domingo, 28 de dezembro de 2008

A vida imitando a arte

Um dia desses ao ir à padaria fui abordado por um vizinho. Nunca tínhamos conversados, no máximo nos cumprimentados. Mas neste dia não teve como ele já chegou me interrogando: "E então camarada como é aquela história da professora? ". Tive um susto na hora, não entendi a pergunta e retruquei: "Que professora? Do que está falando? Não esta me confundindo com alguém, tenho um rosto muito comum". O sujeito foi decisivo e disse: "Claro que não meu camarada, é você mesmo quem publicou a história da professora que te trocou por outro". Nesta hora me veio à memória do que aquele sujeito estava falando. De uma publicação recente minha “Amores da Juventude”. Então expliquei pra ele que era tudo ficção, que há sim pedaços da realidade, mas no fim das contas é tudo fruto da minha imaginação, que sai colando os pedacinhos do real e com isto faz uma história fictícia.

O meu vizinho não ficou satisfeito com a minha explicação saiu de lá mais convencido de que a história era mesmo de fato realidade. Mas esta conversa abruta e no mínimo estranha me estimulou em publicar novamente uma explicação sobre o que eu escrevo ( Já publiquei sobre o assunto em “Ponto nos is”). O fato é que me incomoda muito ter de pensar, que o que eu escrevo vai ter reflexo na realidade. Eu sei que temos responsabilidades pelo o que falamos. Inclusive isto é a premissa da liberdade de expressão. No entanto, escrevo ficção e não posso ser responsabilizado por algo que não tenha de fato uma conexão com a realidade, pode haver sim coincidência, mas isto esta longe de ser algo que possa me responsabilizar. Não estou falando apenas de responsabilidade jurídica, o que mais me incomoda é a obrigação moral.

Certos acidentes entre o mundo real e o meu fictício me impedem até mesmo de publicar ou de escrever sobre algo. É uma verdadeira auto-censura, quando não é uma censura explicita. No mínimo é muito egocêntrico pensar que eu escrevo sobre determinada pessoa ou caso familiar. Nas minhas imaginações não existe conhecidos ou desconhecidos é um modelo ideal, imaginado por mim e pronto. Alias o meu amigo Jô sempre escreve no fim de suas publicações a seguinte explicação: “Esta é uma obra de ficção. Mesmo as figuras históricas nela apresentadas são tratadas de forma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade. Qualquer semelhança dos personagens fictícios com personagens reais não passa de fortuita coincidência.”. É mesma explicação que tenho sobre as minhas publicações, sem tirar e nem por uma linha, palavra, vírgula ou mesmo ponto.

O que me intriga nesta história toda é se as pessoas fazem isto por implicância ou por não conseguirem mesmo distinguir entre ficção e realidade. Pois a diferença é brutal. No entanto, as desconfianças e até mesmo incredulidade total que se trata de ficção estão mais vivas do que nunca. Eu já joguei a bandeira branca contra esta batalha cruel e insana. Desisto de dizer que escrevo ficção pura e simples. Só estou me resguardando para que no futuro não digam que nunca me esclareci e estou fazendo isto pela segunda vez.

Um ponto que me intriga muito é a confusão do autor com a pessoa física quem escreve. Eu autor não sou, o eu físico. Assim como crio vários personagens eu acabo sendo mais um personagem e não mera continuação física e psicológica da pessoa quem assina as publicações. Tudo bem que isto pode parecer um tanto confuso, mas isto tem uma explicação filosófica. Eu não sei dizer, pois não sou filosofo, apenas sei que tem uma elucidação do assunto ou então próximo disto. O máximo que sei dizer, que tendo um autor e a pessoa quem escreve. Separadas uma das outras, há maior liberdade de imaginação. O grau de poder da escrita se torna maior, posso inventar o personagem quem eu bem quiser que seja. A pessoa quem escreve na verdade é muito sem graça, fútil, boba, ingênua e o pior, sem muitas histórias pra contar. Então para dar mais de mim à minha única leitora dou pernas pra quem quer. E tem mais, eu autor discorda das idéias da pessoa quem escreve, enfim as opiniões de um e de outro não são necessariamente convergentes.

Tudo bem que pago caro pela minha liberdade de escrever e imaginar. Mas tudo tem o seu preço e se pagamos é por que vale o valor pago. Mas não culpo a ninguém por esta confusão. No fim das contas tudo é confuso, não há distinção tão clara entre o real e o não real ou mesmo que é a realidade? É difícil dizer até onde um quadro influencia na realidade ou o quanto ele foi reflexo do real. Enfim as coisas não são pretas e nem brancas são cinza. Não quero acabar com as coincidências, sei que elas existem. É bom que isto aconteça, mas que predomine o razoável. Se é que isto é possível.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quando o mundo desaba

Estive pensando sobre a busca da felicidade. Sobre a certeza do amanha. Parece que as pessoas no geral se preocupam demais com a aposentadoria, em ter uma casa pra morar e em ter o que comer. Na velhice ninguém quer saber de se preocupar com dinheiro. Passamos à vida inteira planejando um final confortável e sem muito esforço. Os planos são diversos, as lutas são diárias e os problemas constantes. No fim temos uma única certeza, o medo esta sempre ai, ele é a nossa mola propulsora.


Lembro quando era menino e me diziam, se você não trabalhar ira morar debaixo da ponte. Morria de medo de um dia morar debaixo de uma ponte, como um vádio. Nada podia ser mais assustador do que ter um futuro tão público e miserável. Nesta época qualquer coisa errada que eu fazia vinham às ameaças. O bicho papão iria me pegar e assim foi até eu descobrir que o tal bicho não existia. Depois fiquei sabendo do Diabo, este até hoje eu não sei se existe, mas que ele é usado constantemente como a explicação dos nossos problemas, chego a ficar com pena do Diabo, tudo é jogada na conta dele. Sempre falam: Anota na conta do Diabo, do Cão, do Tinhoso, do Carcará, do Danado.


O engraçado que apesar do medo constante, de vivermos na síndrome do pânico. No fim ou durante a maior parte do tempo “vencemos” passamos por cima dos problemas, com muito custo pagamos todas as contas e prolongamos as que podemos. No fim passamos de ano e de semestre, conseguimos o nosso emprego, o nosso diploma, nosso carro, temos os nossos filhos, nosso companheiro, nossa família. Com um pouco de sorte e suor temos uma vida boa. Estou falando disto, por que conheci uma mulher que tinha tudo isto ou pelo menos era isto que parecia.


A história desta mulher é bem simples, aos dezoito anos casou com o seu namorado, eles já estavam juntos há dois anos. Foi ele, quem tirou sua virgindade. No ano em que eles casaram, ela tinha conquistado sua vaga na faculdade de Medicina. No ano seguinte ela teve uma filha. O marido cuidava de uma das empresas do pai. Dinheiro nunca foi problema, os dois se amavam, viviam bem e felizes. A filha era linda, inteligente e sem nenhum problema grave para a sua idade. Ao formar em medicina esta mulher se especializou e virou cirurgiã plástica. Como dinheiro nunca foi problema, em pouco tempo esta mulher tinha a sua clinica de cirurgia plástica. A sua filha estava em plena adolescência e eles já tinham mais de quinze anos de casado. Eram a verdadeira família americana, podiam até fazer um comercial de alguma margarina.


No entanto, a vida desta mulher como a vida da maioria das pessoas era um castelo de cartas. Esta mulher estava estudando para passar em um seleto grupo de médicos, depois de dois anos de muito esforço ela passou, o resultado saiu. A felicidade era imensa. O sentimento de uma vida perfeita estava vivo neste dia, a filha ficou muito feliz. O marido não a viu pessoalmente, mas por telefone lhe disse o tamanho de sua felicidade. Incrível mas tudo dava certo para esta mulher, ela casou com o homem da sua vida, adorava a sua profissão, tinha uma filha saudável e bonita. O seu circulo social era completo e rodeado de boas pessoas. Uma vida invejável. Até o dia em que ela ficou sabendo o resultado do concurso, apesar de ter passado e estar muito alegre. Esta felicidade não duraria mais do que doze horas. Isto mesmo nem um dia completo durou e não estou falando de uma mera chateação, estou falando de um problema sem solução , sem volta, um sofrimento eterno.


O marido da mulher foi encontrado morto no interior do seu luxuoso veículo. Isto mesmo, assassinado, com dois tiros na cabeça. Se às 18h00min o marido lhe dava os parabéns. Às 10h00min da manha do dia seguinte a Policia ligava pra ela, lhe informando do homicídio cometido contra o seu marido. Não vou entrar no mérito de quem foi e por que o mataram, mas adianto que não se trata de latrocínio. O fato é que a família americana começava a ruir. Dois dias depois, ela descobriu que o seu marido tinha uma amante há cinco anos. Fato contado pela própria concubina sem tirar e nem inventar nenhum detalhe. A mulher quis saber de tudo e a outra não hesitou em contar, as juras de amor, as noites mal dormidas, do noivado, das brigas, de tudo. Sem falar da herança deixada pelo marido, dívidas, muitas dívidas. Negócios sujos também não faltavam, aquele homem ético e cheio de caráter se tornou um verdadeiro canalha. Um canalha mor. A filha tornou aversão ao pai, à mulher começava a pensar no lado positivo do assassinato e a amante foi quem mais perdeu. E agora quem iria sustentar aquele luxo.


Difícil falar da vida, mas entendo que vivemos em uma bolha de sabão, que a qualquer momento pode estourar. E este estouro acontece assim, sem avisar, sem perguntar e sem volta. Uma bolha estourada é pra sempre. O cômico é que não reconhecemos vivermos em uma bolha, muito pelo contrário. Pensamos que estamos seguros que somos capazes de resistir a uma guerra, a uma invasão de extraterrestres. No fim não somos capazes nem de mandar em nossas próprias vidas. Quando o mundo desaba é que vemos a nossa real condição. Não nos damos conta, mas vivemos em um castelo de cartas. A qualquer momento tudo pode desabar, não é que isto vá acontecer. Podemos sim passar por este mundo achando que somos invencíveis, mas sempre acredite, as coisas podem desabar e sem nenhum aviso prévio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Senso comum da porra

Um grande amigo meu, Bernardo, “O fora da lei”, tem o costume de observar a sensibilidade das pessoas, no sentido, de como estas pessoas interpretam, interagem e se comportam no mundo. É um ponto de vista interessante, um tanto mesquinho às vezes, mas Bernardo, “O fora da lei”, não faz isto para se sentir melhor que ninguém, muito pelo contrário, é uma crítica pessoal de si mesmo, o maior medo dele é se tornar um senso comum da porra, como ele costuma dizer.

Alias esta frase dele: “Senso comum da porra”. Sempre contorna os meus pensamentos, de vez em quando me pego pensando justamente isto qual é o senso de certa pessoa. As minhas conclusões na maioria das vezes são frustrantes. Nelson escreveu muito sobre os idiotas, como eles estão por toda parte e como vem dominando o mundo. Sinceramente eu pensava que isto fosse um exagero, que no fundo os idiotas só estão por ai, vegetando como qualquer outro vegetal. Mas como Nelson alertou, os idiotas perceberam que são a maioria e daí foi um passo para a dominação. Um idiota subiu em um caixote e começou a falar, em segundos vários idiotas pararam pra ouvir.

O mais inteligente a se fazer é ser um idiota. Isto mesmo camuflar-se, esconder-se, caso contrário a esfinge irá te devorar. É bom gritar também: “Viva aos idiotas!! Viva!!”. Algo muito similar ao que se fazia na idade média dando vivas as majestades. O que me assusta ou frustra é que os idiotas ou os sensos comuns da porra estão em todos os lugares e quando digo todos é até onde você menos suspeita ou mesmo dúvida. Inclusive as pessoas que você menos espera.

Um dia desses fui a um debate, que discutiam sobre o senso comum. Como as pessoas tendem a pensar o básico. Resumidamente era isto, que estavam debatendo é claro, que em tom crítico e com o objetivo de contornar a situação de alguma forma. Achei brilhante a idéia de se discutir à monotomia dos pensamentos, ideologias, enfim o modo de pensar das pessoas no mundo atual, inclusive havia neste local a presença de pessoas, que a priori não tem nenhum senso comum.

Pois bem não fiquei nem até a metade do debate, os filósofos se assim posso chamá-los só diziam o que qualquer senso comum da porra falaria. Sai de lá frustrado, pensava em como aquilo poderia ser realidade. Afinal de contas onde estão os gênios, nunca conversei com Francisco Buarque de Holanda ou com o pai do mesmo Sergio Buarque. Há muitos gênios, sim há, mas os idiotas são em número significativamente maior. Outro problema os idiotas falam dos gênios e muito. Eles interpretam e discutem sobre o que os gênios falaram. Isto acontece mesmo que eles não entendam uma linha sequer do que esta sendo lido. De tanto conversarem e comentarem fica algo muito parecido, com aquela brincadeira da notícia.

Com certeza brincadeira da notícia não é algo muito claro, vou tentar explicá-la. Ela é feita da seguinte forma conta-se um fato para uma pessoa e esta vai passar para outra, quanto mais isto passar de uma pessoa pra outra melhor a brincadeira fica. Exemplo do fato: João inventou calunias sobre Pedro e este foi tirar satisfações. Depois de passar na boca de vinte e oito pessoas diferente com certeza o fato vai mudar. Podemos imaginar que a ultima pessoa diga o seguinte: João transou com a esposa de Pedro, que por sua vez matou João. É claro que isto é um exemplo, que os fatos podem mudar muito. É justamente o que acontece com os gênios suas idéias, pensamentos, ideologias e etc. São desvirtuados do original. As interpretações feitas pelos idiotas transformaram tudo em uma grande idiotice.

Às vezes eu me pergunto, onde esta o Jazz, a Bossa Nova, o bom e velho Rock, a música clássica, o funk, soul, os grandes escritores, as grandes obras, os grandes filmes. O mundo da arte e cultura se tornaram extremamente monótonos. Vem a minha mente agora a música eletrônica, nada mais maçante. Em outros campos também, alguns já era se esperar, como o meio empresarial, este é o mundo das máximas. No meio acadêmico por incrível que parece, predomina o senso comum não há construção de conhecimento. Não há mais o desvio de pensamento. Parece que os seres humanos estão ligados em rede, mas ao invés de sermos uma rede independente. Somos uma rede de suporte, verdadeiros recipientes vazios e ocupados por alguma coisa que não seja nossa.

O pior de tudo é se envolver com os idiotas, ter amigos idiotas, namoradas idiotas, esposas idiotas e entre outros. Imagina se apaixonar por uma garota senso comum da porra. É o fim, com toda certeza. Mas neste mar de idiotas, é inevitável uma hora ou outra você vai se envolver com uma senso comum da porra e irá apaixonar-se. É como digo sempre: ser corno é apenas uma questão de tempo. Ter um leitor senso comum da porra deve ser algo muito frustrante e ao mesmo tempo freqüente. Talvez seja por isto que os grandes escritores são pessoas reservadas e de pouquíssimo contato com os seus leitores. É medo de ser o pai da tragédia. Afinal de contas é uma grande responsabilidade ser um escritor, no fim das contas você não tem leitores e sim seguidores, alguns lunáticos. Agora imagine se todos são um senso comum da porra. É a morte do escritor, o grande fim com F maiúsculo. Por isto, a reclusão, o afastamento, enquanto não sabem quem é o leitor, os grandes escritores conseguem dormir com a consciência tranqüila.

O trágico é saber que os sensos comuns da porra se camuflaram, eles inclusive adoram posar de certos personagens, como intelectual, educador, consultor, psicólogo, músico, poeta, escritor, engenheiro nuclear, comunicólogo, jornalista, advogado, professor. No fim das contas é aquela velha história: é a vida imitando a arte ou é a arte imitando a vida. Não há como saber onde estamos pisando, não há escapatória. É como ser um político honesto. Um poeta lúcido. Enfim há inúmeros personagens que os idiotas gostam de vestir. No fim das contas eu sou um senso comum da porra. A única diferença entre mim e o mar de idiotas é que eu reconheço a minha realidade e insignificância.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As coisas não são o que parecem ser


Nestes dias vi mais um filme dos irmãos Coen e fiquei empolgadíssimo com o filme. Ele é simplesmente genial, fantástico, surpreendente. Por falar nisto, um amigo meu me disse algo muito interessante. Estávamos falando de um outro amigo e dizíamos que ele tinha um problema em seus atos, pois ele nunca conseguia grandes feitos. E o meu amigo disse tudo, falta gana para este nosso amigo. Isto mesmo, gana, vontade, persistência, insistência. As pessoas precisam disto para viver e saborear as coisas do mundo. Não me faltou gana ao ver este filme, cada quadro foi saboreado lentamente, com muita vontade. Depois do filme fiquei anestesiado, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo.

Os irmãos Coen falam de assuntos que me interessam. Às vezes eles exageram no seu humor negro, mas não é por causa disto que vou deixar de gostar do que eles fazem. Eu gosto dos pontos de vista levantados por eles. O filme termina com uma frase impactante “E, no final, o que nós aprendemos?”. Pois é o que fizemos? O que construímos? E afinal de contas no que deu aquele livro que você leu? Aquela formula de matemática que você resolveu? Enfim, o que nós aprendemos? No fim das contas parecemos formigas. Nada mais que formigas. Já viram como é engraçado, uma formiga percorre uns trinta metros, que deve ser uma distancia quilométrica pra ela, chega uma pessoa e pisa na formiga, que estava carregando algo trinta vezes mais pesado do que ela. Todo aquele esforço empreendido foi em vão.

No fim das contas é o que acontece conosco, estamos em nosso veículo. Um menino de dez anos de idade, que nunca saiu do bairro dele. Aproxima do carro segurando um revolver calibre 38. Ele segura a arma com as mãos tremulas e diz timidamente: é um assalto. O homem se assusta e tenta arrancar. O menino assustado puxa o gatilho. O tiro é certeiro acerta na testa do homem, que morre imediatamente com os miolos estourados. O menino mal vê o rosto do homem, só vê muito sangue. Logo em seguida ele sai correndo sem rumo e direção. O menino não sabe se o homem morreu, ele só queria o relógio e uns trocados. Não queria atirar em ninguém. O homem estava indo buscar o seu filho, de Cinco anos, na escolinha. Neste dia ele tinha sido promovido e iria ganhar o dobro do que ganhava. No final das contas quem é o sujeito da ação?

As coisas não são como parecem ser. È uma das conclusões que tiro desta falta de nexo lógico entre as ações. O que estamos fazendo? Quem esta com quem? Quem é bom e quem é o mau? Quem mente pra quem? Quem trai? Que nos controla? Quem controlamos? Quem manda? Quem desmanda? No fim é patético ser homem. Há algo mais idiota do que a burocracia? Um dia desses em conversa com um amigo, disse pra ele sobre o problema de colocarmos todas as nossas soluções no mundo jurídico e ele me deu uma explicação razoável para este processo. Os homens não confiam nos homens, nem mesmo o pai confia no filho e vice-versa. Os amigos não confiam nos amigos, os primos não confiam nos primos. A desconfiança é absoluta.

Ele deu um exemplo entre nós dois. Eu havia convidado ele para irmos almoçar na minha casa naquele dia. Tínhamos ido a um evento e na hora do almoço lhe chamei para ir até a minha casa. Isto foi combinado previamente no dia anterior. Não fizemos nenhum contrato escrito, foi apenas verbal. Ele confiou na minha palavra e eu na dele. Mas digamos que na ultima hora eu desfizesse o compromisso. O que ele poderia fazer? Absolutamente nada, fizemos um acordo verbal sem testemunhas presenciais. Era a palavra dele contra a minha. Aquele tarde de fome que ele passou, não tinha reparação jurídica. E o mesmo aconteceria caso ele não fosse, nada pior que a visita faltar ao almoço.

No entanto, se tivéssemos feito um contrato, eu poderia descumprir a minha palavra. Ele iria entrar contra minha na justiça e eu seria obrigado a pagar a multa estipulada no contrato, que era o valor de duas semanas de almoços do meu amigo, no seu restaurante de costume. No caso dele quebrar o contrato, ele pagaria o valor de duas semanas da dispensa da minha casa. Este caso é um absurdo, mas no fim das contas é o que fazemos com freqüência no dia a dia. Fazemos contratos estúpidos, pois somos seres desprezíveis capazes de tudo para se dar bem.

Os irmãos Coen sabem muito bem ironizar o comportamento humano, que é um tanto ambíguo e imprevisível. Os seres humanos se tornam idiotas do nada, sem nenhum motivo aparente. Um homem pode ser honesto a vida inteira, isto não é garantia de que nos próximos cinco minutos ele não aceite fazer algo ilícito. É como costumo dizer sempre, todo criminoso já foi um cidadão de bem antes. Isto pode parecer meio idiota, mas é o primeiro argumento dos criminosos. Sou um homem honesto, nunca cometi nenhum crime, tenho a ficha limpa. É o que eles dizem sempre. De fato é verdade, até aquele dia, aquele homem foi honesto. E assim são os homens, um relacionamento tem a sua fase pura, até a primeira traição. Antes de uma mulher ser um saco de pancadas do homem, ela nunca tinha levado um soco. E no fim um idiota, pode cansar de ser idiota e se tornar um grande homem.

Enfim ninguém esta livre de pecar ou de errar. Somos humanos e imprevisíveis. E na maioria das vezes estamos fazendo algo sem sentido ou sem objetivo. E no fim tudo vai ser decidido em uma reunião com pessoas, que você não conhece e nunca viu. Mas são estas pessoas que detêm algum poder de decisão. Elas nem sabem o que estão decidindo e por que, apenas decidem ou apenas fazem. No fim das contas é aquele velho ditado: Não pense, faça. Onde vamos parar com tudo isto? Não importa, o importante é continuarmos o mundo não pode parar. Eu estou no Show business.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Amores da juventude

Estava me lembrando estes dias do tempo em que era jovem, quando eu ainda tinha os meus vinte e poucos anos. Bons tempos aqueles. Tudo bem, que o jovem é por sua própria natureza, é estúpido. Comigo não era muito diferente. Lembro-me bem dos meus abafamentos, das minhas inquietudes, das minhas consternações. Agia por impulso, me envolvia piedosamente nas minhas paixões. Entregava-me de corpo e alma. Eu não devia entender muito bem, aquela famosa frase: “Quanto maior a altura, maio é o tombo.” Pois bem, os meus tombos eram dignos de registro.

Falando assim da minha juventude, lembrei de uma paixão desta época, esta foi um caso singular. Não digo isto, por causa da garota, que era linda, inteligente, extrovertida, única. Neste caso, o contexto, que é o inusitado. Primeiro pela forma que eu a conheci. Foi na época da faculdade, ao contrário de que todos dizem, não tenho muitas saudades desta época, não houve nada de mágico na minha vida de universitário, os meus colegas de faculdade, na sua grande maioria eram todos insuportáveis, um bando de idiotas. Esta garota chegou a ser minha colega de faculdade, mas não tivemos contato, só fui percebê-la, quando ela se tornou minha professora substituta. Muito irônico, eu ainda não havia me formado, e ela, que era alguns períodos na minha frente, já era professora, tudo bem que substituta, mas é inegável, que ela estava em uma posição muito mais confortável que a minha. O fato é que ela ser minha professora, foi à única forma que o destino teve de nos encontrarmos. Desde a primeira aula, trocavamos olhares fulminantes, confesso, que não sabia bem o que os olhares dela queriam dizer, os meus eram claros, eu tinha achado ela fabulosa e não havia nada que eu pudesse fazer para controlar os meus olhares. Já ela, poderia ser simples nervosismo, já que aquela situação não era nada confortável. Ser professor novato deve ser uma experiência muito difícil.

Estava me esquecendo de um pequeno detalhe, nesta época, eu tinha um namorico. Estes namoros, que a gente não sabe bem por que começou e damos graças a Deus de terem terminado. É muito similar a aquelas festas que vamos e no meio dela pensamos: “O que eu estou fazendo aqui”. Mas passado dois meses de aula, este namorico já havia acabado, sem nenhum trauma é claro. O resultado mais interessante do termino dele, foi o meu súbito interesse pela professora. É engraçado chama-la de professora, ela era muito mais a minha veterana do que o contrário. Desta vez eu não apenas olhei, resolvi me aproximar e por fim me declarar apaixonado. Tudo ocorreu de forma muito rápida. Não foi nada planejado, as coisas foram evoluindo, aos poucos a idéia me parecia natural. Tive um medo natural, que tudo desce errado e nada pior, do que levar um belo não da sua professora.

No entanto não foi isto que aconteceu, a professora me correspondeu, é claro, que ela achou aquela história toda complicada. Assim como eu, ela já tinha tido relacionamentos polêmicos, aquele seria apenas mais um. No inicio foi tudo perfeito, escrevi algumas cartas de amor pra ela, ela lia tudo, me respondia e correspondia. É claro, que no começo era tímida, quase não dizia um sim, mas aos poucos foi ficando mais a vontade. Já me escrevia cartas de amor também, naturalmente saímos, trocamos carinhos, nos beijamos. Nas aulas seguintes era um tanto estranho vê-la como a minha professora. Mas disfarçávamos e ninguém desconfiava de nada. Fora da faculdade éramos um casal comum, sem nenhuma diferença do habitual.

Infelizmente, nosso relacionamento não durou muito. Eu esqueci de contar, mas quando ainda estava nas minhas investidas sobre a professora, inclusive fiz uma música pra ela, que era mais ou menos assim: “Espero de você um sinal de viver, uma marca de um doce ou um afago qualquer...Espero que não me entenda mal, afinal eu só quero te amar.. Carla me cala, Carla me ama”, mas nesta época havia uma certa resistência por parte da minha professora. Ela dizia que havia saído de um relacionamento muito chateada e que não se sentia disponível para outro caso, naquele momento. Não dei bola para isto, sabia que era uma questão de tempo e de fato foi. O que eu não sabia, é que este relacionamento ainda estava muito vivo. No momento, em que eu não media as palavras para me declarar, em que me entregava de corpo e alma nas nossas noites de amor, quando tudo era azul. Aconteceu o trágico, o inexplicável. O cara, que havia literalmente chutado a bunda da minha professora, resolveu procura-la.

Não vejo que o cara fez mal, eu no lugar dele teria feito o mesmo. Os homens são canalhas por natureza. Ele saiu do relacionamento, para arrumar algo melhor na opinião dele. Não aconteceu nada, naturalmente ele volta para o ponto onde estava. O raciocínio dele é simples, como de um canalha. O que me surpreendeu nesta história toda, não foi ele e sim ela. Afinal de contas, ela já havia se declarado pra mim, já tínhamos dois meses de relacionamento, já tínhamos tido noites de amor incríveis. Até cartas de amor ela já havia escrito. Eu não esperava outra atitude dela, era natural, que ela lhe desse um não bem dado. Mas como tudo na vida é confuso, ela não fez isto, pelo contrário, reatou com ele no mesmo instante, em que ele terminava de falar a sua intenção. Alias, ele nem acabou de falar, ela já tinha dito: tudo bem, eu volto pra você. Naquele mesmo dia, ele foi para a casa dela e lá fizeram amor a noite toda. Bem parecido com aquela música: “Eu faço samba e amor à noite inteira, e tenho muito sono de manha”.

O mais obvio é pensar no que me aconteceu. Foi bem simples, três dias depois, vou atrás de minha professora e pergunto o que teria acontecido. Era notável a mudança drástica dela nos últimos três dias, não conversamos no telefone, não trocamos e-mails, não nos vimos, enfim ela me evitou este tempo todo. Não houve muitos rodeios por parte dela, ela disse o que aconteceu, em partes é claro, não me falou sobre a noite de amor. Talvez isto fosse ser sincera demais. Primeiro ela me disse o obvio, que eu era lindo, muito, mas muito interessante, que estava gostando muito de mim, que era tudo perfeito. No entanto, o outro tinha aparecido primeiro, ela já tinha uma história com ele, e ela não sabia tomar outra atitude naquele momento, mas talvez um dia pudéssemos ficar juntos. Confesso, meu primeiro sentimento foi de humilhado. Nada pior para um homem, do que ser trocado por outro. O amor pode acabar, as coisas podem não dar certo mais, pode haver muitas brigas, os dois podem ficar confusos, pode haver falta de respeito, traições, mas ser trocado por outro é o fim. E justamente isto que pensei logo em seguida, é o fim. Não havia mais volta, mesmo que ela mudasse de opinião na semana seguinte, não havia como eu aceitar aquele ato, imperdoável. Talvez Deus em sua infinita bondade não haja para ele, nenhum ato imperdoável. Já eu na minha infinita canalhice sou cheio de atos imperdoáveis.

Desde aquele momento, eu sabia, que era o fim, ainda combinei de almoçarmos, mas nos últimos trinta minutos, liguei e inventei uma desculpa qualquer para não nos vermos. Depois deste dia, não a procurei, quando nos vimos nas aulas, eu era um aluno comum. Todo o meu encanto por ela foi embora, em questão de dias, tudo se foi. Hoje me relembrando desta história, acho um pouco de graça em tudo. Depois não tive mais noticias de minha professora, logo formei. Não me enveredei pelo meio acadêmico, muito político em minha opinião. Não sei quanto tempo este relacionamento dela durou, se casaram, se noivaram. Enfim, desconheço todo o desfecho do caso. Foi um bom amor da minha juventude, apesar do fim traumático. Se pudesse, viveria tudo novamente, talvez apenas diminuísse o tombo, que neste caso foi bem frustrante.