quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Alma Seca

Dizer de muito é o mesmo que falar sobre nada. É tão frustrante quando conversamos com alguém e ao notarmos que a pessoa não esta bem perguntamos, o que você tem? O que te deixou decepcionado? O que esta te magoando? Recebemos como resposta, muita coisa vai mal. Dizer isto é o mesmo que não dizer nada. Talvez por isto eu não tenha dito muita coisa nos últimos tempos, sinto que andava dizendo muita coisa e quase todas sem sentido algum. Talvez Alma Seca não tenha feito nada, já que fez tanta coisa ruim.

Acho que devia parar de me preocupar em ser substancial, já passei anos procurando por isto e não consigo passar da minha futilidade. Quando vou à casa da minha única leitora e tenho conversas sempre todas adoráveis, sempre me pergunto: Como ela consegue ser tão substancial, tão profunda, tão sensível, tão prudente e sensata. Enquanto eu continuo o mesmo idiota de sempre. O engraçado é que a minha única leitora me acha o máximo, diz que sou muito inteligente, único e insubstituível, homem como eu são poucos, me compara com grandes escritores. Claro que gosto de ouvir isto tudo, ainda mais dela. Mas tenho espelho e sei da realidade, por isto poucos minutos depois volto ao que de fato existe. Sempre me pergunto como assassinos casam, tem família e filhos. Normalmente os assassinos são bons pais.

Estou aqui falando de mim, mas na verdade quero falar de uma pessoa, que pra mim é mais um personagem. A figura do personagem sempre me impressionou, é incrível como uma pessoa pode conserva dentro dela tantos significados, sejam eles bons ou ruins. Vejam os casos de Frank Abagnale Jr, Assis Chateubriand, Luis Inácio Lula da Silva, Adolf Hitler, Michael Jackson, Ronald Reagan, John Lennon, Dom Quixote, Jesus, a lista é longa, mas é inegável o peso que um personagem têm na história da humanidade. Quero falar aqui de um personagem esquecido, na verdade ele praticamente não existe é mais ou menos como aqueles dialetos indígenas, de uma tribo com pouco mais de cinqüenta pessoas, que cedo ou mais tarde irá deixar de existir. Talvez com a minha modesta contribuição este personagem maldoso e perverso sobreviva. Estou falando de Alma Seca.

Sei que vou ser julgado por não deixar Alma Seca morrer e cair no esquecimento, mas ao fazer isto não estou enaltecendo as maldades que ele cometeu, muito pelo contrário, quero que eles sejam lembradas para que ninguém as cometa novamente. Alma Seca foi um dos maiores homicidas que já existiu, ele matava por prazer e justificava que era o que sabia fazer. “Alguns são doutores, outros são juízes, alguns são carpinteiros e outros serviçais. Eu sou matador”, é assim que Alma Seca se definia, sem nenhuma vergonha. Se alguns acreditam que fazem o bem por uma dádiva divina concedida por Deus, Alma Seca tinha plena convicção que Deus o enviou a terra para matar. Ele não via pecado e muito menos erro em matar alguém, esta era a sua obrigação ou destino. Alma Seca tinha gosto de sangue.

Alma Seca não nasceu com este nome, sua mãe lhe deu o nome de Francisco Tavares da Costa. Menino bonito, forte e com o sorriso sempre aberto. Não podia ver a mãe que ia correndo abraçar. Nascido na cidade de Betim, município vizinho da capital Belo Horizonte, a cidade grande. Sua família era de Delfinópolis, inclusive não sabe ao certo se Alma Seca nasceu em Betim ou em Delfinópolis. Mas não tardou e aquele menino bom e feliz se tornou logo ruim e sedento por sangue. Ele tomou gosto pela coisa, gosto de sangue. Alma Seca mesmo relata esta passagem na sua vida. “Eu tinha uns cinco ou quatro anos, vi um cachorro passando de frente para a minha casa. Lembro que ele avançou em mim. Não tive dúvidas, eu tinha de matar aquele cão. Peguei uma pedra e bati com toda a minha força na cabeça do bicho. Ele morreu na hora, senti em mim a alma do bixo partindo e fiquei muito satisfeito. Satisfação de dever cumprido. Ali eu já sabia que iria matar muitas pessoas durante a minha vida”.

A frieza com que Alma Seca descrevia suas vítimas era de arrepiar. Para ele matar era tão ou mais satisfatório quanto fazer amor. Ele gostava de dizer todos os detalhes e adorava escutar o ultimo suspiro de suas vítimas. Era o seu orgasmo, seu clímax, seu momento de êxtase. Ele gostava de vítimas indefesas, abaladas e transtornadas psicologicamente. “Sempre gostei de matar mulheres. Elas são indefesas, fracas e fáceis de serem dominadas. Primeiro eu abusava delas sexualmente, mordia os seios, gostava de vê-las chorando. Claro que eu as estupravas e fazia questão de que não fosse nada prazeroso. Eu gostava de ficar horas espancando e estuprando as mulheres, algumas me pediam para matá-las logo. Elas preferiam morrer do que agüentar minhas torturas, intermináveis, lembro que certa vez, fiquei torturando uma mulher por quase trinta dias, ela implorou para que eu lhe matasse, só quando me cansei dela é que eu a matei.”

Alma Seca foi realmente um sujeito mal, vê-lo sempre foi apavorante, ouvi-lo pior ainda. Lembro que me assustava, o ódio que eu tinha por ele. Minha vontade era fazer com ele coisas muito piores do que ele fez com todas as suas vitimas. E isto me assustava. Igualava-me aquele ser perverso e mau, sentia-me capaz de cometer tais atrocidades com a mesma intensidade. E no final das contas, eu concluía, qualquer um pode ser mau como Alma Seca. Ele não era só mau, como também sortudo. São incríveis todas as acrobacias em que ele se meteu. Matou milhares de tiras, bandidos, inocentes e fez incontáveis vítimas, todas as fugas mirabolantes com destruição da cidade por onde passava.

Sobre este personagem peculiar, que acabo de relatar. Não posso dizer que foi o mais cruel e impiedoso, pois para a maldade não há limites. Não estou aqui elogiando suas atitudes. Ao lembrá-las, minha intenção é que isto não morra, não caia no esquecimento. Hitler, Stalin e Alma Seca estão sempre acontecendo novamente, pelo simples fato de que são esquecidos. Por isto, eles sempre renascem das cinzas e voltam cada vez piores. Eles querem que o esquecemos, mas prefiro lembrar de cada cena sórdida e cada sofrimento que homens com gosto de sangue são capazes de fazer e repetir.