sábado, 27 de setembro de 2008

A Geladeira


Sempre me incomodou a rotina, não digo esta que chamamos de cotidiano. Estou dizendo sobre o paradigma, a forma como somos domesticados a pensar. Sempre lemos da esquerda pra direita, começamos da página número um e não da quatrocentos e oitenta e nove. Ao acordarmos escovamos os dentes. Dormimos entre as 22h00min até as 10h00min, enfim existe toda uma domesticação do homem, para ele ser o homem. Eu fico pensando é necessário à padronização até onde não há necessidade disto, o leitor deve estar perguntando: Do que ele esta falando? Ah meu caro leitor estou falando dos romances, da literatura, do cinema, da sétima arte, esta de contarmos histórias.


Por que devemos ter sempre o padrão o mocinho, o vilão imperdoável, implacável e com certos princípios, a mocinha, o início, o drama e por fim o final feliz ou não. Já houve vários que tentaram subverter esta ordem, já tentaram contar história pelo fim para chegar ao início, vilões e mocinhos ambíguos, enfim já tentaram de tudo. Inclusive já escreveram isto em música vejam: "O meu refrigerador não funciona. Eu tentei tudo. Eu tentei de tudo. Não funciona, Não, não, não O meu, o meu O meu refrigerador não funciona." Mas nada adiantou as novidades acabam por virarem velhos paradigmas com o passar do tempo. Em suma, nunca da certo, não funciona. Alguns chegaram perto entre eles o obvio ululante Nelson Rodrigues, que escreveu A vida como ela é. Por que este título? Pelo mais obvio de tudo, a vida é uma ótima contadora de histórias, temos de observa - lá e conta-la. Não precisamos fazer mais nada. Meu caro leitor veja a minha observação.




Lá estava ela, linda, limpa, reluzente, nova e intacta, no meio de milhares ela foi escolhida. Por quem? Ah isto não interessa, o importante é que ela foi a selecionada. Pois bem a geladeira, marca cônsul, modelo Z220, cor branca, número de série 151118891984. O seu destino era um bar, que estava localizado em um clube, este onde as pessoas se reúnem, batem um papo, tomam um sol, jogam uma peladinha, pulam na piscina e entre outras atividades. O bar era bem movimentado, havia um constante entra e sai, a geladeira vivia sendo aberto, fechada, esvaziada, preenchida, um tremendo burburinho. Não podemos dizer que a Geladeira teve muita sorte, poderia ter sido escolhida por um casal de idosos, desta forma ela teria mais tempo para descansar. Nada como a ociosidade, o ócio, é uma palavra esquecida na modernidade.


Não posso de deixar de mencionar Lessing "Preguiçosos em tudo, menos no amor e no beber, menos na preguiça" há existe um provérbio espanhol que diz "Descansar é saúde". Enfim a Geladeira trabalhava muito neste bar, é verdade que havia o lado bom, pois conhecia muitas pessoas, já que o bar era freqüentado por diversas pessoas, de diferentes credos e convicções. Sem falar das Histórias que a Geladeira presenciou, numerosas, paixões, amores, algo que não caberia em qualquer livro. Pois bem, o bar em pleno vapor, mas o clube não, este é abandonado, jogado as traças, ou melhor, as moscas. Prepare-se leitor, este é ponto fundamental por que a vida conta ótimas histórias. Estive refletindo sobre isto e percebi que a falta de nexo, a falta de coesão lógica entre causa e conseqüência é o principal responsável por boas histórias, eu resumiria em uma palavra o "inusitado". Como a Geladeira poderia sofrer com a ociosidade do clube, que foi jogado ao leu. Pelo o que sabemos a Geladeira jamais poderia tomar um banho de sol ou mesmo dar uma mergulhada, quem sabe boiar. Imagine a cena meu caro leitor, a Geladeira boiando no meio da piscina, refletindo sobre a vida. Seria no mínimo diferente. Mas eis que o clube foi tomado por mosquitos e não são mosquitos quaisquer, não mesmo. São os mosquitos da dengue, que nas enormes piscinas do clube ploriferam, o clube que antes era um lugar sociável se torna em um pesadelo para Secretária de Saúde da Cidade, que sem outra escolha interdita o local.


O clube se tornou um ponto de ploriferação dos mosquitos da dengue, que aterrorizam a cidade inteira. A Geladeira imune ao vírus não se preocupa com a situação, mas eu no lugar dele me preocuparia. Eis que ao interditar o clube, os bares que lá estão também são interditados. Qual é a explicação racional desta medida? Nenhuma isto mesmo meu caro leitor, uma medida puramente idiota. Os bares já estavam funcionando, quando o clube foi jogado as moscas e nada impedia que o clube fosse interditado e estes bares continuassem a funcionar. Pois bem tudo é interditado e a Geladeira permaneceu lá no bar, junto com os demais objetos, freezer, liquidificador, televisão, cadeiras, mesas e entre outros.

A Geladeira agora descansava, não fazia nenhuma atividade, mas sua vida social de fato se tornou paupérrima. E com o passar do tempo o inevitável aconteceu. Saqueadores invadiram o clube e os bares levando tudo o que encontravam pela frente. E como o local foi interditado a Prefeitura da cidade não permitiu a contratação de um vigia por parte dos donos e não colocou ninguém para vigiar o local. O resultado não poderia ser outro, numa sociedade onde o lucro vem da miséria. Os saqueadores levavam tudo, e o que era muito complicado levarem como, por exemplo, um freezer, levavam o motor. A Geladeira permaneceu no bar por um bom tempo, viu muitas coisas sendo levadas, ela sempre aguardava a sua vez, e quando os saqueadores iam embora ficava um sentimento ambíguo alívio ou frustração, o que seria pior ficar ali ou ser levada? A Geladeira nunca sabia qual era o melhor, o que de fato não tinha dúvida é que a angustia já tomava conta de sua vida.


Pois bem, o dia chegou os saqueadores resolveram levar a Geladeira, não sabemos se por necessidade, comodidade ou por falta de escolha. A Geladeira preferiu ficar na dúvida. Os saqueadores carregaram a Geladeira até o muro que dá acesso para a via pública e foram embora, a Geladeira ficou lá não sabendo o motivo, será que desistiram do furto? Calma eu diria a Geladeira, eles foram apenas arrumar um jeito de carrega - lá não desistiram de furta-lá. Dito e feito, horas depois os saqueadores voltam com uma carroça e no momento que iriam transportar a Geladeira chega a Polícia. Isto mesmo leitor a Polícia flagrou os saqueadores, que eram dois no momento, em flagrante delito.


Foram todos para a Delegacia, o saqueador, por que o outro conseguiu fugir e a Geladeira. Lá é feito o Auto de Prisão em Flagrante Delito o saqueador é preso e encaminhado a Penitenciara e a Geladeira é imediatamente devolvida ao seu dono. O dono não à leva, deixa lá dizendo que posteriormente ira pega-lá. Legalmente a Geladeira não estava mais na Delegacia, ela tinha sido entregada ao dono pelo documento que este assinou. Enfim para os olhos do Estado ela não estava ali mais, tinha retornado ao seu proprietário, conforme o recibo.




O fato é que a Geladeira permaneceu ali por muito tempo, viu coisas que nunca pensou em ver ou presenciar, se quer sabia da possível existência. Viu muitas pessoas sendo presas, soltas, uns apanhando, outros batendo, alguns espancando, outros se divertindo com o sofrimento alheio, uns vendendo a liberdade. Como se a liberdade pudesse ser negociada. Outros negociando a proteção aos desamparados, propina, corrupção, abuso de poder e outras mazelas sociais. Ali na Delegacia a Geladeira presenciou a sociedade sem o seu véu característico, bem ali na sua frente, sem o jogo do esconde-esconde, sem vergonha na cara, sem politicagem, sem oba-oba, sem medo de ser feliz.


O velho tapete social que varre todas as sujeiras para debaixo dele não estava ali e ninguém presente fazia questão de colocá-lo lá. Por fim a Geladeira tinha esquecido do seu dono, não tinha mais remorsos dele, para ser sincero nem lembrava mais dele. Quem era o seu dono mesmo? A Geladeira já se sentia dona de si. O fato é que passado algum tempo o escrivão Policial que fez todo o processo burocrático, Auto de prisão em flagrante delito, prisão do saqueador, já que o outro tinha fugido, restituição da Geladeira ao dono, percebeu que já havia meses, que a Geladeira, estava ali na ante-sala da cela e de sua sala, bem no meio do caminho. Ele passou o resto da noite pensando na Geladeira e por fim raciocinou o seguinte, o empregado humilde dele necessitava de uma Geladeira, já havia comentado no assunto.



O dono daquela Geladeira não iria voltar para pega-la, já havia passado muito tempo. Legalmente ela já tinha sido devolvida, não via por que não da - lá ao seu empregado. O escrivão Policial depois de fazer esta profunda reflexão de justiça, memorizou isto e posteriormente iria comentar com o seu empregado. Passado uma semana, o escrivão Policial já em sua casa, lembra de sua reflexão e pergunta ao empregado se ele não queria uma Geladeira. Este responde que sim e pergunta quanto ele teria que pagar. O escrivão Policial responde que nada, que o empregado apenas deveria ir à Delegacia em um dia de serviço do escrivão e lá fazer uma encenação. Teria o empregado que se portar como o legítimo dono da geladeira para leva - lá.


E ele foi até a Delegacia lá se comportou como dono e o escrivão Policial como um servidor público, os dois encenaram, deram um sorriso irônico e intrigante, a Geladeira foi levada para a casa do humilde empregado. Lá tudo era diferente da suas ultimas duas moradias, não era luxuoso como o bar, não tinha um circulo social, não havia o inusitado, o inacreditável, a loucura humana bem a sua frente, não havia muito que fazer. Agora a Geladeira poderia realmente se dedicar ao ócio, enfim a preguiça.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bife a rolê

O dia não começou da melhor forma, acordei com sono, daqueles sonos que você daria tudo para continua-lo. Mas não tinha outra escolha, as minhas obrigações me esperavam e além do mais tinha duas caronas para irem comigo. Eu poderia deixar de fazer as minhas obrigações, mas não poderia tomar esta escolha por outras pessoas. Isto é no mínimo uma atitude ditatorial. Imagine só, você não ir ao trabalho, somente por que o seu caroneiro quis assim. Para não ser comparado a Napoleão me levantei, usei todas as forças que me restavam e venci o sono, uma batalha que travo constantemente e sempre acho uma mais difícil que a outra. O sono pode até perder a batalha, é aquela famosa máxima "Você vai cansar de bater e eu não vou cansar de apanhar", pois ele não se cansa mesmo de apanhar, todos os dias ou quase sempre luta contra mim, é verdade que perde, mas ele esta sempre ali. Confesso já perdi algumas batalhas, mas por conta das caronas tenho um plus à mais e venço na maioria das vezes.

Pois bem, depois de me arrumar e comer a minha refeição matinal vou de encontro as minhas duas caronas. Ao chegar no primeiro destino, eis que lá esta a minha carona, como prometeu de fato que estaria. Não falhou, não pestanejou, não se entregou ao sono, como poderia também te-lo feito, lá estava o carona. No segundo destino a mesma confirmação o carona estava lá, sem nenhuma reclamação ou desconfiança, nenhum dos caronas olharam nos meus olhos como se me perguntassem, você pensou em não vir? Eles não fizeram isto, foram inocentes como crianças, mal sabiam eles da verdade. Pelo caminho puxo o assunto de espirito de grupo, de cooperação e como as pessoas tem milhares de arte-manha para deixar tudo nas suas costas e na hora de colher os frutos, lá estão elas para receberem os parabéns. Dentro do carro o assunto é bem recebido pelos caronas, os dois concordam plenamente comigo, fazem alguns comentários, dão algumas risadas, mas a essência é mantida, em nada discordam de mim será que é por que tenho razão ou por que eles são os caronas. Enfim a minha dúvida talvez seja eterna, pois não adianta pergunta-los ficarei na indecisão da mesma forma, independente da resposta que me seja dada.

Agora chega no nosso ponto princípal o desenrolar de toda história, eu mal sabia o que me esperava. É aqui, que tudo se torna mágico o imprevisível, o inusitado ganha forma e vida, tudo se torna mais concreto do que o céu sobre as nossas cabeças. Eis que estou conduzindo o veículo e um outro um pouco a frente do meu na mesma faixa, para na pista, não sei dizer se para embarque ou desembarque, o fato é que o outro veículo parou pouco mais de vinte metros a minha frente. Penso em milesimos de segundo o que fazer, troco de faixa? para o veículo ? subo no passeio ? não paro o veículo ? Enfim não há muito tempo para pensar, penso no obvio.
Paro o meu veículo, uma freiada um pouco brusca confesso. Ah os caronas quase me esqueço deles, neste momento houve uma certa comédia. Os caronas no milésimo de segundo que eu pensava no que fazer, pensaram em me alertar, mas não falaram, não sinalizaram, apenas pensaram e foi tão alto, que consegui ouvir os pensamentos deles. Mas antes que eles externelizassem estes pensamentos já havia pisado no freio, já havia tido um barulho de borracha e asfalto. Até o momento não falei do imprevisível, isto não foi nada. O que acontecera no próximo segundo sim, que é imprevisível e ao mesmo tempo inevitável. Mas antes de conta-lo quero me ater na pequena reflexão que tive, sobre a compensação.

Vivemos no mundo da compensação e assim é pela própria lógica dele. O dinheiro circula, as mercadorias circulam e assim é com muitas coisas inclusive com as pessoas, com as suas interminaveis idas e vindas. Enfim um ato compensa outro e assim vai ao infinito. Da surgiu "Aqui se faz, aqui se paga", o próprio Direito é um estudo da compensação entres os seres humanos. A econômia é isto estudar a compensação dos bens do intercâmbio de valores. Nada mais do que compensação. Enfim vamos voltar ao inusítado. Eis que um segundo depois da minha freiada ouço um barulho de "BUM", não é necessariamente uma bomba foi o som de uma batida de automoveis, típico em cidades urbanas. Não olho no meu retrovisor, me nego a olhar um outro veículo colado no meu, sei que foi isto que aconteceu, sei que diferente de mim, o outro condutor não mantinha a distância de segurança.
Com certeza este indivíduo nunca parou pra pensar o que quer dizer: "Mantenha distância". Pois bem, viu como as coisas são compensações, ele não parou pra pensar na frase e agora se envolveu em um acidente de transito. E eu? que li a frase e compreendi muito bem o sentido da mesma? Bom talvez esteja compensando outra coisa, agora não consigo identificar o que é. Ao descer do veículo e analisar a situação, fiquei um tanto confortável o outro condutor iria arcar com o prejuízo, dei o beneplascito aos caronas, que prosseguissem a viagem, agora era só uma questão de tempo até tudo voltar ao normal. Na verdade ainda faltava a minha compensação e ela não demorou a chegar, veio logo no mesmo dia, no almoço, ao invês de ganhar um Bife a rolê, ganhei dois. Há meu maldoso leitor antes que pense, que conversei com a cozinheira, que falei com ela sobre compensação, te digo o contrário, não trocamos nenhuma palavra, mas mesmo assim fui compensado de todo o transtorno que passei naquele dia. Tudo graças ao Bife a rolê, que estava delicioso.

Início

Vou escrever pequenos pontos que se não incomodam a todos, ao menos a mim e algumas pessoas ficam um tando desconfortável com eles. Não vai haver peridiocídade neste blog, não ganho pra isto e não sou regular nem com as minhas obrigações. Não vou dizer que não espero leitores, pois se algo é dito é necessariamente para alguém. Quem são os meus inspiradores? O bizarro eu diria, as pessoas comuns, o cotidiano, os pequenos problemas e frequentes é claro que não posso deixar de mencionar os gigantes que eu admiro como Nelson Rodrigues em seu Obvio Ululante, Mario Quintana em sua pura e fina ironia, Machado de Assis, Aluisio Azevedo, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo e alguns gênios, que agora não me venha a memória. O leitor deve estar me achando um pouco ultrapassado, reconheço a minha mediocridade, sim sou antigo e deles me cultivo. Eu tenho este estranho sentimento de me agarrar aos detalhes, as pequenas coisas e principalmente dos CLÁSSICOS, se o clássico for para as profundezas do mar, vou junto e lá permanecerei. Inicialmente é somente isto, acho que não tenho mais nenhum ressalva para o leitor desavisado, que quiser continuar a sua leitura.