Algumas pessoas têm características raras. Eu conheço poucas que tenha. Não estou falando de beleza, afinal de contas o que é belo. Tendo a pensar que beleza é apenas um padrão imposto por moldes culturais, mas isto não chega a ser uma tragédia. É apenas um ótimo argumento para provar a futilidade da beleza. Mas não quero falar de aspectos estéticos dos seres humanos, isto realmente não me interessa. Pelo menos como algo a ser pensado.
Estou preocupado com as características raras, que algumas poucas pessoas possuem. Alguns são gênios, outros altistas, alguns para-normais, e outros não mudam a feição. E justamente estes que me interessam, as pessoas que não mudam de rosto, que não se alteram, aconteça o que acontecer. Eu conheço duas pessoas com estas características. Isto mesmo, apenas duas e olha que já conheci muita gente nesta minha longa vida. Um se chama Roberto, o amargo, e outro Flavio, o sorriso bonito. A diferença entre eles é apenas o estado de espírito.
Enquanto o primeiro nunca ri, nunca chora, nunca fica agressivo e muito menos enfurecido. O estado dele é apenas, indiferente a tudo e a todos. Incrivelmente ele nunca saiu deste estado, é inerte. É algo muito similar ao que é dito na física, se um corpo esta em movimento constante e não há força de atrito sobre ele, ele continuara infinitamente nesta constância. Assim é Roberto, o amargo. Parece que não há nenhuma força de atrito sobre ele, ou melhor, parece que nada age sobre ele. É como um ser invisível, sem matéria, sem arranhões. Nunca vi sair de Roberto um sorriso plástico, muito menos tímido.
Roberto não é uma pessoa calada e nem falante. O caso dele não é de que sua opinião seja aceita, ele não se preocupa com isto. Alias, ele não esquenta com nada, absolutamente nada. Não há assunto, caso, fato, polêmica, que faça Roberto alterar o seu humor. Nem mesmo a morte de sua mãe foi capaz disto. E ela não morreu de velhice ou de uma doença trágica, foi morta a tiros em um assalto no Banco. Roberto apenas disse: são coisas da vida. Isto sem mudar qualquer músculo do rosto. Ele não aparentava estar feliz, triste, calmo, nervoso, simplesmente estava com o mesmo rosto, com a mesma expressão, que tem desde que nasceu. Roberto era mesmo amargo.
Falando assim de Roberto, lembrei de um episodio curiosíssimo, apesar de Roberto ser assim indiferente a tudo e a todos. Ele gosta de futebol e até tem o seu time do coração. E nos dois torcemos pelo mesmo time, que é o Clube Atlético Mineiro. Não vou ficar dizendo aqui, como é torcer pelo Glorioso. Iria estender o assunto demais e não é este o objetivo. Mas então eu e Roberto fomos a final do Campeonato Brasileiro. Atlético versus São Paulo, não é preciso mencionar que o Mineirão estava lotado, capacidade máxima, não havia mais lugar para uma única pessoa. O time do Galo era invencível, no entanto, não saímos de lá com o título. Foi algo inacreditável, nem os jogadores do São Paulo acreditavam no título, se dizia até, que disputando com o Galo o fato de ficar em segundo lugar é um título. Não é preciso dizer como o Mineirão ficou mudo, triste, calado, alguns até gritavam, era o grito de dor. Mas o que mais me chamou atenção em todo espetáculo foi Roberto. Este não mudou nada, saiu do Mineirão como entrou. Seu rosto, sua expressão era a mesma, ele apenas ajeitou os óculos e disse: são coisas da vida.
É incrível como Roberto não mudava, neste dia não pensei na derrota do meu time do coração, só pensava na fisionomia de Roberto. Ela não mudava aconteça, o que acontecer. Era o mesmo, o amargo. E não conheço pouco Roberto, já estive com ele em muitas situações, sejam elas felizes ou tristes, ou mesmo trágicas. Lá estava ele sempre com a mesma expressão, o máximo que poderia expressa é dizer a famosa frase, “são coisas da vida”. Mas Roberto não é o único, conheço também Flavio, o sorriso bonito. Este esta sempre rindo, como o seu apelido revela. Mas o sorriso plástico de seu rosto, não significa nada, não era nenhuma pista ou vestígio. O sorriso de Flávio e nada era a mesma coisa. Quem não conhecia Flávio demorava um pouco para aprender este pequeno detalhe. Alguns o achavam sórdido.
Com certa razão é claro, lembro-me bem quando a esposa de Flávio veio a falecer em um trágico acidente, para completar o grau de catástrofe, a esposa de Flávio estava grávida. Foi uma morte fulminante, uma carreta colidiu de frente com o veículo onde estava à esposa, estavam somente ela e o bebe, ainda em sua barriga. O motorista da carreta estava dormindo, provavelmente já há cinco dias sem dormir, entrou na contramão e não houve muito que fazer. Flávio é claro, estava triste, péssimo. Na verdade o que diferenciava Flávio de Roberto esta justamente nisto. Flávio demonstrava os seus sentimentos, mas logo em seguida estava rindo. Seu semblante de tristeza e de não acreditar no trágico acidente, não durou mais do que cinco minutos. Logo Flávio estava rindo, não que ele já não sentia mais nada Muito pelo contrário, ele ficou sete anos amargurado com tudo isto. No entanto, não ficou um dia sequer sem dar um belo sorriso.
Um dia Flávio me confessou como era ruim ser daquele jeito. Explicou-me o que acontecia com ele. Era um verdadeiro paradoxo, Flávio tinha emoções, ficava triste, alegre, feliz. Enfim o seu humor variava como de qualquer pessoa. O diferencial era que aconteça o que acontecer, Flávio sempre demonstrava estar feliz. E isto não era por querer. Flávio não gostava de ser assim, muito pelo contrário, aquilo fazia ter raiva dele próprio. Ele chegava ao ponto de odiar a si. Penso que deve ser algo muito desconfortável, não poder demonstrar a ninguém, a nenhum conhecido que você sofre. Flávio inclusive me deu um exemplo, do que já aconteceu com ele. O caso da esposa eu já sabia, ele me contou de uma paixão. Daquelas que você nunca esquece, Flávio me disse, como amou esta garota, como sofreu por ela. É claro que contou tudo isto sorrindo. Na hora, isto não fazia diferença era até coerente contar tudo sorrindo. Naquele momento, realmente havia graça em toda história.
Mas como Flávio mesmo disse, é muito triste não poder demonstrar a dor que sente pela perda da amada. É o mesmo que sentir dor e não poder gritar, berrar, não poder expulsar aquele sentimento terrível. Ter que guarda para dentro de você é o mesmo que engolir uma dinamite. E assim era com Flávio, ninguém soube da dor que ele sentia pela perda de sua amada. É preciso esclarecer, que ela não faleceu, apenas o trocou por outro. Nem mesmo ela soube da dor de Flávio. Ele não ficou nem uma hora sem rir após saber de tudo. Qualquer coisa era motivo para Flávio sorrir. Seu sorriso era sempre plástico. Sempre bonito e sempre sincero, que é o pior de tudo. Não havia como dizer, tire este sorriso falso do rosto, pois não era falso. Flávio nunca deu um sorriso falso em toda sua vida. Apesar de se sentir, mal ele se sentia feliz. Era um paradoxo incrível. Nesta conversa que tive com Flávio, lhe disse a seguinte opinião. Como sei da pessoa incrível que ele era. Eu disse à ele, que pessoas como ele, devem ter ambiente para tudo. O amor e ódio podem conviver pacificamente em sua consciência A felicidade e tristeza não se matam, vivem em sua mente harmonicamente.
Flavio não gostou muito de minha explicação, disse, que queria parar de rir quando se sentisse mal, que gostaria de demonstrar aos outros o seu mau humor, sua irritação com certa pessoa. Enfim ser transparente, era justamente como ele queria se sentir. No entanto, aquele sorriso bonito, lhe parecia uma verdadeira mascara. Era justamente assim, que Flavio se sentia. Uma mascara permanente, que nunca havia tirado. Ele sabe que há o papel social, que todos devemos cumprir certo papeis em determinadas horas. Mas Flávio estava preso há um papel eterno. E ele nunca podia ser simples ele, Flávio. E havia o Flávio triste, o alegre, engraçado, o risonho, irônico, chato, pedante, mauricinho, uma infinitude de Flávios que ele poderia se tornar. No entanto, estava preso ao Flávio, o sorriso bonito. Falando assim de Flávio e Roberto, vejo como eles sofrem por terem um rosto que não muda. Há sim infinitas vantagens, mas as desvantagens são trágicas, disso não há dúvidas. O meu rosto é infinito, complexo, inconstante, instável, incerto. Espero que eu nunca me prenda ao rosto que não muda como os meus dois amigos.