pode haver muitas brigas, os dois podem ficar confusos, pode haver falta de respeito, traições, mas ser trocado por outro é o fim. E justamente isto que pensei logo em seguida, é o fim. Não havia mais volta, mesmo que ela mudasse de opinião na semana seguinte, não havia como eu aceitar aquele ato, imperdoável. Talvez Deus em sua infinita bondade não haja para ele, nenhum ato imperdoável. Já eu na minha infinita canalhice sou cheio de atos imperdoáveis.

Desde aquele momento, eu sabia, que era o fim, ainda combinei de almoçarmos, mas nos últimos trinta minutos, liguei e inventei uma desculpa qualquer para não nos vermos. Depois deste dia, não a procurei, quando nos vimos nas aulas, eu era um aluno comum. Todo o meu encanto por ela foi embora, em questão de dias, tudo se foi. Hoje me relembrando desta história, acho um pouco de graça em tudo. Depois não tive mais noticias de minha professora, logo formei. Não me enveredei pelo meio acadêmico, muito político em minha opinião. Não sei quanto tempo este relacionamento dela durou, se casaram, se noivaram. Enfim, desconheço todo o desfecho do caso. Foi um bom amor da minha juventude, apesar do fim traumático. Se pudesse, viveria tudo novamente, talvez apenas diminuísse o tombo, que neste caso foi bem frustrante.

domingo, 30 de novembro de 2008

O rosto que não muda



Algumas pessoas têm características raras. Eu conheço poucas que tenha. Não estou falando de beleza, afinal de contas o que é belo. Tendo a pensar que beleza é apenas um padrão imposto por moldes culturais, mas isto não chega a ser uma tragédia. É apenas um ótimo argumento para provar a futilidade da beleza. Mas não quero falar de aspectos estéticos dos seres humanos, isto realmente não me interessa. Pelo menos como algo a ser pensado.

Estou preocupado com as características raras, que algumas poucas pessoas possuem. Alguns são gênios, outros altistas, alguns para-normais, e outros não mudam a feição. E justamente estes que me interessam, as pessoas que não mudam de rosto, que não se alteram, aconteça o que acontecer. Eu conheço duas pessoas com estas características. Isto mesmo, apenas duas e olha que já conheci muita gente nesta minha longa vida. Um se chama Roberto, o amargo, e outro Flavio, o sorriso bonito. A diferença entre eles é apenas o estado de espírito.

Enquanto o primeiro nunca ri, nunca chora, nunca fica agressivo e muito menos enfurecido. O estado dele é apenas, indiferente a tudo e a todos. Incrivelmente ele nunca saiu deste estado, é inerte. É algo muito similar ao que é dito na física, se um corpo esta em movimento constante e não há força de atrito sobre ele, ele continuara infinitamente nesta constância. Assim é Roberto, o amargo. Parece que não há nenhuma força de atrito sobre ele, ou melhor, parece que nada age sobre ele. É como um ser invisível, sem matéria, sem arranhões. Nunca vi sair de Roberto um sorriso plástico, muito menos tímido.

Roberto não é uma pessoa calada e nem falante. O caso dele não é de que sua opinião seja aceita, ele não se preocupa com isto. Alias, ele não esquenta com nada, absolutamente nada. Não há assunto, caso, fato, polêmica, que faça Roberto alterar o seu humor. Nem mesmo a morte de sua mãe foi capaz disto. E ela não morreu de velhice ou de uma doença trágica, foi morta a tiros em um assalto no Banco. Roberto apenas disse: são coisas da vida. Isto sem mudar qualquer músculo do rosto. Ele não aparentava estar feliz, triste, calmo, nervoso, simplesmente estava com o mesmo rosto, com a mesma expressão, que tem desde que nasceu. Roberto era mesmo amargo.

Falando assim de Roberto, lembrei de um episodio curiosíssimo, apesar de Roberto ser assim indiferente a tudo e a todos. Ele gosta de futebol e até tem o seu time do coração. E nos dois torcemos pelo mesmo time, que é o Clube Atlético Mineiro. Não vou ficar dizendo aqui, como é torcer pelo Glorioso. Iria estender o assunto demais e não é este o objetivo. Mas então eu e Roberto fomos a final do Campeonato Brasileiro. Atlético versus São Paulo, não é preciso mencionar que o Mineirão estava lotado, capacidade máxima, não havia mais lugar para uma única pessoa. O time do Galo era invencível, no entanto, não saímos de lá com o título. Foi algo inacreditável, nem os jogadores do São Paulo acreditavam no título, se dizia até, que disputando com o Galo o fato de ficar em segundo lugar é um título. Não é preciso dizer como o Mineirão ficou mudo, triste, calado, alguns até gritavam, era o grito de dor. Mas o que mais me chamou atenção em todo espetáculo foi Roberto. Este não mudou nada, saiu do Mineirão como entrou. Seu rosto, sua expressão era a mesma, ele apenas ajeitou os óculos e disse: são coisas da vida.

É incrível como Roberto não mudava, neste dia não pensei na derrota do meu time do coração, só pensava na fisionomia de Roberto. Ela não mudava aconteça, o que acontecer. Era o mesmo, o amargo. E não conheço pouco Roberto, já estive com ele em muitas situações, sejam elas felizes ou tristes, ou mesmo trágicas. Lá estava ele sempre com a mesma expressão, o máximo que poderia expressa é dizer a famosa frase, “são coisas da vida”. Mas Roberto não é o único, conheço também Flavio, o sorriso bonito. Este esta sempre rindo, como o seu apelido revela. Mas o sorriso plástico de seu rosto, não significa nada, não era nenhuma pista ou vestígio. O sorriso de Flávio e nada era a mesma coisa. Quem não conhecia Flávio demorava um pouco para aprender este pequeno detalhe. Alguns o achavam sórdido.

Com certa razão é claro, lembro-me bem quando a esposa de Flávio veio a falecer em um trágico acidente, para completar o grau de catástrofe, a esposa de Flávio estava grávida. Foi uma morte fulminante, uma carreta colidiu de frente com o veículo onde estava à esposa, estavam somente ela e o bebe, ainda em sua barriga. O motorista da carreta estava dormindo, provavelmente já há cinco dias sem dormir, entrou na contramão e não houve muito que fazer. Flávio é claro, estava triste, péssimo. Na verdade o que diferenciava Flávio de Roberto esta justamente nisto. Flávio demonstrava os seus sentimentos, mas logo em seguida estava rindo. Seu semblante de tristeza e de não acreditar no trágico acidente, não durou mais do que cinco minutos. Logo Flávio estava rindo, não que ele já não sentia mais nada Muito pelo contrário, ele ficou sete anos amargurado com tudo isto. No entanto, não ficou um dia sequer sem dar um belo sorriso.

Um dia Flávio me confessou como era ruim ser daquele jeito. Explicou-me o que acontecia com ele. Era um verdadeiro paradoxo, Flávio tinha emoções, ficava triste, alegre, feliz. Enfim o seu humor variava como de qualquer pessoa. O diferencial era que aconteça o que acontecer, Flávio sempre demonstrava estar feliz. E isto não era por querer. Flávio não gostava de ser assim, muito pelo contrário, aquilo fazia ter raiva dele próprio. Ele chegava ao ponto de odiar a si. Penso que deve ser algo muito desconfortável, não poder demonstrar a ninguém, a nenhum conhecido que você sofre. Flávio inclusive me deu um exemplo, do que já aconteceu com ele. O caso da esposa eu já sabia, ele me contou de uma paixão. Daquelas que você nunca esquece, Flávio me disse, como amou esta garota, como sofreu por ela. É claro que contou tudo isto sorrindo. Na hora, isto não fazia diferença era até coerente contar tudo sorrindo. Naquele momento, realmente havia graça em toda história.

Mas como Flávio mesmo disse, é muito triste não poder demonstrar a dor que sente pela perda da amada. É o mesmo que sentir dor e não poder gritar, berrar, não poder expulsar aquele sentimento terrível. Ter que guarda para dentro de você é o mesmo que engolir uma dinamite. E assim era com Flávio, ninguém soube da dor que ele sentia pela perda de sua amada. É preciso esclarecer, que ela não faleceu, apenas o trocou por outro. Nem mesmo ela soube da dor de Flávio. Ele não ficou nem uma hora sem rir após saber de tudo. Qualquer coisa era motivo para Flávio sorrir. Seu sorriso era sempre plástico. Sempre bonito e sempre sincero, que é o pior de tudo. Não havia como dizer, tire este sorriso falso do rosto, pois não era falso. Flávio nunca deu um sorriso falso em toda sua vida. Apesar de se sentir, mal ele se sentia feliz. Era um paradoxo incrível. Nesta conversa que tive com Flávio, lhe disse a seguinte opinião. Como sei da pessoa incrível que ele era. Eu disse à ele, que pessoas como ele, devem ter ambiente para tudo. O amor e ódio podem conviver pacificamente em sua consciência A felicidade e tristeza não se matam, vivem em sua mente harmonicamente.

Flavio não gostou muito de minha explicação, disse, que queria parar de rir quando se sentisse mal, que gostaria de demonstrar aos outros o seu mau humor, sua irritação com certa pessoa. Enfim ser transparente, era justamente como ele queria se sentir. No entanto, aquele sorriso bonito, lhe parecia uma verdadeira mascara. Era justamente assim, que Flavio se sentia. Uma mascara permanente, que nunca havia tirado. Ele sabe que há o papel social, que todos devemos cumprir certo papeis em determinadas horas. Mas Flávio estava preso há um papel eterno. E ele nunca podia ser simples ele, Flávio. E havia o Flávio triste, o alegre, engraçado, o risonho, irônico, chato, pedante, mauricinho, uma infinitude de Flávios que ele poderia se tornar. No entanto, estava preso ao Flávio, o sorriso bonito. Falando assim de Flávio e Roberto, vejo como eles sofrem por terem um rosto que não muda. Há sim infinitas vantagens, mas as desvantagens são trágicas, disso não há dúvidas. O meu rosto é infinito, complexo, inconstante, instável, incerto. Espero que eu nunca me prenda ao rosto que não muda como os meus dois amigos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CENSURADO

Antes de públicar o próximo texto, quero esclarecer a minha única leitora, que por mais incrível que parece, ou mais surreal que possa ser, apesar de ter apenas ela como leitora. Fui censurado. Isto mesmo CENSURADO e isto, já aconteceram duas vezes, então há duas publicações minhas na gaveta. Estou tomando as providencias judiciais cabíveis, mas é difícil combater a CENSURA. Quem sabe daqui uns anos, eu possa publicar, enquanto isto fica na gaveta. Perdoe-me, minha única leitora.

sábado, 15 de novembro de 2008

Uma vida comum

Muito se fala sobre o futuro, sobre a vida depois dos quarenta. Sobre as realizações. Pra mim o mais importante que posso fazer em minha vida é ter uma vida comum. Serei realizado, sendo uma pessoa comum. Pode parecer estranho dizer isto, quase que brega, cafona. Eu não me preocupo, sei que serei feliz assim. Uma vida comum, me pouparia de desgostos, de tragédias, de grandes feitos, de grandes problemas, de grandes histórias de amor, de traições. Enfim não haveria muito que comemorar, nem muito que lamentar. Sei que isto não é compreensível, mas eu já cansei de uma vida conturbada.


É bom ter muitas mulheres, é bom ter muitos amigos, é bom ter muita farra, mas tudo em excesso pode estragar ou mesmo azedar. Vou ser mais pontual, vou falar de minhas paixões, infelizmente já tive algumas. Digo infelizmente, por que queria ter apenas uma, só uma e nada mais do que isto. Seja qual for o meu destino, sei que isto não vai acontecer. Já tive algumas paixões, como acabei de dizer e aconteça o que acontecer, no máximo terei mais uma ou mais algumas. Mas o meu sonho de fato era ter uma paixão de infância, daquelas, que desde pequeno, você sabe que é a sua cara metade. Não precisávamos necessariamente ficarmos juntos da infância até a velhice. Um pouco de vida boemia vai bem a todo mundo. Mas por mais, que eu me envolvesse com outra pessoa, e a minha cara metade com outro. No fundo saberíamos que o nosso amor é único, insubstituível, estávamos apenas passando o nosso tempo com outra pessoa. No entanto, o nosso coração se manteria inflexível a sua verdadeira paixão. Bom este era o meu sonho, não é mais. Já não é possível, passei a minha infância sem conhecer tal pessoa. E como é de conhecimento de todos, só se faz doze anos uma vez na vida, não há volta. Então terei que me contentar com algumas paixões, quem sabe milhares ao longo de minha vida.


Inicialmente isto pode parecer maravilhoso, ter milhares de paixão. Só de biografia sobre os amores, poderia escrever um livro de cinco volumes, cada um com mil páginas. E de fato um “Don Juan”, diriam alguns. Um veterano, um apaixonado, diriam outros. Eu diria que é um idiota. Teve muitas e não teve nenhuma. No fim a indústria cultura, se tornou a indústria pornográfica para este pobre rapaz. Pergunte a este Don Juan, se ele se lembra do gozo de sua amada. Primeiro ele ira perguntar, de qual amada se trata. Afinal de contas são tantas. Este é o problema, o homem de uma paixão só, não precisa perguntar de qual amada estão lhe perguntando. Ele só tem uma, a conhece como ninguém, cada pedaço do corpo, cada gesto, cada sorriso, cada olhar, cada tom de voz, cada suspiro, cada gozo, cada toque, cada beijo. Não há nada, que ele não saiba de sua amada. E isto só se consegue, tendo uma única e mais nenhuma amada. Eu não tive esta sorte e nunca terei. Sou um Don Juan, tenho muitas e nenhuma ao mesmo tempo. Já fui idolatrado por milhares de mulheres, muitas lindas, inteligentes, mulher que não se acha em cada esquina, o problema, é que as nunca conheci, no máximo algumas noites, outra apenas uma.


Sei muito bem, que posso parecer um canalha e realmente devo ser. Um grande canalha, mas não foi por que eu quis, não foi esta a minha escolha. Quis a vida que eu fosse um canalha, um Don Juan. Eu nem falei das polemicas, das brigas intermináveis, das discussões ideológicas, da minha fama de ser do contra. E tudo isto contra a minha vontade. Eu só quero ter uma vida comum. Consigo ate imagina-la, mesmo que saiba, que nunca vá acontecer, é possível pensa-la. Ela seria muito simples, sem nenhuma extravagância, imprevisibilidade, chateação, brigas, não haveria tragédias, nenhum homicídio. Alias este fato ainda não me ocorreu não me mataram. E eu não cometi nenhum homicídio. Confesso, já tive vontade de matar algumas pessoas, nada assim, fixo, foi apenas uma idéia leve, passageira, que logo se foi. Nunca ocorreu um homicídio próximo de mim também, nenhum parente, amigo ou conhecido assassinado. E ao contrário do que a grande maioria pensa, os homicídios são mais comuns do que os atropelamentos.


Voltando a minha vida comum, simples, cotidiana. Eu não ganharia na loteria, não ficaria milionário, não seria um político, nem mesmo um síndico. Não me tornaria um executivo bem sucedido, não seria diretor ou presidente de nenhuma empresa, clube ou associação. Enfim seria o que as pessoas chamam, de uma pessoa mediana, comum. Teria o meu carro, minha casa, minha família. Uns dois ou três filhos, uma esposa e talvez no máximo uma traição, bem passageira, já com quarenta anos de casamento. Não teria duas famílias, só uma. Meus filhos seriam bem educados, não se envolveriam com nada turbulento, enfim, uma família comum. Feita por uma pessoa comum. Não haveria extravagância, viagens pelo mundo, no máximo uma ou outra, feita com base em uma economia anual. Seria a família classe média. Talvez escrevesse um livro, nada fascinante, algo sobre um assunto que me interesse. Com muito custo conseguiria uma publicação, em alguma editora. Não venderia muitos exemplares, o máximo para cobrir o custo da edição, diagramação e tiragem. Sobraria-me uma merreca, mas teria algo para mostrar aos amigos.


Minha esposa, como já disse, seria uma namorada da infância, teríamos nos conhecido com oito anos de idade, ela teria tido uns três namoricos, mas nada demais. Afinal de contas teria sido o único homem que ele viu nu em toda sua vida. Minto, ela teria visto o seu filho, nu também. Algo muito comum entre mãe e filho. Não falei sobre o trabalho, nada demais, seria eu um funcionário, médio em alguma empresa privada ou pública, ganharia uma renda média e trabalharia, para não ser demitido. Sem grandes pretensões, de ser o melhor, de subir dentro da empresa, de ganhar rios de dinheiro. O meu dinheiro seria o suficiente para sustentar a família, minha mulher com a renda dela, pagava por aquelas coisas de mulher. Meus filhos teriam condições de se graduarem e até mesmo de seguir uma vida academia, se assim quisessem. E uma vez por ano, teria a viagem da família, para alguma praia ou país vizinho.


Falei basicamente, o que é uma vida comum para mim, e seria justamente este tipo de vida, que eu gostaria de ter. O mais engraçado ou irônico é que não consigo ter uma vida assim, sou sempre o centro das atenções, badalado, um verdadeiro Dom Juan, já tenho uma fortuna razoável e sem muito esforço ficarei rico. Não chego a ser uma celebridade, mas dentro do meu circulo social sou conhecido, apreciado, venerado. Enfim sou tudo, o que nunca quis ser. Não gosto de me envolver em batidas de transito, não gosto de me envolver com mulheres casadas, noivas ou comprometidas, não gosto de me envolver em ocorrências policiais, não gosto de confusão, não gosto de uma vida boemia em excesso e não gosto de ser invejado. Agora cheguei ao ponto principal de ter uma vida comum, ela não é invejada por ninguém. Não há o que temer, ninguém quer tomar o seu espaço, ninguém quer a sua mulher, que mal conversa com outro homem, ninguém quer o seu emprego, que é muito comum. O seu carro comum não é invejado. Pois bem, se eu pudesse escolher entre ser um Deus e um homem comum, não haveria dúvidas, seria um homem comum. No entanto, a vida não é feita de uma escolha simples e clara, muito pelo contrário o caminho é tortuoso, escuro e sombrio, a vida é complicada.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Emoção à distância

Li estes dias sobre emoção à distância. Dizia algo como a emoção que acontece em você depende da distância que o fato ocorreu. É algo obvio, mas como diria a minha mãe: O ovo de Colombo também era muito obvio. Alias os idiotas da objetividade sempre fazem isto. Vamos imaginar a cena. Em uma taverna estão todos enchendo a cara, contando piadas e zombando dos outros. Eis que chega Colombo e desafia todos ali presentes, havia algo em torno de cinqüenta pessoas.

O desafio era bem simples, Colombo perguntava quem ali era capaz de fazer um ovo ficar em pé, sem nada escorando, ou seja o ovo teria que apoiar-se em uma de suas extremidades. Alguns riram outros desprezaram, houve uns que debocharam sem o menor cinismo. Colombo já sabendo do resultado final, não retrucava nada, absolutamente nada, nem mesmo um sorriso plástico lhe saia do rosto. Os idiotas, que se achavam mais espertos, foram os primeiros a tentar, tentaram uma duas, três, milhares de vezes. Houve todo o tipo de tentativa, mas ninguém conseguia colocar o ovo em pé. Depois de todos desistirem e pedirem por clemência de Colombo, eis que ele sem anunciar o gesto, em questão dê segundos, pega o ovo, bate ele com uma pequena força contra o balcão e quebra uma pequena ponta do ovo e ele fica em pé, com o pequeno achatamento provado pela colisão. E diz: O ovo esta em pé, vejam. Ohhh todos dizem, mas logo os idiotas da objetividade falam, mas se eu soubesse que poderia quebrar uma pequena ponta dele ou mesmo achatar, para que o ovo ficasse em pé, eu mesmo teria feito. E logo todas as cinqüenta pessoas ali falam em coro, que coisa mais obvia senhor Colombo, você nos trapaceou, assim qualquer um coloca o ovo em pé.

O que vou falar é tão simples como ovo de Colombo, o que é a morte de um ser humano para outro ser humano? No mínimo a morte de um semelhante, algum leitor já viu um homicídio ocorrer bem à frente dos seus olhos? Eu nunca presenciei tal cena, mas imagino que a emoção seja tremenda, imaginem se for um irmão seu? Ou mesmo um amigo? Um tio? Sua esposa?, sua mãe? Enfim a emoção se torna cada vez mais plástica conforme vai se aproximando de você. Alguns iriam objetar, não espero a unanimidade e nem á quero, nada pior do que levar um dez. Passa a impressão que não foi corrigido ou mesmo lido. Um dez é a morte. Mas leitor se não viu o homicídio, você já viu o atropelamento de um cão ou vai dizer que não? Não precisa ser necessariamente um cão, pode ser um gato, uma zebra, um cavalo, enfim qualquer animal, que produza sons e demonstre sua dor em público.

Um belo dia, estou saindo de minha casa. Ao por os pés no passeio público vejo a trágica cena, que nunca mais iria sair de minha memória. Passa um automóvel em alta velocidade e atropela um cachorro, um vira-lata que sempre me incomodava quando eu chegava em casa, mas ele estava ali agora agonizando sua morte, que neste momento era inevitável e o pior com as tripas pra fora, muito sangue, uma cena plástica. A emoção em mim era inevitável, sofria por aquele cão como se fosse meu desde que nasceu, eu e o cão éramos agora inseparáveis, ele agonizava e eu também. O resto do meu dia não foi nada agradável, o cão sempre estava na minha memória, o seu atropelamento me chocava mais do que a morte de um menino na África por inanição. Só assim compreendia, por que nada me abalava. Eu sabia da miséria do Vale do Jequitinhonha, da indústria da seca no Nordeste, do trabalho escravo que acontece até os dias de hoje, dos trabalhadores Chineses, das milhares de Guerras que acontecem pelo mundo, dos milhares de homicídios que ocorrem a minha volta, nada disso me abala. Convivo pacificamente e harmonicamente com todas as catástrofes que ocorrem por ai, e isto pelo simples motivo da distância, estou distante de tudo isto. A simples distância me faz não sofrer ou sentir emoções quanto aos tristes fatos.

Lembra quando damos a notícia: “Vou a um velório”. A primeira pergunta sempre é esta: “Morreu algum parente seu?”. Se você quer aliviar qualquer sentimento de pêsames você responde: “Não, é um conhecido de um conhecido, vi ele algumas vezes”. A pessoa que perguntou muda de assunto e até se esquece, que você vai ao velório daqui a trinta minutos. Agora imaginem se você dissesse: “Sim, minha mãe”. Não será preciso dizer mais nada, a plasticidade desta frase é o suficiente para a tragédia ser instaurada, na mesma hora você ganhara folga, presentes, sentimentos de pesares, todos a sua volta serão delicados com você, por um bom tempo você não será irritado por ninguém. Toda esta diferença entre duas mortes, que são identicas. Dois seres humanos vieram a falecer, o resultado produzido é o mesmo. A única diferença entre uma e outra é apenas à distância entre elas e você.

domingo, 2 de novembro de 2008

Minha única leitora

O estimulo é fundamental para os homens fazerem alguns feitos em suas vidas. As vezes fico imaginando como séria se o estimulo das pessoas deixassem de existir. Imaginem só ou melhor, imagine minha única leitora. O que séria do mundo? Não haveria mais criação, não seria mais publicado um único livro, isto mesmo nem um misero livro. Nenhum artigo cultural ou cientifico. Não haveria mais nenhuma nova música, opera, peça teatral, nem um filme, nem mesmo um filme besteirol Americano. Caro leitor, quer dizer minha única leitora pense só no que estou dizendo. Não é só no campo cultural, que isto aconteceria, seria em todos. Não haveria a construção de nenhuma casa, nem mesmo uma casinha de pau-a-pique.

Eu começo a ficar transtornado com a minha própria reflexão. Imaginem, quer dizer imagine minha única leitora. Nem um santo trabalhador indo para o serviço. Nem mesmo o patrão. Todos sem um único estimulo, com o passar do tempo o mundo cairia na inércia e não produziríamos mais nada. Não haveria estimulo nem para o sexo. Alguns dizem que o sexo é para operário, mas eu estou dizendo o pior, o impensável, ninguém, nem mesmo o operário se atreveria a fazer sexo. Só por conta da falta de estimulo. Alguém é capaz de me desmentir, ou melhor, a minha única leitora é capaz de rebater a minha reflexão? Eu penso que não, afinal de contas somos seres, que só realizam algo mediante o estímulo, seja este econômico, espiritual ou mesmo um mero prazer, temos ainda o pseudo-estimulo.

O leitor mais assíduo pode estar se perguntando o que seria um pseudo-estímulo. Já ia me esquecendo, não tenho leitores, tenho uma única leitora. Com nome e endereço, Cláudia Tavares de Souza, residente na Rua Alvarenga Peixoto, nº. 580, Apto 1204, Bairro Lourdes, Belo Horizonte – Mg, Cep 30.180-120. Somos íntimos, às vezes vou até a casa de Cláudia tomar um chá e ficamos por lá proseando. E não pense os intrometidos, que eu já conhecia Cláudia Tavares, porque isto não é verdade. O fato é que nos conhecemos por aqui, pela escrita. Ela se tornou uma leitora assídua de minhas escritas e por curiosidade ou ironia do destino, se tornou a minha única leitora. Já falei isto para ela várias vezes, mas ela teima em dizer, que isto é uma brincadeira minha, finaliza dizendo, que ironia é intrínseca a minha pessoa
Nem tento explicar a mais pura verdade, seria em vão. Minha única leitora, não acredita na veracidade das minhas palavras. Ainda não entendi por que ela me devora. Mas voltemos ao assunto de extrema importância. Falava sobre o estimulo e sua importância para a raça humana. Isto mesmo é vital para a sobrevivência de nossa espécie. Não estou falando nenhuma bobagem. Pense bem, se não temos estímulo para o sexo, não iremos procriar. Se não temos estímulo para cozinhar, não iremos comer. Sem estímulo estaremos fadados a extinção. Isto tudo por conta de uma mudança psicológica, afinal de contas o estímulo nada mais é do que uma situação psicológica, seja ele econômico, egoísta ou pseudo-estímulo.

O pseudo-estímulo é o mais comum na ocorrência dos estímulos. Ele é um estímulo criado em nossas mentes, ele não existe, é um falso lucro, é uma falsa vantagem, que criamos para termos estimulo para a realização de algo. Vou dar o exemplo de mim, por que escrevo? Pelo pseudo-estimulo, que terei milhares de leitores, milhões por que não? Ficarei rico, não chega há tanto, no Brasil escritores não ficam ricos. Irei ganhar uma boa grana, o suficiente para me sustentar, viverei da escrita. Este é o meu pseudo-estimulo. Penso nos leitores, no meu fã-clube, nos meus críticos, ah os críticos, já dizia Mario Quintana: "Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama:"Olha uma borboleta!". O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante da vida, murmura:- Ah! sim, um lepidóptero...", são demais eles. Nas minhas leitoras apaixonadas, que irão fazer até o que Deus dúvida, por uma noite de amor. Só isto, uma noite de sexo selvagem e nada mais. Não vão querer compartilhar a minha fama ou minha grana, somente o prazer ter dormido uma noite com o seu escritor predileto. Os mais assíduos escreverão milhares de cartas pra mim, com sugestões, críticas, proposta de trabalhos conjuntos, enfim este é o meu pseudo-estímulo da escrita.

Com o passar do tempo, meu falso estímulo ira mudar para o estimulo real. E qual é este “real”. Você, isto mesmo. A minha única leitora, que compartilhar comigo tudo o que eu escrevo. Todas as minhas asneiras e sacanagens, que me conhece melhor do que eu. Esta pessoa, que já ouviu várias confusões filosóficas minhas. A minha única leitora é o meu único estímulo real para continuar escrevendo. E se nenhum jornal, editora, ou qualquer meio midiático de massa se propõem a publicar minhas escritas. Não se preocupe minha única leitora, eu publico. E ficamos assim, até que a morte nos separe.

domingo, 26 de outubro de 2008

Três Dias

Há o que são três dias? Bom é uma pergunta pessoal é claro. Três dias para uma pessoa modesta como eu, não são nada, mas imaginem o que era três dias para Assis Chateaubriand, Isaac Newton ou para Napoleão Bonaparte, este poderia conquistar um país. Mas como o leitor e a maioria das pessoas são comuns, cabe aqui a reflexão, o que são três dias? Qual é a importância plástica de três dias? Qual é a mudança substancial que isto pode fazer na vida de alguém? Você pode objetar e falar, em três dias o sujeito pode casar ou mesmo morrer. Eu vou dizer, que pode sim, mas e o contexto? Antes de um casório ou de uma morte há todo um contexto. Não podemos apagá-lo, dizer que era uma tabua rasa e agora é um casório ou um velório. O morto tem toda uma história por trás dele, mesmo que tenha morrido em três dias. A gripe-espanhola que dizimou milhares de pessoas em meados de 1918-1919, em pouco mais de três dias, na maioria dos casos, Tem todo um contexto. É algo assim inseparável atrás do fato há um contexto, através da compra de um carro, da aprovação em um concurso público, da morte, do casório, do nascimento, há todo um contexto. Pois bem vamos ao assunto que nos interessa.

Certo dia conhecia uma linda garota, era assim inesquecível. Bonita, inteligente, boa de papo, uma mulher maravilhosa. Casaria-me com ela fácil, sem nenhum arrependimento do gesto. Apresentei-me timidamente, aquele avião me deixava um tanto sem graça. Pois bem eu era Roberto e ela Cecília. Como dizia o grande poeta: “Quantos artistas entoa baladas, para suas amadas, com grandes orquestras...Quantos românticos prosam exaltam suas musas com todas as letras. Eu te murmuro, Eu te suspiro, Eu, que soletro, Teu nome no escuro”, pois bem ele viu A Cecília, teve o mesmo privilegio que eu tive. Eu não vi simplesmente. Toquei, olhei nos olhos, conversei. Foi assim um momento mágico, inesquecível, mas mal sabia eu, que três dias iria nos separar. Pense bem, três dias. Pois bem, vimos-nos, trocamos alguns sorrisos e logo depois estávamos conversando.

Fiquei lá conversando com a Cecília por três horas, falamos de tudo, música, cinema, arte, política, economia, da injustiça que é o mundo, do capitalismo, da segunda guerra mundial. A cada assunto a minha certeza aumentava e eu dizia para mim mesmo: “É ela, com certeza, é ela o seu grande amor”. Pensei naquela música: “Procuro amor que seja bom pra mim, eu vou procurar eu vou até o fim, pode ser que a encontre em uma fila de cinema, numa esquina ou numa mesa de um bar...Pode ser que eu gagueje sem saber o que falar, mas eu disfarço e não saio sem ela de lá”. Foi justamente o que eu pensei, não saio sem a Cecília daqui. É claro que a minha convicção era só para me animar, eu sabia que a qualquer sinal negativo iria desistir e hastear a bandeira branca. O mais inacreditável é que Cecília não dava nenhum sinal negativo, ela parecia estar adorando nossa conversa, eu já estava pensando: “Esta ganho, esta no papo”. É claro que isto era apenas uma etapa, beijar Cecília era só o começo, até o casório, filhos e netos seria um longo caminho.

Depois de conversamos por um longo tempo, já pensava na vida a dois. Pensava no namoro, nas juras de amor, nas promessas, nos planos, nos familiares, no casório. Planejava uma festa de três dias, três bois, três mil pessoas, uma festa de arromba. Pensei nos filhos, dois não o melhor seria três, uma família legal. Teríamos nosso sítio de final de semana, muita farra, juntaríamos os amigos. Enfim uma vida perfeita com uma mulher maravilhosa, por fim veria os netos, uma ou duas amantes de uns vinte anos, enfim seriamos felizes, como quer a sociedade. Iria ter ótimos filhos, os educaria muito bem. Seriam o futuro da nação, engenheiros, arquitetos, músicos, jornalistas, advogados, médicos, o que quisessem, desde que fossem ótimos no que escolhessem. Afinal de contas estou falando dos meus filhos. Pois bem, eis que Cecília me diz o imprevisível, o trágico, o inexplicável, a fatalidade, o plástico, daquelas de dizer: “Eca”, ficou tudo sem graça depois dela dizer: “Eu tenho namorado, começamos há três dias”.

Eu só pude dizer, três dias? Como assim? Eu que sou o seu namorado e nos conhecemos hoje não há três dias. Ela ficou um tanto espantada com a minha revelação, um pouco contente, feliz e assustada. E disse: Roberto você é um homem inesquecível, genial, eu adorei te conhecer e com certeza iria namorar com você, se eu não estivesse namorando. Eu falei: Mas Cecília são três dias, o que são três dias? Pense bem, tudo o que você esta jogando fora, são vidas envolvidas, uma família, um homem que vai te fazer feliz. Ela já não entendeu mais nada, é claro, ela não pensou em tudo o que eu pensei, não pensou nos próximos quarenta anos. Ela só enxergava os três dias passados. Enquanto eu pensava nas próximas quatro ou três décadas. Por fim eu vi que aquilo não mudaria, inventei uma desculpa para ir embora, me despedi e fui embora. Três dias depois, nada tinha mudado, estava eu amargurado com a tristeza de saber que não teria Cecília por que demorei três dias para conhecê-la.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ponto nos is.


Hoje quero esclarecer alguns pontos ou alguns is. Pois bem, primeiro quero dizer que não estou escrevendo sobre a minha vida, nunca escrevi um diário, não gosto e não estou contando episódios que ocorreram necessariamente comigo ou com conhecidos ou mesmo que tenha visto, presenciado, ou ouvido falar. Pensar assim é de uma simplicidade muito idiota. A escrita serve para nos libertarmos, aqui e somente aqui pode se falar o que quiser, inventar o que quiser e contar qualquer história. Se não fosse assim qual seria o objetivo de escrever? Alguns dirão espera ai, e os diários, leis, códigos, jornais, revistas e entre outros meios de escritas, que não tem outro sentido há não ser servir de documentação. Pois bem, não os desconheço e nem os negos. Existe sim uma infinidade de coisas idiotas escritas pelo mundo, os livros didáticos, leis e códigos, documentos oficiais e entre outros.

Agora vamos ser sinceros há algo de prazeroso ao ler o código civil? Documentos confidenciais da guerra fria? Nossa nem falei dos processos, no entanto, há sim certa utilidade em todos estes documentos idiotas, não nego, mas o prazer da leitura deste tipo de escrita eu nego veemente. Enfim na escrita eu vejo a verdadeira liberdade. Mesmo que ela seja um tanto enigmática, já dizia Cecília Meireles: “Liberdade não há quem explique, e não há quem não entenda”.



Pois bem do que escrevo? Objetivamente falando ou capitalistamente falando, não escrevo sobre nada, não há um propósito final, não espero salvar os meninos africanos que morrem agora de fome, não espero acabar com o tráfico de drogas no mundo, não espero combater a lavagem de dinheiro, não espero abolir a corrupção de nosso país, não espero baixar a taxa de homicídio por habitante da grande Belo Horizonte e entre outros objetivos louváveis desta corrente, sei que não sou capaz de realizar nenhum, enfim não vou mudar o mundo e nem tenho esta ambição, alguns tiveram e de fato mudaram, mas estes são os gênios, já eu sou uma pessoa comum.

Primeiro eu escrevo pra mim mesmo, é isto mesmo. O leitor mais assíduo de qualquer escritor é ele próprio, e estou dizendo de qualquer escritor seja ele Shakespeare, Machado de Assis, Mario Quintana, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Dostoievski, Truman Capote, Bernardo Vasconcelos, enfim há lista é infinita, mas independente do calibre do escritor todos terão isto em comum, serão eles próprios os leitores mais vorazes de suas escritas.

E tem algum porque disto, talvez tenha, pois devemos saber que necessariamente as coisas não precisam ter uma razão lógica. Acredito, que o autor ao escrever se liberta, isto no sentido mais profundo que a palavra liberdade pode chegar. Inventa se um mundo único, só entendível para aquele escritor e ninguém mais, as pessoas podem gostar deste mundo, podem apreciá-lo, podem despender tempo e dinheiro, mas nunca o entenderam na plenitude do autor, por mais que se conheça aquela pessoa. As pessoas se desconhecem nelas mesmo, imagina o outro. Por isso o autor se rele, ele pensa: o que eu quis dizer com isto? Depois de refletir com o seu próprio eu, ele lembra vagamente o sentido do que escreveu. Vejam nem o autor chegar à plenitude do que escreveu, esta é passageira, em questão de segundos o autor ira perde-la e nunca mais irar tê-la como teve algum dia. Por isso devemos reler, já dizia Nelson Rodrigues “A arte da leitura é a releitura.”, não é o propósito aqui dizer todos os motivos que me fazem escrever. Só quero esclarecer algumas coisas, que parecem um tanto obvias.



Segundo ponto, não procuro dar sentido ao que escrevo, não sou um livro didático e adoro a falta de conexão lógica das coisas. O inusitado eu diria. Não há como me criticarem pela falta de sentido, não é este o meu objetivo. Alias dizer: ”Não entendi bulafas do que escreveu!”. É um grande elogio, só não é perfeito, pois se entendeu algo é um bom sinal. Afinal de contas algo pode ser inteligível para mim e para outra pessoa pode ser totalmente indecifrável. E qual é o mau nisso? Nenhum é obvio, ou melhor, não há nenhuma canalhice nisto. Outro fato que me incomoda é a ligação do que eu escrevo com o real (isto que consideramos real, sem maiores discussões filosóficas sobre o assunto), quando digo que comi um bife à role, isto não é necessariamente verdade, posso não ter comido o tal prato, posso ter visto alguém comer, um conhecido pode ter me confidenciado, posso ter visto em um filme, seriado, vídeo clipe, ter sonhado, imaginado, enfim a infinitas possibilidades, por que devemos pensar na mais obvia que eu comi um bife à role, será que não viram MATRIX, lembram da cena do traidor, ele disse, não ligo se este bife que estou comendo não é real, isto não importa. Aqui é a mesma historia não importa de onde isto saiu, ou de qual quebra-cabeça saiu o que eu disse ou me disseram. O fato é que não estou escrevendo um diário e ponto final e no i.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mera Semelhança

Tenho um estranho sentimento ao ver os idosos, me alegro com eles, gosto de ouvi-los falar, gesticular, tudo o que eles fazem me agrada. Ao mesmo tempo em que me alegro, me sinto mal, por vê-los assim, idosos. Penso logo em mim, como seria a minha velhice, como serei eu idoso. Prefiro não pensar, esta é a minha conclusão final, mas é claro que penso no lado bom, serei eu um velho sábio ou concluirei na minha velhice que nunca serei sábio, no fim isto é uma grande sabedoria. Por enquanto tenho que me contentar com a falta dela. Os jovens são muito cheios de energia e de estupidez também. Parece ser do ser humano a ambigüidade, sempre carregamos elas, o bom e o lado negro da força, a velhice e a sabedoria, a jovialidade e a estupidez, a pressa e os erros, a paciência e a perfeição é tudo uma grande ambigüidade. Uma dualidade terrível, que não podemos separar.

Mas vamos ao que interessa, por que falei dos idosos, pelo mais obvio de tudo, eu vi uma idosa. No campo, roça, enfim este lugar onde as pessoas vivem em hábitos bem diferentes das pessoas da cidade. Aposto que o meu leitor esta pensando, ainda vivem pessoas fora da cidade, te digo que sim, elas ainda existem e são felizes, talvez mais do que você um ser humano urbano, doméstico eu diria. Ah se soubesse como é bom ser um ser humano selvagem veria o que é a felicidade. Infelizmente você que foi domesticado, pela televisão, pela escola, pelas revistas, pela moda, pelo comportamento urbano, pelos pais também urbanos, por seus amigos urbanos, pela internet urbana e por tudo mais urbano, jamais poderá ser um selvagem, você não sabe caçar, se proteger dos seus predadores naturais, você mal os conhece, mal entende a velha frase "Viver é perigoso" ou "A vida é dura", isto pra você é pura besteira. Ir ao supermercado não é nada perigoso, abrir uma lata de ervilhas menos ainda, ligar a televisão é um tanto simples, já ouviu falar de alguém que morreu ao ligar a televisão? Este pequeno eletrodoméstico explodiu como uma granada e matou a pessoa ali mesmo? Pode ter acontecido, mas com certeza a probabilidade é mínima, quase irrelevante como diria os matemáticos é próximo do infinito. Pois bem você esta condenado a urbanidade eternamente, ou melhor, até o dia em que pertencer a este mundo. Mas voltemos à idosa, tinha ido à roça, o campo, juntamente com a minha namorada, fomos visitar uns familiares dela, a idosa era avó dela. Ao me ver a idosa nada disse para mim, depois de um tempo ela comentou brevemente, em poucos segundos, que eu lembrava tal pessoa, agora não me lembro o nome e isto nem é importante. Pois bem eu lembrava alguém, eu sou semelhante há alguém. Não sei quem é esta pessoa, provavelmente nunca o vi, mas somos semelhantes. O fato de nunca tê-lo visto não muda isto. A semelhança existe independente que eu queira, ou que tenha visto o meu semelhante. Isto independente da minha vontade, como muitas coisas em nossas vidas, mas pense bem, não podemos controlar nem quem são os nossos semelhantes. Não sei quanto a você, mas isto me espanta.

Depois ver a idosa e ouvi-la por aproximadamente duas horas fiquei refletindo sobre o que ela falou. Não tudo, pois não era possível, mas apenas ao que me era acessível. Pensava naquele pequeno comentário: "Você parece com fulano de tal". Tive um raciocínio simples e claro, realmente pareço, é um caso de mera semelhança, mas não é um caso único, somos todos parecidos. Isto acontece com todo ser humano do planeta, seja ele ser humano urbano, selvagem, aborígine, indígena, mulato, caboclo, ianque, branco, negro, mameluco, enfim não importa qual ser humano ele é. No fim ele é semelhante há alguém. Pense bem, você é único, mas mesmo assim há um semelhante seu, como uma inspiração, assim como uma música inspira outra, um livro inspira outro, enfim um ser humano inspira outro. Não sei qual é o espanto que isto pode causar a outro ser humano, mas a mim me causa e muito. Nunca pensei que houvesse um semelhante meu andado por ai em qualquer lugar do planeta, é como se tivesse um filho e não soubesse, que ele esta por ai vagando. Acredito que para idosa isto não é nenhuma novidade, ela já sabe do seu semelhante há anos, faz tempos que ela entende perfeitamente "Qualquer semelhança não é mera casualidade", sabe se lá quantos semelhantes ela já viu. Eu quase nunca os vejo, só ouço comentários do tipo: "Você parece com fulano de tal". Alias acho que isto já aconteceu com todo mundo, sempre alguém nos diz: "Você me lembra o João", já viram como elas falam isto com espanto, pois é elas estão pensando no semelhante delas, que estão por ai também.

Depois desta tremenda reflexão, consigo entender a teoria dos seis graus. Vou explicá-la para os desavisados. É uma teoria bem simples, ela funciona da seguinte forma, a sua máxima diz: "Todo mundo conhece todo mundo", ou seja, todas as pessoas do planeta terra, que nele agora habitam, ou vivem, conhece todas as outras. Você leitor conhece todas as outras pessoas do planeta terra, inclusive eu autor. Pois bem, como isto é provado? Bem simples, eu conheço A, e A conhece B, logo eu conheço B em segundo grau. B conhece C, logo eu conheço C em terceiro grau. C conhece D, logo eu conheço D em quarto grau. D conhece E, logo eu conheço E em quinto grau. F conhece G, logo eu conheço G em sexto grau. A teoria é esta, mas falar em axiomas não ajuda, vou dar exemplos de pessoas. Minha mãe conhece o Presidente Lula, logo eu conheço Lula em segundo grau. Lula conhece Bush, logo eu conheço Bush terceiro grau. Bush conhece Osama Bin Laden, logo o conheço em quarto grau. Osama conhece Bono Vox, logo o conheço em quinto grau, errado, o Lula conhece o Bono Vox, logo o conheço em terceiro grau. Bom não irei passar do quarto grau, pois é difícil dar um exemplo do quinto e do sexto, mas acredito que a teoria do sexto grau é quase irrefutável, talvez mais sólida que a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. Isto tudo, graças a mera semelhança ou será a idosa? É realmente difícil não haver nenhuma ambigüidade.

sábado, 27 de setembro de 2008

A Geladeira


Sempre me incomodou a rotina, não digo esta que chamamos de cotidiano. Estou dizendo sobre o paradigma, a forma como somos domesticados a pensar. Sempre lemos da esquerda pra direita, começamos da página número um e não da quatrocentos e oitenta e nove. Ao acordarmos escovamos os dentes. Dormimos entre as 22h00min até as 10h00min, enfim existe toda uma domesticação do homem, para ele ser o homem. Eu fico pensando é necessário à padronização até onde não há necessidade disto, o leitor deve estar perguntando: Do que ele esta falando? Ah meu caro leitor estou falando dos romances, da literatura, do cinema, da sétima arte, esta de contarmos histórias.


Por que devemos ter sempre o padrão o mocinho, o vilão imperdoável, implacável e com certos princípios, a mocinha, o início, o drama e por fim o final feliz ou não. Já houve vários que tentaram subverter esta ordem, já tentaram contar história pelo fim para chegar ao início, vilões e mocinhos ambíguos, enfim já tentaram de tudo. Inclusive já escreveram isto em música vejam: "O meu refrigerador não funciona. Eu tentei tudo. Eu tentei de tudo. Não funciona, Não, não, não O meu, o meu O meu refrigerador não funciona." Mas nada adiantou as novidades acabam por virarem velhos paradigmas com o passar do tempo. Em suma, nunca da certo, não funciona. Alguns chegaram perto entre eles o obvio ululante Nelson Rodrigues, que escreveu A vida como ela é. Por que este título? Pelo mais obvio de tudo, a vida é uma ótima contadora de histórias, temos de observa - lá e conta-la. Não precisamos fazer mais nada. Meu caro leitor veja a minha observação.




Lá estava ela, linda, limpa, reluzente, nova e intacta, no meio de milhares ela foi escolhida. Por quem? Ah isto não interessa, o importante é que ela foi a selecionada. Pois bem a geladeira, marca cônsul, modelo Z220, cor branca, número de série 151118891984. O seu destino era um bar, que estava localizado em um clube, este onde as pessoas se reúnem, batem um papo, tomam um sol, jogam uma peladinha, pulam na piscina e entre outras atividades. O bar era bem movimentado, havia um constante entra e sai, a geladeira vivia sendo aberto, fechada, esvaziada, preenchida, um tremendo burburinho. Não podemos dizer que a Geladeira teve muita sorte, poderia ter sido escolhida por um casal de idosos, desta forma ela teria mais tempo para descansar. Nada como a ociosidade, o ócio, é uma palavra esquecida na modernidade.


Não posso de deixar de mencionar Lessing "Preguiçosos em tudo, menos no amor e no beber, menos na preguiça" há existe um provérbio espanhol que diz "Descansar é saúde". Enfim a Geladeira trabalhava muito neste bar, é verdade que havia o lado bom, pois conhecia muitas pessoas, já que o bar era freqüentado por diversas pessoas, de diferentes credos e convicções. Sem falar das Histórias que a Geladeira presenciou, numerosas, paixões, amores, algo que não caberia em qualquer livro. Pois bem, o bar em pleno vapor, mas o clube não, este é abandonado, jogado as traças, ou melhor, as moscas. Prepare-se leitor, este é ponto fundamental por que a vida conta ótimas histórias. Estive refletindo sobre isto e percebi que a falta de nexo, a falta de coesão lógica entre causa e conseqüência é o principal responsável por boas histórias, eu resumiria em uma palavra o "inusitado". Como a Geladeira poderia sofrer com a ociosidade do clube, que foi jogado ao leu. Pelo o que sabemos a Geladeira jamais poderia tomar um banho de sol ou mesmo dar uma mergulhada, quem sabe boiar. Imagine a cena meu caro leitor, a Geladeira boiando no meio da piscina, refletindo sobre a vida. Seria no mínimo diferente. Mas eis que o clube foi tomado por mosquitos e não são mosquitos quaisquer, não mesmo. São os mosquitos da dengue, que nas enormes piscinas do clube ploriferam, o clube que antes era um lugar sociável se torna em um pesadelo para Secretária de Saúde da Cidade, que sem outra escolha interdita o local.


O clube se tornou um ponto de ploriferação dos mosquitos da dengue, que aterrorizam a cidade inteira. A Geladeira imune ao vírus não se preocupa com a situação, mas eu no lugar dele me preocuparia. Eis que ao interditar o clube, os bares que lá estão também são interditados. Qual é a explicação racional desta medida? Nenhuma isto mesmo meu caro leitor, uma medida puramente idiota. Os bares já estavam funcionando, quando o clube foi jogado as moscas e nada impedia que o clube fosse interditado e estes bares continuassem a funcionar. Pois bem tudo é interditado e a Geladeira permaneceu lá no bar, junto com os demais objetos, freezer, liquidificador, televisão, cadeiras, mesas e entre outros.

A Geladeira agora descansava, não fazia nenhuma atividade, mas sua vida social de fato se tornou paupérrima. E com o passar do tempo o inevitável aconteceu. Saqueadores invadiram o clube e os bares levando tudo o que encontravam pela frente. E como o local foi interditado a Prefeitura da cidade não permitiu a contratação de um vigia por parte dos donos e não colocou ninguém para vigiar o local. O resultado não poderia ser outro, numa sociedade onde o lucro vem da miséria. Os saqueadores levavam tudo, e o que era muito complicado levarem como, por exemplo, um freezer, levavam o motor. A Geladeira permaneceu no bar por um bom tempo, viu muitas coisas sendo levadas, ela sempre aguardava a sua vez, e quando os saqueadores iam embora ficava um sentimento ambíguo alívio ou frustração, o que seria pior ficar ali ou ser levada? A Geladeira nunca sabia qual era o melhor, o que de fato não tinha dúvida é que a angustia já tomava conta de sua vida.


Pois bem, o dia chegou os saqueadores resolveram levar a Geladeira, não sabemos se por necessidade, comodidade ou por falta de escolha. A Geladeira preferiu ficar na dúvida. Os saqueadores carregaram a Geladeira até o muro que dá acesso para a via pública e foram embora, a Geladeira ficou lá não sabendo o motivo, será que desistiram do furto? Calma eu diria a Geladeira, eles foram apenas arrumar um jeito de carrega - lá não desistiram de furta-lá. Dito e feito, horas depois os saqueadores voltam com uma carroça e no momento que iriam transportar a Geladeira chega a Polícia. Isto mesmo leitor a Polícia flagrou os saqueadores, que eram dois no momento, em flagrante delito.


Foram todos para a Delegacia, o saqueador, por que o outro conseguiu fugir e a Geladeira. Lá é feito o Auto de Prisão em Flagrante Delito o saqueador é preso e encaminhado a Penitenciara e a Geladeira é imediatamente devolvida ao seu dono. O dono não à leva, deixa lá dizendo que posteriormente ira pega-lá. Legalmente a Geladeira não estava mais na Delegacia, ela tinha sido entregada ao dono pelo documento que este assinou. Enfim para os olhos do Estado ela não estava ali mais, tinha retornado ao seu proprietário, conforme o recibo.




O fato é que a Geladeira permaneceu ali por muito tempo, viu coisas que nunca pensou em ver ou presenciar, se quer sabia da possível existência. Viu muitas pessoas sendo presas, soltas, uns apanhando, outros batendo, alguns espancando, outros se divertindo com o sofrimento alheio, uns vendendo a liberdade. Como se a liberdade pudesse ser negociada. Outros negociando a proteção aos desamparados, propina, corrupção, abuso de poder e outras mazelas sociais. Ali na Delegacia a Geladeira presenciou a sociedade sem o seu véu característico, bem ali na sua frente, sem o jogo do esconde-esconde, sem vergonha na cara, sem politicagem, sem oba-oba, sem medo de ser feliz.


O velho tapete social que varre todas as sujeiras para debaixo dele não estava ali e ninguém presente fazia questão de colocá-lo lá. Por fim a Geladeira tinha esquecido do seu dono, não tinha mais remorsos dele, para ser sincero nem lembrava mais dele. Quem era o seu dono mesmo? A Geladeira já se sentia dona de si. O fato é que passado algum tempo o escrivão Policial que fez todo o processo burocrático, Auto de prisão em flagrante delito, prisão do saqueador, já que o outro tinha fugido, restituição da Geladeira ao dono, percebeu que já havia meses, que a Geladeira, estava ali na ante-sala da cela e de sua sala, bem no meio do caminho. Ele passou o resto da noite pensando na Geladeira e por fim raciocinou o seguinte, o empregado humilde dele necessitava de uma Geladeira, já havia comentado no assunto.



O dono daquela Geladeira não iria voltar para pega-la, já havia passado muito tempo. Legalmente ela já tinha sido devolvida, não via por que não da - lá ao seu empregado. O escrivão Policial depois de fazer esta profunda reflexão de justiça, memorizou isto e posteriormente iria comentar com o seu empregado. Passado uma semana, o escrivão Policial já em sua casa, lembra de sua reflexão e pergunta ao empregado se ele não queria uma Geladeira. Este responde que sim e pergunta quanto ele teria que pagar. O escrivão Policial responde que nada, que o empregado apenas deveria ir à Delegacia em um dia de serviço do escrivão e lá fazer uma encenação. Teria o empregado que se portar como o legítimo dono da geladeira para leva - lá.


E ele foi até a Delegacia lá se comportou como dono e o escrivão Policial como um servidor público, os dois encenaram, deram um sorriso irônico e intrigante, a Geladeira foi levada para a casa do humilde empregado. Lá tudo era diferente da suas ultimas duas moradias, não era luxuoso como o bar, não tinha um circulo social, não havia o inusitado, o inacreditável, a loucura humana bem a sua frente, não havia muito que fazer. Agora a Geladeira poderia realmente se dedicar ao ócio, enfim a preguiça.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bife a rolê

O dia não começou da melhor forma, acordei com sono, daqueles sonos que você daria tudo para continua-lo. Mas não tinha outra escolha, as minhas obrigações me esperavam e além do mais tinha duas caronas para irem comigo. Eu poderia deixar de fazer as minhas obrigações, mas não poderia tomar esta escolha por outras pessoas. Isto é no mínimo uma atitude ditatorial. Imagine só, você não ir ao trabalho, somente por que o seu caroneiro quis assim. Para não ser comparado a Napoleão me levantei, usei todas as forças que me restavam e venci o sono, uma batalha que travo constantemente e sempre acho uma mais difícil que a outra. O sono pode até perder a batalha, é aquela famosa máxima "Você vai cansar de bater e eu não vou cansar de apanhar", pois ele não se cansa mesmo de apanhar, todos os dias ou quase sempre luta contra mim, é verdade que perde, mas ele esta sempre ali. Confesso já perdi algumas batalhas, mas por conta das caronas tenho um plus à mais e venço na maioria das vezes.

Pois bem, depois de me arrumar e comer a minha refeição matinal vou de encontro as minhas duas caronas. Ao chegar no primeiro destino, eis que lá esta a minha carona, como prometeu de fato que estaria. Não falhou, não pestanejou, não se entregou ao sono, como poderia também te-lo feito, lá estava o carona. No segundo destino a mesma confirmação o carona estava lá, sem nenhuma reclamação ou desconfiança, nenhum dos caronas olharam nos meus olhos como se me perguntassem, você pensou em não vir? Eles não fizeram isto, foram inocentes como crianças, mal sabiam eles da verdade. Pelo caminho puxo o assunto de espirito de grupo, de cooperação e como as pessoas tem milhares de arte-manha para deixar tudo nas suas costas e na hora de colher os frutos, lá estão elas para receberem os parabéns. Dentro do carro o assunto é bem recebido pelos caronas, os dois concordam plenamente comigo, fazem alguns comentários, dão algumas risadas, mas a essência é mantida, em nada discordam de mim será que é por que tenho razão ou por que eles são os caronas. Enfim a minha dúvida talvez seja eterna, pois não adianta pergunta-los ficarei na indecisão da mesma forma, independente da resposta que me seja dada.

Agora chega no nosso ponto princípal o desenrolar de toda história, eu mal sabia o que me esperava. É aqui, que tudo se torna mágico o imprevisível, o inusitado ganha forma e vida, tudo se torna mais concreto do que o céu sobre as nossas cabeças. Eis que estou conduzindo o veículo e um outro um pouco a frente do meu na mesma faixa, para na pista, não sei dizer se para embarque ou desembarque, o fato é que o outro veículo parou pouco mais de vinte metros a minha frente. Penso em milesimos de segundo o que fazer, troco de faixa? para o veículo ? subo no passeio ? não paro o veículo ? Enfim não há muito tempo para pensar, penso no obvio.
Paro o meu veículo, uma freiada um pouco brusca confesso. Ah os caronas quase me esqueço deles, neste momento houve uma certa comédia. Os caronas no milésimo de segundo que eu pensava no que fazer, pensaram em me alertar, mas não falaram, não sinalizaram, apenas pensaram e foi tão alto, que consegui ouvir os pensamentos deles. Mas antes que eles externelizassem estes pensamentos já havia pisado no freio, já havia tido um barulho de borracha e asfalto. Até o momento não falei do imprevisível, isto não foi nada. O que acontecera no próximo segundo sim, que é imprevisível e ao mesmo tempo inevitável. Mas antes de conta-lo quero me ater na pequena reflexão que tive, sobre a compensação.

Vivemos no mundo da compensação e assim é pela própria lógica dele. O dinheiro circula, as mercadorias circulam e assim é com muitas coisas inclusive com as pessoas, com as suas interminaveis idas e vindas. Enfim um ato compensa outro e assim vai ao infinito. Da surgiu "Aqui se faz, aqui se paga", o próprio Direito é um estudo da compensação entres os seres humanos. A econômia é isto estudar a compensação dos bens do intercâmbio de valores. Nada mais do que compensação. Enfim vamos voltar ao inusítado. Eis que um segundo depois da minha freiada ouço um barulho de "BUM", não é necessariamente uma bomba foi o som de uma batida de automoveis, típico em cidades urbanas. Não olho no meu retrovisor, me nego a olhar um outro veículo colado no meu, sei que foi isto que aconteceu, sei que diferente de mim, o outro condutor não mantinha a distância de segurança.
Com certeza este indivíduo nunca parou pra pensar o que quer dizer: "Mantenha distância". Pois bem, viu como as coisas são compensações, ele não parou pra pensar na frase e agora se envolveu em um acidente de transito. E eu? que li a frase e compreendi muito bem o sentido da mesma? Bom talvez esteja compensando outra coisa, agora não consigo identificar o que é. Ao descer do veículo e analisar a situação, fiquei um tanto confortável o outro condutor iria arcar com o prejuízo, dei o beneplascito aos caronas, que prosseguissem a viagem, agora era só uma questão de tempo até tudo voltar ao normal. Na verdade ainda faltava a minha compensação e ela não demorou a chegar, veio logo no mesmo dia, no almoço, ao invês de ganhar um Bife a rolê, ganhei dois. Há meu maldoso leitor antes que pense, que conversei com a cozinheira, que falei com ela sobre compensação, te digo o contrário, não trocamos nenhuma palavra, mas mesmo assim fui compensado de todo o transtorno que passei naquele dia. Tudo graças ao Bife a rolê, que estava delicioso.

Início

Vou escrever pequenos pontos que se não incomodam a todos, ao menos a mim e algumas pessoas ficam um tando desconfortável com eles. Não vai haver peridiocídade neste blog, não ganho pra isto e não sou regular nem com as minhas obrigações. Não vou dizer que não espero leitores, pois se algo é dito é necessariamente para alguém. Quem são os meus inspiradores? O bizarro eu diria, as pessoas comuns, o cotidiano, os pequenos problemas e frequentes é claro que não posso deixar de mencionar os gigantes que eu admiro como Nelson Rodrigues em seu Obvio Ululante, Mario Quintana em sua pura e fina ironia, Machado de Assis, Aluisio Azevedo, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo e alguns gênios, que agora não me venha a memória. O leitor deve estar me achando um pouco ultrapassado, reconheço a minha mediocridade, sim sou antigo e deles me cultivo. Eu tenho este estranho sentimento de me agarrar aos detalhes, as pequenas coisas e principalmente dos CLÁSSICOS, se o clássico for para as profundezas do mar, vou junto e lá permanecerei. Inicialmente é somente isto, acho que não tenho mais nenhum ressalva para o leitor desavisado, que quiser continuar a sua leitura.