domingo, 30 de novembro de 2008

O rosto que não muda



Algumas pessoas têm características raras. Eu conheço poucas que tenha. Não estou falando de beleza, afinal de contas o que é belo. Tendo a pensar que beleza é apenas um padrão imposto por moldes culturais, mas isto não chega a ser uma tragédia. É apenas um ótimo argumento para provar a futilidade da beleza. Mas não quero falar de aspectos estéticos dos seres humanos, isto realmente não me interessa. Pelo menos como algo a ser pensado.

Estou preocupado com as características raras, que algumas poucas pessoas possuem. Alguns são gênios, outros altistas, alguns para-normais, e outros não mudam a feição. E justamente estes que me interessam, as pessoas que não mudam de rosto, que não se alteram, aconteça o que acontecer. Eu conheço duas pessoas com estas características. Isto mesmo, apenas duas e olha que já conheci muita gente nesta minha longa vida. Um se chama Roberto, o amargo, e outro Flavio, o sorriso bonito. A diferença entre eles é apenas o estado de espírito.

Enquanto o primeiro nunca ri, nunca chora, nunca fica agressivo e muito menos enfurecido. O estado dele é apenas, indiferente a tudo e a todos. Incrivelmente ele nunca saiu deste estado, é inerte. É algo muito similar ao que é dito na física, se um corpo esta em movimento constante e não há força de atrito sobre ele, ele continuara infinitamente nesta constância. Assim é Roberto, o amargo. Parece que não há nenhuma força de atrito sobre ele, ou melhor, parece que nada age sobre ele. É como um ser invisível, sem matéria, sem arranhões. Nunca vi sair de Roberto um sorriso plástico, muito menos tímido.

Roberto não é uma pessoa calada e nem falante. O caso dele não é de que sua opinião seja aceita, ele não se preocupa com isto. Alias, ele não esquenta com nada, absolutamente nada. Não há assunto, caso, fato, polêmica, que faça Roberto alterar o seu humor. Nem mesmo a morte de sua mãe foi capaz disto. E ela não morreu de velhice ou de uma doença trágica, foi morta a tiros em um assalto no Banco. Roberto apenas disse: são coisas da vida. Isto sem mudar qualquer músculo do rosto. Ele não aparentava estar feliz, triste, calmo, nervoso, simplesmente estava com o mesmo rosto, com a mesma expressão, que tem desde que nasceu. Roberto era mesmo amargo.

Falando assim de Roberto, lembrei de um episodio curiosíssimo, apesar de Roberto ser assim indiferente a tudo e a todos. Ele gosta de futebol e até tem o seu time do coração. E nos dois torcemos pelo mesmo time, que é o Clube Atlético Mineiro. Não vou ficar dizendo aqui, como é torcer pelo Glorioso. Iria estender o assunto demais e não é este o objetivo. Mas então eu e Roberto fomos a final do Campeonato Brasileiro. Atlético versus São Paulo, não é preciso mencionar que o Mineirão estava lotado, capacidade máxima, não havia mais lugar para uma única pessoa. O time do Galo era invencível, no entanto, não saímos de lá com o título. Foi algo inacreditável, nem os jogadores do São Paulo acreditavam no título, se dizia até, que disputando com o Galo o fato de ficar em segundo lugar é um título. Não é preciso dizer como o Mineirão ficou mudo, triste, calado, alguns até gritavam, era o grito de dor. Mas o que mais me chamou atenção em todo espetáculo foi Roberto. Este não mudou nada, saiu do Mineirão como entrou. Seu rosto, sua expressão era a mesma, ele apenas ajeitou os óculos e disse: são coisas da vida.

É incrível como Roberto não mudava, neste dia não pensei na derrota do meu time do coração, só pensava na fisionomia de Roberto. Ela não mudava aconteça, o que acontecer. Era o mesmo, o amargo. E não conheço pouco Roberto, já estive com ele em muitas situações, sejam elas felizes ou tristes, ou mesmo trágicas. Lá estava ele sempre com a mesma expressão, o máximo que poderia expressa é dizer a famosa frase, “são coisas da vida”. Mas Roberto não é o único, conheço também Flavio, o sorriso bonito. Este esta sempre rindo, como o seu apelido revela. Mas o sorriso plástico de seu rosto, não significa nada, não era nenhuma pista ou vestígio. O sorriso de Flávio e nada era a mesma coisa. Quem não conhecia Flávio demorava um pouco para aprender este pequeno detalhe. Alguns o achavam sórdido.

Com certa razão é claro, lembro-me bem quando a esposa de Flávio veio a falecer em um trágico acidente, para completar o grau de catástrofe, a esposa de Flávio estava grávida. Foi uma morte fulminante, uma carreta colidiu de frente com o veículo onde estava à esposa, estavam somente ela e o bebe, ainda em sua barriga. O motorista da carreta estava dormindo, provavelmente já há cinco dias sem dormir, entrou na contramão e não houve muito que fazer. Flávio é claro, estava triste, péssimo. Na verdade o que diferenciava Flávio de Roberto esta justamente nisto. Flávio demonstrava os seus sentimentos, mas logo em seguida estava rindo. Seu semblante de tristeza e de não acreditar no trágico acidente, não durou mais do que cinco minutos. Logo Flávio estava rindo, não que ele já não sentia mais nada Muito pelo contrário, ele ficou sete anos amargurado com tudo isto. No entanto, não ficou um dia sequer sem dar um belo sorriso.

Um dia Flávio me confessou como era ruim ser daquele jeito. Explicou-me o que acontecia com ele. Era um verdadeiro paradoxo, Flávio tinha emoções, ficava triste, alegre, feliz. Enfim o seu humor variava como de qualquer pessoa. O diferencial era que aconteça o que acontecer, Flávio sempre demonstrava estar feliz. E isto não era por querer. Flávio não gostava de ser assim, muito pelo contrário, aquilo fazia ter raiva dele próprio. Ele chegava ao ponto de odiar a si. Penso que deve ser algo muito desconfortável, não poder demonstrar a ninguém, a nenhum conhecido que você sofre. Flávio inclusive me deu um exemplo, do que já aconteceu com ele. O caso da esposa eu já sabia, ele me contou de uma paixão. Daquelas que você nunca esquece, Flávio me disse, como amou esta garota, como sofreu por ela. É claro que contou tudo isto sorrindo. Na hora, isto não fazia diferença era até coerente contar tudo sorrindo. Naquele momento, realmente havia graça em toda história.

Mas como Flávio mesmo disse, é muito triste não poder demonstrar a dor que sente pela perda da amada. É o mesmo que sentir dor e não poder gritar, berrar, não poder expulsar aquele sentimento terrível. Ter que guarda para dentro de você é o mesmo que engolir uma dinamite. E assim era com Flávio, ninguém soube da dor que ele sentia pela perda de sua amada. É preciso esclarecer, que ela não faleceu, apenas o trocou por outro. Nem mesmo ela soube da dor de Flávio. Ele não ficou nem uma hora sem rir após saber de tudo. Qualquer coisa era motivo para Flávio sorrir. Seu sorriso era sempre plástico. Sempre bonito e sempre sincero, que é o pior de tudo. Não havia como dizer, tire este sorriso falso do rosto, pois não era falso. Flávio nunca deu um sorriso falso em toda sua vida. Apesar de se sentir, mal ele se sentia feliz. Era um paradoxo incrível. Nesta conversa que tive com Flávio, lhe disse a seguinte opinião. Como sei da pessoa incrível que ele era. Eu disse à ele, que pessoas como ele, devem ter ambiente para tudo. O amor e ódio podem conviver pacificamente em sua consciência A felicidade e tristeza não se matam, vivem em sua mente harmonicamente.

Flavio não gostou muito de minha explicação, disse, que queria parar de rir quando se sentisse mal, que gostaria de demonstrar aos outros o seu mau humor, sua irritação com certa pessoa. Enfim ser transparente, era justamente como ele queria se sentir. No entanto, aquele sorriso bonito, lhe parecia uma verdadeira mascara. Era justamente assim, que Flavio se sentia. Uma mascara permanente, que nunca havia tirado. Ele sabe que há o papel social, que todos devemos cumprir certo papeis em determinadas horas. Mas Flávio estava preso há um papel eterno. E ele nunca podia ser simples ele, Flávio. E havia o Flávio triste, o alegre, engraçado, o risonho, irônico, chato, pedante, mauricinho, uma infinitude de Flávios que ele poderia se tornar. No entanto, estava preso ao Flávio, o sorriso bonito. Falando assim de Flávio e Roberto, vejo como eles sofrem por terem um rosto que não muda. Há sim infinitas vantagens, mas as desvantagens são trágicas, disso não há dúvidas. O meu rosto é infinito, complexo, inconstante, instável, incerto. Espero que eu nunca me prenda ao rosto que não muda como os meus dois amigos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CENSURADO

Antes de públicar o próximo texto, quero esclarecer a minha única leitora, que por mais incrível que parece, ou mais surreal que possa ser, apesar de ter apenas ela como leitora. Fui censurado. Isto mesmo CENSURADO e isto, já aconteceram duas vezes, então há duas publicações minhas na gaveta. Estou tomando as providencias judiciais cabíveis, mas é difícil combater a CENSURA. Quem sabe daqui uns anos, eu possa publicar, enquanto isto fica na gaveta. Perdoe-me, minha única leitora.

sábado, 15 de novembro de 2008

Uma vida comum

Muito se fala sobre o futuro, sobre a vida depois dos quarenta. Sobre as realizações. Pra mim o mais importante que posso fazer em minha vida é ter uma vida comum. Serei realizado, sendo uma pessoa comum. Pode parecer estranho dizer isto, quase que brega, cafona. Eu não me preocupo, sei que serei feliz assim. Uma vida comum, me pouparia de desgostos, de tragédias, de grandes feitos, de grandes problemas, de grandes histórias de amor, de traições. Enfim não haveria muito que comemorar, nem muito que lamentar. Sei que isto não é compreensível, mas eu já cansei de uma vida conturbada.


É bom ter muitas mulheres, é bom ter muitos amigos, é bom ter muita farra, mas tudo em excesso pode estragar ou mesmo azedar. Vou ser mais pontual, vou falar de minhas paixões, infelizmente já tive algumas. Digo infelizmente, por que queria ter apenas uma, só uma e nada mais do que isto. Seja qual for o meu destino, sei que isto não vai acontecer. Já tive algumas paixões, como acabei de dizer e aconteça o que acontecer, no máximo terei mais uma ou mais algumas. Mas o meu sonho de fato era ter uma paixão de infância, daquelas, que desde pequeno, você sabe que é a sua cara metade. Não precisávamos necessariamente ficarmos juntos da infância até a velhice. Um pouco de vida boemia vai bem a todo mundo. Mas por mais, que eu me envolvesse com outra pessoa, e a minha cara metade com outro. No fundo saberíamos que o nosso amor é único, insubstituível, estávamos apenas passando o nosso tempo com outra pessoa. No entanto, o nosso coração se manteria inflexível a sua verdadeira paixão. Bom este era o meu sonho, não é mais. Já não é possível, passei a minha infância sem conhecer tal pessoa. E como é de conhecimento de todos, só se faz doze anos uma vez na vida, não há volta. Então terei que me contentar com algumas paixões, quem sabe milhares ao longo de minha vida.


Inicialmente isto pode parecer maravilhoso, ter milhares de paixão. Só de biografia sobre os amores, poderia escrever um livro de cinco volumes, cada um com mil páginas. E de fato um “Don Juan”, diriam alguns. Um veterano, um apaixonado, diriam outros. Eu diria que é um idiota. Teve muitas e não teve nenhuma. No fim a indústria cultura, se tornou a indústria pornográfica para este pobre rapaz. Pergunte a este Don Juan, se ele se lembra do gozo de sua amada. Primeiro ele ira perguntar, de qual amada se trata. Afinal de contas são tantas. Este é o problema, o homem de uma paixão só, não precisa perguntar de qual amada estão lhe perguntando. Ele só tem uma, a conhece como ninguém, cada pedaço do corpo, cada gesto, cada sorriso, cada olhar, cada tom de voz, cada suspiro, cada gozo, cada toque, cada beijo. Não há nada, que ele não saiba de sua amada. E isto só se consegue, tendo uma única e mais nenhuma amada. Eu não tive esta sorte e nunca terei. Sou um Don Juan, tenho muitas e nenhuma ao mesmo tempo. Já fui idolatrado por milhares de mulheres, muitas lindas, inteligentes, mulher que não se acha em cada esquina, o problema, é que as nunca conheci, no máximo algumas noites, outra apenas uma.


Sei muito bem, que posso parecer um canalha e realmente devo ser. Um grande canalha, mas não foi por que eu quis, não foi esta a minha escolha. Quis a vida que eu fosse um canalha, um Don Juan. Eu nem falei das polemicas, das brigas intermináveis, das discussões ideológicas, da minha fama de ser do contra. E tudo isto contra a minha vontade. Eu só quero ter uma vida comum. Consigo ate imagina-la, mesmo que saiba, que nunca vá acontecer, é possível pensa-la. Ela seria muito simples, sem nenhuma extravagância, imprevisibilidade, chateação, brigas, não haveria tragédias, nenhum homicídio. Alias este fato ainda não me ocorreu não me mataram. E eu não cometi nenhum homicídio. Confesso, já tive vontade de matar algumas pessoas, nada assim, fixo, foi apenas uma idéia leve, passageira, que logo se foi. Nunca ocorreu um homicídio próximo de mim também, nenhum parente, amigo ou conhecido assassinado. E ao contrário do que a grande maioria pensa, os homicídios são mais comuns do que os atropelamentos.


Voltando a minha vida comum, simples, cotidiana. Eu não ganharia na loteria, não ficaria milionário, não seria um político, nem mesmo um síndico. Não me tornaria um executivo bem sucedido, não seria diretor ou presidente de nenhuma empresa, clube ou associação. Enfim seria o que as pessoas chamam, de uma pessoa mediana, comum. Teria o meu carro, minha casa, minha família. Uns dois ou três filhos, uma esposa e talvez no máximo uma traição, bem passageira, já com quarenta anos de casamento. Não teria duas famílias, só uma. Meus filhos seriam bem educados, não se envolveriam com nada turbulento, enfim, uma família comum. Feita por uma pessoa comum. Não haveria extravagância, viagens pelo mundo, no máximo uma ou outra, feita com base em uma economia anual. Seria a família classe média. Talvez escrevesse um livro, nada fascinante, algo sobre um assunto que me interesse. Com muito custo conseguiria uma publicação, em alguma editora. Não venderia muitos exemplares, o máximo para cobrir o custo da edição, diagramação e tiragem. Sobraria-me uma merreca, mas teria algo para mostrar aos amigos.


Minha esposa, como já disse, seria uma namorada da infância, teríamos nos conhecido com oito anos de idade, ela teria tido uns três namoricos, mas nada demais. Afinal de contas teria sido o único homem que ele viu nu em toda sua vida. Minto, ela teria visto o seu filho, nu também. Algo muito comum entre mãe e filho. Não falei sobre o trabalho, nada demais, seria eu um funcionário, médio em alguma empresa privada ou pública, ganharia uma renda média e trabalharia, para não ser demitido. Sem grandes pretensões, de ser o melhor, de subir dentro da empresa, de ganhar rios de dinheiro. O meu dinheiro seria o suficiente para sustentar a família, minha mulher com a renda dela, pagava por aquelas coisas de mulher. Meus filhos teriam condições de se graduarem e até mesmo de seguir uma vida academia, se assim quisessem. E uma vez por ano, teria a viagem da família, para alguma praia ou país vizinho.


Falei basicamente, o que é uma vida comum para mim, e seria justamente este tipo de vida, que eu gostaria de ter. O mais engraçado ou irônico é que não consigo ter uma vida assim, sou sempre o centro das atenções, badalado, um verdadeiro Dom Juan, já tenho uma fortuna razoável e sem muito esforço ficarei rico. Não chego a ser uma celebridade, mas dentro do meu circulo social sou conhecido, apreciado, venerado. Enfim sou tudo, o que nunca quis ser. Não gosto de me envolver em batidas de transito, não gosto de me envolver com mulheres casadas, noivas ou comprometidas, não gosto de me envolver em ocorrências policiais, não gosto de confusão, não gosto de uma vida boemia em excesso e não gosto de ser invejado. Agora cheguei ao ponto principal de ter uma vida comum, ela não é invejada por ninguém. Não há o que temer, ninguém quer tomar o seu espaço, ninguém quer a sua mulher, que mal conversa com outro homem, ninguém quer o seu emprego, que é muito comum. O seu carro comum não é invejado. Pois bem, se eu pudesse escolher entre ser um Deus e um homem comum, não haveria dúvidas, seria um homem comum. No entanto, a vida não é feita de uma escolha simples e clara, muito pelo contrário o caminho é tortuoso, escuro e sombrio, a vida é complicada.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Emoção à distância

Li estes dias sobre emoção à distância. Dizia algo como a emoção que acontece em você depende da distância que o fato ocorreu. É algo obvio, mas como diria a minha mãe: O ovo de Colombo também era muito obvio. Alias os idiotas da objetividade sempre fazem isto. Vamos imaginar a cena. Em uma taverna estão todos enchendo a cara, contando piadas e zombando dos outros. Eis que chega Colombo e desafia todos ali presentes, havia algo em torno de cinqüenta pessoas.

O desafio era bem simples, Colombo perguntava quem ali era capaz de fazer um ovo ficar em pé, sem nada escorando, ou seja o ovo teria que apoiar-se em uma de suas extremidades. Alguns riram outros desprezaram, houve uns que debocharam sem o menor cinismo. Colombo já sabendo do resultado final, não retrucava nada, absolutamente nada, nem mesmo um sorriso plástico lhe saia do rosto. Os idiotas, que se achavam mais espertos, foram os primeiros a tentar, tentaram uma duas, três, milhares de vezes. Houve todo o tipo de tentativa, mas ninguém conseguia colocar o ovo em pé. Depois de todos desistirem e pedirem por clemência de Colombo, eis que ele sem anunciar o gesto, em questão dê segundos, pega o ovo, bate ele com uma pequena força contra o balcão e quebra uma pequena ponta do ovo e ele fica em pé, com o pequeno achatamento provado pela colisão. E diz: O ovo esta em pé, vejam. Ohhh todos dizem, mas logo os idiotas da objetividade falam, mas se eu soubesse que poderia quebrar uma pequena ponta dele ou mesmo achatar, para que o ovo ficasse em pé, eu mesmo teria feito. E logo todas as cinqüenta pessoas ali falam em coro, que coisa mais obvia senhor Colombo, você nos trapaceou, assim qualquer um coloca o ovo em pé.

O que vou falar é tão simples como ovo de Colombo, o que é a morte de um ser humano para outro ser humano? No mínimo a morte de um semelhante, algum leitor já viu um homicídio ocorrer bem à frente dos seus olhos? Eu nunca presenciei tal cena, mas imagino que a emoção seja tremenda, imaginem se for um irmão seu? Ou mesmo um amigo? Um tio? Sua esposa?, sua mãe? Enfim a emoção se torna cada vez mais plástica conforme vai se aproximando de você. Alguns iriam objetar, não espero a unanimidade e nem á quero, nada pior do que levar um dez. Passa a impressão que não foi corrigido ou mesmo lido. Um dez é a morte. Mas leitor se não viu o homicídio, você já viu o atropelamento de um cão ou vai dizer que não? Não precisa ser necessariamente um cão, pode ser um gato, uma zebra, um cavalo, enfim qualquer animal, que produza sons e demonstre sua dor em público.

Um belo dia, estou saindo de minha casa. Ao por os pés no passeio público vejo a trágica cena, que nunca mais iria sair de minha memória. Passa um automóvel em alta velocidade e atropela um cachorro, um vira-lata que sempre me incomodava quando eu chegava em casa, mas ele estava ali agora agonizando sua morte, que neste momento era inevitável e o pior com as tripas pra fora, muito sangue, uma cena plástica. A emoção em mim era inevitável, sofria por aquele cão como se fosse meu desde que nasceu, eu e o cão éramos agora inseparáveis, ele agonizava e eu também. O resto do meu dia não foi nada agradável, o cão sempre estava na minha memória, o seu atropelamento me chocava mais do que a morte de um menino na África por inanição. Só assim compreendia, por que nada me abalava. Eu sabia da miséria do Vale do Jequitinhonha, da indústria da seca no Nordeste, do trabalho escravo que acontece até os dias de hoje, dos trabalhadores Chineses, das milhares de Guerras que acontecem pelo mundo, dos milhares de homicídios que ocorrem a minha volta, nada disso me abala. Convivo pacificamente e harmonicamente com todas as catástrofes que ocorrem por ai, e isto pelo simples motivo da distância, estou distante de tudo isto. A simples distância me faz não sofrer ou sentir emoções quanto aos tristes fatos.

Lembra quando damos a notícia: “Vou a um velório”. A primeira pergunta sempre é esta: “Morreu algum parente seu?”. Se você quer aliviar qualquer sentimento de pêsames você responde: “Não, é um conhecido de um conhecido, vi ele algumas vezes”. A pessoa que perguntou muda de assunto e até se esquece, que você vai ao velório daqui a trinta minutos. Agora imaginem se você dissesse: “Sim, minha mãe”. Não será preciso dizer mais nada, a plasticidade desta frase é o suficiente para a tragédia ser instaurada, na mesma hora você ganhara folga, presentes, sentimentos de pesares, todos a sua volta serão delicados com você, por um bom tempo você não será irritado por ninguém. Toda esta diferença entre duas mortes, que são identicas. Dois seres humanos vieram a falecer, o resultado produzido é o mesmo. A única diferença entre uma e outra é apenas à distância entre elas e você.

domingo, 2 de novembro de 2008

Minha única leitora

O estimulo é fundamental para os homens fazerem alguns feitos em suas vidas. As vezes fico imaginando como séria se o estimulo das pessoas deixassem de existir. Imaginem só ou melhor, imagine minha única leitora. O que séria do mundo? Não haveria mais criação, não seria mais publicado um único livro, isto mesmo nem um misero livro. Nenhum artigo cultural ou cientifico. Não haveria mais nenhuma nova música, opera, peça teatral, nem um filme, nem mesmo um filme besteirol Americano. Caro leitor, quer dizer minha única leitora pense só no que estou dizendo. Não é só no campo cultural, que isto aconteceria, seria em todos. Não haveria a construção de nenhuma casa, nem mesmo uma casinha de pau-a-pique.

Eu começo a ficar transtornado com a minha própria reflexão. Imaginem, quer dizer imagine minha única leitora. Nem um santo trabalhador indo para o serviço. Nem mesmo o patrão. Todos sem um único estimulo, com o passar do tempo o mundo cairia na inércia e não produziríamos mais nada. Não haveria estimulo nem para o sexo. Alguns dizem que o sexo é para operário, mas eu estou dizendo o pior, o impensável, ninguém, nem mesmo o operário se atreveria a fazer sexo. Só por conta da falta de estimulo. Alguém é capaz de me desmentir, ou melhor, a minha única leitora é capaz de rebater a minha reflexão? Eu penso que não, afinal de contas somos seres, que só realizam algo mediante o estímulo, seja este econômico, espiritual ou mesmo um mero prazer, temos ainda o pseudo-estimulo.

O leitor mais assíduo pode estar se perguntando o que seria um pseudo-estímulo. Já ia me esquecendo, não tenho leitores, tenho uma única leitora. Com nome e endereço, Cláudia Tavares de Souza, residente na Rua Alvarenga Peixoto, nº. 580, Apto 1204, Bairro Lourdes, Belo Horizonte – Mg, Cep 30.180-120. Somos íntimos, às vezes vou até a casa de Cláudia tomar um chá e ficamos por lá proseando. E não pense os intrometidos, que eu já conhecia Cláudia Tavares, porque isto não é verdade. O fato é que nos conhecemos por aqui, pela escrita. Ela se tornou uma leitora assídua de minhas escritas e por curiosidade ou ironia do destino, se tornou a minha única leitora. Já falei isto para ela várias vezes, mas ela teima em dizer, que isto é uma brincadeira minha, finaliza dizendo, que ironia é intrínseca a minha pessoa
Nem tento explicar a mais pura verdade, seria em vão. Minha única leitora, não acredita na veracidade das minhas palavras. Ainda não entendi por que ela me devora. Mas voltemos ao assunto de extrema importância. Falava sobre o estimulo e sua importância para a raça humana. Isto mesmo é vital para a sobrevivência de nossa espécie. Não estou falando nenhuma bobagem. Pense bem, se não temos estímulo para o sexo, não iremos procriar. Se não temos estímulo para cozinhar, não iremos comer. Sem estímulo estaremos fadados a extinção. Isto tudo por conta de uma mudança psicológica, afinal de contas o estímulo nada mais é do que uma situação psicológica, seja ele econômico, egoísta ou pseudo-estímulo.

O pseudo-estímulo é o mais comum na ocorrência dos estímulos. Ele é um estímulo criado em nossas mentes, ele não existe, é um falso lucro, é uma falsa vantagem, que criamos para termos estimulo para a realização de algo. Vou dar o exemplo de mim, por que escrevo? Pelo pseudo-estimulo, que terei milhares de leitores, milhões por que não? Ficarei rico, não chega há tanto, no Brasil escritores não ficam ricos. Irei ganhar uma boa grana, o suficiente para me sustentar, viverei da escrita. Este é o meu pseudo-estimulo. Penso nos leitores, no meu fã-clube, nos meus críticos, ah os críticos, já dizia Mario Quintana: "Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama:"Olha uma borboleta!". O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante da vida, murmura:- Ah! sim, um lepidóptero...", são demais eles. Nas minhas leitoras apaixonadas, que irão fazer até o que Deus dúvida, por uma noite de amor. Só isto, uma noite de sexo selvagem e nada mais. Não vão querer compartilhar a minha fama ou minha grana, somente o prazer ter dormido uma noite com o seu escritor predileto. Os mais assíduos escreverão milhares de cartas pra mim, com sugestões, críticas, proposta de trabalhos conjuntos, enfim este é o meu pseudo-estímulo da escrita.

Com o passar do tempo, meu falso estímulo ira mudar para o estimulo real. E qual é este “real”. Você, isto mesmo. A minha única leitora, que compartilhar comigo tudo o que eu escrevo. Todas as minhas asneiras e sacanagens, que me conhece melhor do que eu. Esta pessoa, que já ouviu várias confusões filosóficas minhas. A minha única leitora é o meu único estímulo real para continuar escrevendo. E se nenhum jornal, editora, ou qualquer meio midiático de massa se propõem a publicar minhas escritas. Não se preocupe minha única leitora, eu publico. E ficamos assim, até que a morte nos separe.