Certo dia conhecia uma linda garota, era assim inesquecível. Bonita, inteligente, boa de papo, uma mulher maravilhosa. Casaria-me com ela fácil, sem nenhum arrependimento do gesto. Apresentei-me timidamente, aquele avião me deixava um tanto sem graça. Pois bem eu era Roberto e ela Cecília. Como dizia o grande poeta: “Quantos artistas entoa baladas, para suas amadas, com grandes orquestras...Quantos românticos prosam exaltam suas musas com todas as letras. Eu te murmuro, Eu te suspiro, Eu, que soletro, Teu nome no escuro”, pois bem ele viu A Cecília, teve o mesmo privilegio que eu tive. Eu não vi simplesmente. Toquei, olhei nos olhos, conversei. Foi assim um momento mágico, inesquecível, mas mal sabia eu, que três dias iria nos separar. Pense bem, três dias. Pois bem, vimos-nos, trocamos alguns sorrisos e logo depois estávamos conversando.
Fiquei lá conversando com a Cecília por três horas, falamos de tudo, música, cinema, arte, política, economia, da injustiça que é o mundo, do capitalismo, da segunda guerra mundial. A cada assunto a minha certeza aumentava e eu dizia para mim mesmo: “É ela, com certeza, é ela o seu grande amor”. Pensei naquela música: “Procuro amor que seja bom pra mim, eu vou procurar eu vou até o fim, pode ser que a encontre em uma fila de cinema, numa esquina ou numa mesa de um bar...Pode ser que eu gagueje sem saber o que falar, mas eu disfarço e não saio sem ela de lá”. Foi justamente o que eu pensei, não saio sem a Cecília daqui. É claro que a minha convicção era só para me animar, eu sabia que a qualquer sinal negativo iria desistir e hastear a bandeira branca. O mais inacreditável é que Cecília não dava nenhum sinal negativo, ela parecia estar adorando nossa conversa, eu já estava pensando: “Esta ganho, esta no papo”. É claro que isto era apenas uma etapa, beijar Cecília era só o começo, até o casório, filhos e netos seria um longo caminho.
Depois de conversamos por um longo tempo, já pensava na vida a dois. Pensava no namoro, nas juras de amor, nas promessas, nos planos, nos familiares, no casório. Planejava uma festa de três dias, três bois, três mil pessoas, uma festa de arromba. Pensei nos filhos, dois não o melhor seria três, uma família legal. Teríamos nosso sítio de final de semana, muita farra, juntaríamos os amigos. Enfim uma vida perfeita com uma mulher maravilhosa, por fim veria os netos, uma ou duas amantes de uns vinte anos, enfim seriamos felizes, como quer a sociedade. Iria ter ótimos filhos, os educaria muito bem. Seriam o futuro da nação, engenheiros, arquitetos, músicos, jornalistas, advogados, médicos, o que quisessem, desde que fossem ótimos no que escolhessem. Afinal de contas estou falando dos meus filhos. Pois bem, eis que Cecília me diz o imprevisível, o trágico, o inexplicável, a fatalidade, o plástico, daquelas de dizer: “Eca”, ficou tudo sem graça depois dela dizer: “Eu tenho namorado, começamos há três dias”.
Eu só pude dizer, três dias? Como assim? Eu que sou o seu namorado e nos conhecemos hoje não há três dias. Ela ficou um tanto espantada com a minha revelação, um pouco contente, feliz e assustada. E disse: Roberto você é um homem inesquecível, genial, eu adorei te conhecer e com certeza iria namorar com você, se eu não estivesse namorando. Eu falei: Mas Cecília são três dias, o que são três dias? Pense bem, tudo o que você esta jogando fora, são vidas envolvidas, uma família, um homem que vai te fazer feliz. Ela já não entendeu mais nada, é claro, ela não pensou em tudo o que eu pensei, não pensou nos próximos quarenta anos. Ela só enxergava os três dias passados. Enquanto eu pensava nas próximas quatro ou três décadas. Por fim eu vi que aquilo não mudaria, inventei uma desculpa para ir embora, me despedi e fui embora. Três dias depois, nada tinha mudado, estava eu amargurado com a tristeza de saber que não teria Cecília por que demorei três dias para conhecê-la.