domingo, 26 de outubro de 2008

Três Dias

Há o que são três dias? Bom é uma pergunta pessoal é claro. Três dias para uma pessoa modesta como eu, não são nada, mas imaginem o que era três dias para Assis Chateaubriand, Isaac Newton ou para Napoleão Bonaparte, este poderia conquistar um país. Mas como o leitor e a maioria das pessoas são comuns, cabe aqui a reflexão, o que são três dias? Qual é a importância plástica de três dias? Qual é a mudança substancial que isto pode fazer na vida de alguém? Você pode objetar e falar, em três dias o sujeito pode casar ou mesmo morrer. Eu vou dizer, que pode sim, mas e o contexto? Antes de um casório ou de uma morte há todo um contexto. Não podemos apagá-lo, dizer que era uma tabua rasa e agora é um casório ou um velório. O morto tem toda uma história por trás dele, mesmo que tenha morrido em três dias. A gripe-espanhola que dizimou milhares de pessoas em meados de 1918-1919, em pouco mais de três dias, na maioria dos casos, Tem todo um contexto. É algo assim inseparável atrás do fato há um contexto, através da compra de um carro, da aprovação em um concurso público, da morte, do casório, do nascimento, há todo um contexto. Pois bem vamos ao assunto que nos interessa.

Certo dia conhecia uma linda garota, era assim inesquecível. Bonita, inteligente, boa de papo, uma mulher maravilhosa. Casaria-me com ela fácil, sem nenhum arrependimento do gesto. Apresentei-me timidamente, aquele avião me deixava um tanto sem graça. Pois bem eu era Roberto e ela Cecília. Como dizia o grande poeta: “Quantos artistas entoa baladas, para suas amadas, com grandes orquestras...Quantos românticos prosam exaltam suas musas com todas as letras. Eu te murmuro, Eu te suspiro, Eu, que soletro, Teu nome no escuro”, pois bem ele viu A Cecília, teve o mesmo privilegio que eu tive. Eu não vi simplesmente. Toquei, olhei nos olhos, conversei. Foi assim um momento mágico, inesquecível, mas mal sabia eu, que três dias iria nos separar. Pense bem, três dias. Pois bem, vimos-nos, trocamos alguns sorrisos e logo depois estávamos conversando.

Fiquei lá conversando com a Cecília por três horas, falamos de tudo, música, cinema, arte, política, economia, da injustiça que é o mundo, do capitalismo, da segunda guerra mundial. A cada assunto a minha certeza aumentava e eu dizia para mim mesmo: “É ela, com certeza, é ela o seu grande amor”. Pensei naquela música: “Procuro amor que seja bom pra mim, eu vou procurar eu vou até o fim, pode ser que a encontre em uma fila de cinema, numa esquina ou numa mesa de um bar...Pode ser que eu gagueje sem saber o que falar, mas eu disfarço e não saio sem ela de lá”. Foi justamente o que eu pensei, não saio sem a Cecília daqui. É claro que a minha convicção era só para me animar, eu sabia que a qualquer sinal negativo iria desistir e hastear a bandeira branca. O mais inacreditável é que Cecília não dava nenhum sinal negativo, ela parecia estar adorando nossa conversa, eu já estava pensando: “Esta ganho, esta no papo”. É claro que isto era apenas uma etapa, beijar Cecília era só o começo, até o casório, filhos e netos seria um longo caminho.

Depois de conversamos por um longo tempo, já pensava na vida a dois. Pensava no namoro, nas juras de amor, nas promessas, nos planos, nos familiares, no casório. Planejava uma festa de três dias, três bois, três mil pessoas, uma festa de arromba. Pensei nos filhos, dois não o melhor seria três, uma família legal. Teríamos nosso sítio de final de semana, muita farra, juntaríamos os amigos. Enfim uma vida perfeita com uma mulher maravilhosa, por fim veria os netos, uma ou duas amantes de uns vinte anos, enfim seriamos felizes, como quer a sociedade. Iria ter ótimos filhos, os educaria muito bem. Seriam o futuro da nação, engenheiros, arquitetos, músicos, jornalistas, advogados, médicos, o que quisessem, desde que fossem ótimos no que escolhessem. Afinal de contas estou falando dos meus filhos. Pois bem, eis que Cecília me diz o imprevisível, o trágico, o inexplicável, a fatalidade, o plástico, daquelas de dizer: “Eca”, ficou tudo sem graça depois dela dizer: “Eu tenho namorado, começamos há três dias”.

Eu só pude dizer, três dias? Como assim? Eu que sou o seu namorado e nos conhecemos hoje não há três dias. Ela ficou um tanto espantada com a minha revelação, um pouco contente, feliz e assustada. E disse: Roberto você é um homem inesquecível, genial, eu adorei te conhecer e com certeza iria namorar com você, se eu não estivesse namorando. Eu falei: Mas Cecília são três dias, o que são três dias? Pense bem, tudo o que você esta jogando fora, são vidas envolvidas, uma família, um homem que vai te fazer feliz. Ela já não entendeu mais nada, é claro, ela não pensou em tudo o que eu pensei, não pensou nos próximos quarenta anos. Ela só enxergava os três dias passados. Enquanto eu pensava nas próximas quatro ou três décadas. Por fim eu vi que aquilo não mudaria, inventei uma desculpa para ir embora, me despedi e fui embora. Três dias depois, nada tinha mudado, estava eu amargurado com a tristeza de saber que não teria Cecília por que demorei três dias para conhecê-la.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ponto nos is.


Hoje quero esclarecer alguns pontos ou alguns is. Pois bem, primeiro quero dizer que não estou escrevendo sobre a minha vida, nunca escrevi um diário, não gosto e não estou contando episódios que ocorreram necessariamente comigo ou com conhecidos ou mesmo que tenha visto, presenciado, ou ouvido falar. Pensar assim é de uma simplicidade muito idiota. A escrita serve para nos libertarmos, aqui e somente aqui pode se falar o que quiser, inventar o que quiser e contar qualquer história. Se não fosse assim qual seria o objetivo de escrever? Alguns dirão espera ai, e os diários, leis, códigos, jornais, revistas e entre outros meios de escritas, que não tem outro sentido há não ser servir de documentação. Pois bem, não os desconheço e nem os negos. Existe sim uma infinidade de coisas idiotas escritas pelo mundo, os livros didáticos, leis e códigos, documentos oficiais e entre outros.

Agora vamos ser sinceros há algo de prazeroso ao ler o código civil? Documentos confidenciais da guerra fria? Nossa nem falei dos processos, no entanto, há sim certa utilidade em todos estes documentos idiotas, não nego, mas o prazer da leitura deste tipo de escrita eu nego veemente. Enfim na escrita eu vejo a verdadeira liberdade. Mesmo que ela seja um tanto enigmática, já dizia Cecília Meireles: “Liberdade não há quem explique, e não há quem não entenda”.



Pois bem do que escrevo? Objetivamente falando ou capitalistamente falando, não escrevo sobre nada, não há um propósito final, não espero salvar os meninos africanos que morrem agora de fome, não espero acabar com o tráfico de drogas no mundo, não espero combater a lavagem de dinheiro, não espero abolir a corrupção de nosso país, não espero baixar a taxa de homicídio por habitante da grande Belo Horizonte e entre outros objetivos louváveis desta corrente, sei que não sou capaz de realizar nenhum, enfim não vou mudar o mundo e nem tenho esta ambição, alguns tiveram e de fato mudaram, mas estes são os gênios, já eu sou uma pessoa comum.

Primeiro eu escrevo pra mim mesmo, é isto mesmo. O leitor mais assíduo de qualquer escritor é ele próprio, e estou dizendo de qualquer escritor seja ele Shakespeare, Machado de Assis, Mario Quintana, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Dostoievski, Truman Capote, Bernardo Vasconcelos, enfim há lista é infinita, mas independente do calibre do escritor todos terão isto em comum, serão eles próprios os leitores mais vorazes de suas escritas.

E tem algum porque disto, talvez tenha, pois devemos saber que necessariamente as coisas não precisam ter uma razão lógica. Acredito, que o autor ao escrever se liberta, isto no sentido mais profundo que a palavra liberdade pode chegar. Inventa se um mundo único, só entendível para aquele escritor e ninguém mais, as pessoas podem gostar deste mundo, podem apreciá-lo, podem despender tempo e dinheiro, mas nunca o entenderam na plenitude do autor, por mais que se conheça aquela pessoa. As pessoas se desconhecem nelas mesmo, imagina o outro. Por isso o autor se rele, ele pensa: o que eu quis dizer com isto? Depois de refletir com o seu próprio eu, ele lembra vagamente o sentido do que escreveu. Vejam nem o autor chegar à plenitude do que escreveu, esta é passageira, em questão de segundos o autor ira perde-la e nunca mais irar tê-la como teve algum dia. Por isso devemos reler, já dizia Nelson Rodrigues “A arte da leitura é a releitura.”, não é o propósito aqui dizer todos os motivos que me fazem escrever. Só quero esclarecer algumas coisas, que parecem um tanto obvias.



Segundo ponto, não procuro dar sentido ao que escrevo, não sou um livro didático e adoro a falta de conexão lógica das coisas. O inusitado eu diria. Não há como me criticarem pela falta de sentido, não é este o meu objetivo. Alias dizer: ”Não entendi bulafas do que escreveu!”. É um grande elogio, só não é perfeito, pois se entendeu algo é um bom sinal. Afinal de contas algo pode ser inteligível para mim e para outra pessoa pode ser totalmente indecifrável. E qual é o mau nisso? Nenhum é obvio, ou melhor, não há nenhuma canalhice nisto. Outro fato que me incomoda é a ligação do que eu escrevo com o real (isto que consideramos real, sem maiores discussões filosóficas sobre o assunto), quando digo que comi um bife à role, isto não é necessariamente verdade, posso não ter comido o tal prato, posso ter visto alguém comer, um conhecido pode ter me confidenciado, posso ter visto em um filme, seriado, vídeo clipe, ter sonhado, imaginado, enfim a infinitas possibilidades, por que devemos pensar na mais obvia que eu comi um bife à role, será que não viram MATRIX, lembram da cena do traidor, ele disse, não ligo se este bife que estou comendo não é real, isto não importa. Aqui é a mesma historia não importa de onde isto saiu, ou de qual quebra-cabeça saiu o que eu disse ou me disseram. O fato é que não estou escrevendo um diário e ponto final e no i.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mera Semelhança

Tenho um estranho sentimento ao ver os idosos, me alegro com eles, gosto de ouvi-los falar, gesticular, tudo o que eles fazem me agrada. Ao mesmo tempo em que me alegro, me sinto mal, por vê-los assim, idosos. Penso logo em mim, como seria a minha velhice, como serei eu idoso. Prefiro não pensar, esta é a minha conclusão final, mas é claro que penso no lado bom, serei eu um velho sábio ou concluirei na minha velhice que nunca serei sábio, no fim isto é uma grande sabedoria. Por enquanto tenho que me contentar com a falta dela. Os jovens são muito cheios de energia e de estupidez também. Parece ser do ser humano a ambigüidade, sempre carregamos elas, o bom e o lado negro da força, a velhice e a sabedoria, a jovialidade e a estupidez, a pressa e os erros, a paciência e a perfeição é tudo uma grande ambigüidade. Uma dualidade terrível, que não podemos separar.

Mas vamos ao que interessa, por que falei dos idosos, pelo mais obvio de tudo, eu vi uma idosa. No campo, roça, enfim este lugar onde as pessoas vivem em hábitos bem diferentes das pessoas da cidade. Aposto que o meu leitor esta pensando, ainda vivem pessoas fora da cidade, te digo que sim, elas ainda existem e são felizes, talvez mais do que você um ser humano urbano, doméstico eu diria. Ah se soubesse como é bom ser um ser humano selvagem veria o que é a felicidade. Infelizmente você que foi domesticado, pela televisão, pela escola, pelas revistas, pela moda, pelo comportamento urbano, pelos pais também urbanos, por seus amigos urbanos, pela internet urbana e por tudo mais urbano, jamais poderá ser um selvagem, você não sabe caçar, se proteger dos seus predadores naturais, você mal os conhece, mal entende a velha frase "Viver é perigoso" ou "A vida é dura", isto pra você é pura besteira. Ir ao supermercado não é nada perigoso, abrir uma lata de ervilhas menos ainda, ligar a televisão é um tanto simples, já ouviu falar de alguém que morreu ao ligar a televisão? Este pequeno eletrodoméstico explodiu como uma granada e matou a pessoa ali mesmo? Pode ter acontecido, mas com certeza a probabilidade é mínima, quase irrelevante como diria os matemáticos é próximo do infinito. Pois bem você esta condenado a urbanidade eternamente, ou melhor, até o dia em que pertencer a este mundo. Mas voltemos à idosa, tinha ido à roça, o campo, juntamente com a minha namorada, fomos visitar uns familiares dela, a idosa era avó dela. Ao me ver a idosa nada disse para mim, depois de um tempo ela comentou brevemente, em poucos segundos, que eu lembrava tal pessoa, agora não me lembro o nome e isto nem é importante. Pois bem eu lembrava alguém, eu sou semelhante há alguém. Não sei quem é esta pessoa, provavelmente nunca o vi, mas somos semelhantes. O fato de nunca tê-lo visto não muda isto. A semelhança existe independente que eu queira, ou que tenha visto o meu semelhante. Isto independente da minha vontade, como muitas coisas em nossas vidas, mas pense bem, não podemos controlar nem quem são os nossos semelhantes. Não sei quanto a você, mas isto me espanta.

Depois ver a idosa e ouvi-la por aproximadamente duas horas fiquei refletindo sobre o que ela falou. Não tudo, pois não era possível, mas apenas ao que me era acessível. Pensava naquele pequeno comentário: "Você parece com fulano de tal". Tive um raciocínio simples e claro, realmente pareço, é um caso de mera semelhança, mas não é um caso único, somos todos parecidos. Isto acontece com todo ser humano do planeta, seja ele ser humano urbano, selvagem, aborígine, indígena, mulato, caboclo, ianque, branco, negro, mameluco, enfim não importa qual ser humano ele é. No fim ele é semelhante há alguém. Pense bem, você é único, mas mesmo assim há um semelhante seu, como uma inspiração, assim como uma música inspira outra, um livro inspira outro, enfim um ser humano inspira outro. Não sei qual é o espanto que isto pode causar a outro ser humano, mas a mim me causa e muito. Nunca pensei que houvesse um semelhante meu andado por ai em qualquer lugar do planeta, é como se tivesse um filho e não soubesse, que ele esta por ai vagando. Acredito que para idosa isto não é nenhuma novidade, ela já sabe do seu semelhante há anos, faz tempos que ela entende perfeitamente "Qualquer semelhança não é mera casualidade", sabe se lá quantos semelhantes ela já viu. Eu quase nunca os vejo, só ouço comentários do tipo: "Você parece com fulano de tal". Alias acho que isto já aconteceu com todo mundo, sempre alguém nos diz: "Você me lembra o João", já viram como elas falam isto com espanto, pois é elas estão pensando no semelhante delas, que estão por ai também.

Depois desta tremenda reflexão, consigo entender a teoria dos seis graus. Vou explicá-la para os desavisados. É uma teoria bem simples, ela funciona da seguinte forma, a sua máxima diz: "Todo mundo conhece todo mundo", ou seja, todas as pessoas do planeta terra, que nele agora habitam, ou vivem, conhece todas as outras. Você leitor conhece todas as outras pessoas do planeta terra, inclusive eu autor. Pois bem, como isto é provado? Bem simples, eu conheço A, e A conhece B, logo eu conheço B em segundo grau. B conhece C, logo eu conheço C em terceiro grau. C conhece D, logo eu conheço D em quarto grau. D conhece E, logo eu conheço E em quinto grau. F conhece G, logo eu conheço G em sexto grau. A teoria é esta, mas falar em axiomas não ajuda, vou dar exemplos de pessoas. Minha mãe conhece o Presidente Lula, logo eu conheço Lula em segundo grau. Lula conhece Bush, logo eu conheço Bush terceiro grau. Bush conhece Osama Bin Laden, logo o conheço em quarto grau. Osama conhece Bono Vox, logo o conheço em quinto grau, errado, o Lula conhece o Bono Vox, logo o conheço em terceiro grau. Bom não irei passar do quarto grau, pois é difícil dar um exemplo do quinto e do sexto, mas acredito que a teoria do sexto grau é quase irrefutável, talvez mais sólida que a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. Isto tudo, graças a mera semelhança ou será a idosa? É realmente difícil não haver nenhuma ambigüidade.