sábado, 21 de março de 2009

Vai ser feliz

Tão difícil partir. Nada mais complicado do que morrer. Falecer é uma grande partida. Temos várias durante a nossa vida. A mais dolorosa e sem sentido é a morte. É claro que falo sem sentido, pois estou do lado de cá. Talvez do lado de lá isto faça muito sentido e seja visto com bons olhos. Mas como o apego é grande preferimos não teorizar muito sobre o lado de lá. É o fim da linha pra nós e pronto. Não há muito que explicar. Melhor assim, estas discussões onde não se levam a nada são inúteis (Fala dos idiotas da objetividade).

Se tivermos de partir, temos de chegar. Temos de mudar. Existe toda uma necessidade de acontecer. É como costumo pensar sempre, como é engraçado a vida dos seres humanos. Sempre fico pensando como deve ser cômico ver a vida das pessoas em um nível geral. Ver milhares de pessoas acordando cedo ou tarde, se arrumando pra ir pro trabalho, escola, faculdade, encontro, desencontros, academia, enfim. Deslocando vários quilômetros ou alguns quarteirões. Isto sem falar nos vários meios de transporte usados, carro, caminhão, patins, tênis, bicicleta, cavalo, carroça, avião, helicóptero, ônibus. Depois que terminamos as nossas obrigações voltamos pra casa ou então passamos em um bar antes para tomarmos uma cerveja com os amigos. Alguns encontram com os amantes antes de ir pra casa. Mas no fim das contas todos voltam pra casa. Quer dizer todos não, alguns morrem antes de chegar. Isto pode acontecer, tanto na ida, quanto na vinda ou durante qualquer momento do dia. Em todo tempo.

Este pensamento cômico me faz pensar nas formigas, aprimorando o pensamento, num grande formigueiro. Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, estas grandes metrópoles não passam de um grande formiguei humano. E assim como olhamos um formigueiro e as formigas pensamos, que aquilo é uma grande inutilidade. Com certeza alguém pensa isto de nós ao nos observarmos, Deus, pode ser. Vidas fora da terra também, enfim deve ser muito caricato esta visão. E quando alguém pisa na formiga, esmaga aquele ser vivo. É o mesmo que acontece quando somos atropelados, quando um furacão invade uma cidade ou quando acontece um terremoto. Em proporção menor quando alguém mata uma pessoa. Enfim assim como as formigas estamos indo e vindo. Ficamos feito baratas tontas, num movimento constante sem fim e sem sentido.

Tudo bem esta visão geral e cômica não ajuda em nada. Vamos falar do que importa. Na relação das pessoas. O individuo com os demais seres humanos. Seus amigos, colegas, familiares, amores e entre outros. Há uma lógica destas relações. Tudo se baseia numa espécie de vinculo. Um contrato. Como todo bom contrato, todos tem sua duração. Cedo ou mais tarde os contratos acabam. É aquela frase dita nos anos sessenta: “O sonho acabou”. E no fim, como uma mudança de time uma parte diz a outra: “Vai ser feliz”. É claro que nesta frase sempre tem uma carga de cinismo e de sinceridade.

O que fica no ar é se temos este direito. Podemos dizer ao outro: “Vai ser feliz, o caminho é por ali”. Eu aponto a direção, eu sei o que é melhor pra você. Eu me pergunto: Que merda é esta? Afinal quem concedeu tamanha honra. É o que acontece sempre numa mesa de familiares ou amigos. Onde as pessoas começam a falar da vida de outra pessoa, que coincidentemente não está ali presente de corpo e alma. Se as pessoas falassem apenas de fatos pragmáticos, não seria ético, mas talvez justificável. Agora dizer sobre a personalidade da pessoa, sobre o estimulo dela. Como já disse anteriormente, sem estimulo a raça humana seria extinta, varrida do globo em questão de segundos. Me diz, com que direito digo sobre o estimulo de alguém. Nem do meu eu dou conta.

É o que acontece sempre quando vou ao psiquiatra ou ao psicólogo. É algo que costumo fazer com freqüência. Enquanto uns vão a igreja, ao bar, ou para Ilhéus. Eu vou ao psiquiatra. Alias sempre que vejo o Ricardo e sua irmã Larissa eles me perguntam. Então aonde vai amigo? Eu respondo com tranqüilidade: Vou ao psiquiatra, tenho de estar lá daqui a trinta minutos. Até mais, abraços. Às vezes retribuo a pergunta. Eles sempre estão indos passar uns dias num cruzeiro atlântico. E no final das contas, quem faz cara de espanto são eles. Afinal tem alguma demência quem vai passar uns dias num iate, que vai navegar pelo oceano pacifico?

Mas voltando ao meu habito de ir ao psiquiatra ou psicólogo, depende do meu nível de humor e curiosidade, escolho um dos dois. Sempre me pergunto, por que ele é um psiquiatra. Afinal o que da o direito dele denominar que alguém é louco ou não. Um diploma de médico, com especialização em psiquiatria? Isto é o bastante para alcançarmos à sobriedade eterna? E um psicólogo? O que dá o direito pra ele julgar o meu estado psicológico ou qualquer outro ser humano ter este privilegio. Novamente irão-me dizer que é o diploma de psicólogo. Acho ótimo isto, tenho um diploma e posso agora dizer você é maluco ou você não tem um bom psicológico é um fraco.

O meu psicólogo mesmo é um fracasso. Tem um filho problemático. Parece que o menino é viciado em cocaína, heroína e não sei mais o quê. Segundo ele o menino é muito inteligente, acima da média. Mas sempre toma escolhas erradas. Parece que já começou uns cinco cursos universitários, mas não terminou nenhum. Já teve alguns empregos muito bons, mas também não continuou. Ao que me parece o garoto só tem persistência com drogas. Nisto não há quem o empeça de continuar, nem mesmo o seu pai psicólogo, conceituado e muito bem falado no meio. Parece que a filha dele se deu bem, só teve dois filhos de pais diferentes antes dos vintes anos, mas tirando isto é uma ótima pessoa. A vida afetiva dele parece ser ótima também, se não me engano já teve seis casamentos. É um homem disputado.

O meu psiquiatra é uma pessoa tranqüila e paciente, ele só não pode esquecer de tomar os seus remédios tarja preta. Alias ao começar uma consulta ele sempre me fala, daqui a trinta minutos tenho de tomar um remédio. Ele toma vários, então não pode errar os horários, pois caso contrário pode até sofrer uma overdose. No meio da consulta ele levanta e pede licença. Volta e fala: - Este é crucial para manter a minha lucidez. Ele tem uma teoria interessante. Segundo ele todos são malucos, mas com o avanço das áreas médicas temos os remédios, que reduzem e/ou controlam estes distúrbios. Por isso todos devem tomar remédios, do contrário, iremos tomar atitudes fora do padrão aceitável pela sociedade. Eu sempre minto e digo que estou tomando todos os remédios que ele me receitou. Pra mim remédio é só mais uma dependência química e de vício, eu já estou cheio.

Eu posso não ser psicólogo, psiquiatra, cartomante, futurólogo, um messias, mas quem pode nos dizer? - Vai ser feliz.

sábado, 7 de março de 2009

Você não existe pra mim

Como é bom voltar à inspiração, sei que a minha única leitora não vai acreditar. Pode parecer mero recurso estilístico, mas passei por período um bem amargo. Vamos ao que interessa.

Há pessoas que nos encantam, nos deixam transtornados, amargurados, desesperados ou até mesmo a beira da loucura. E tudo isto pode acontecer sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso prévio. Aquela frase: o que é combinado não sai caro. Não funciona bem neste caso. Assim como o Big Bang, onde não sabemos por que começou e muito menos o motivo da continuação, assim é com estas pessoas que nos cativam. Quando vemos já estamos sedados e encantados por aquela pessoa. No primeiro momento isto pode parecer ótimo, formidável, excelente. Mas como quase tudo não é o que parece ser. Isto pode ficar muito mal no final.

Lembro agora de uma linda garotinha que eu conheci. Na época era um garoto também, apenas uns dois ou três anos mais velho. Ela era linda tinha uns quinze anos de idade, branquinha, cabelos ruivos e lisos, olhos cor de mel, lábios finos, algumas pintas no ombro e um lindo corpo. Ela também nunca dispensava uma boa maquiagem e um formidável figurino. Não existia possibilidade de eu não me encantar por ela. Além de tudo, ela tinha um ótimo papo. Em poucas palavras, nos entendíamos muito bem. Como já disse me encantei com ela em questão de poucos segundos, mas houve algo que ela me contou, que nunca mais esquecerei.

Não lembro bem o nome dela, acho que era Clarice ou Clara. O que interessa é que ela me encantou, me deixou a beira da loucura, mas no final eu sobrevivi. A história que ela me confidenciou era sobre uma doença infantil que ela teve. Catapora ou sarampo, pensando bem acho que foi caxumba. Enfim sei que esta doença foi um pouco mais grave do que o habitual e por causa desta complicação, ela perdeu noventa por cento de visão do olho direito. Nesta época ela tinha uns dez anos de idade. Com o passar do tempo este olho dela, perdeu os movimentos e ela usava o cabelo para tampá-lo. Praticamente um tapa-olho natural. Passado um tempo, ela foi ao médico e ele fez a observação sobre a mania de esconder o olho com o cabelo. Por incrível que pareça, ela não percebia que estava fazendo isto. Era algo quase que inconsciente. Mas depois desta “bronca” do médico, ela chegou em casa e passou a treinar o movimento deste olho na frente do espelho.

O treinamento era bem simples, ela ficava bem próxima do espelho, com o dedo indicador fazia movimentos para que o olho acompanhasse. Inicialmente o olho quase que não obedecia, ele ficava lá parado. Depois de uns dias treinando o olhou começou a responder. Ela fez isto por três meses, com isto o olhou voltou a ter movimentos normais como o esquerdo. Ela nunca mais teve problema com este olho, ele apenas continuou um pouco “cego”, mas em perfeita harmonia com o outro, pelo menos em questão de movimentação. Depois disto ela nunca mais precisou do seu tapa-olho natural. Se antes de ouvir esta história eu já era encantado com ela, depois disto ela entrou pra eternidade. Mas não foi isto o que mais marcou.

O que de fato ficou foi o sentimento lindo que eu tinha por ela, mas que não foi correspondido. É claro que houve sim uma correspondência, mas o dela foi fugaz, passageiro. Como um perfume logo o cheiro se foi. Eu permaneci ali encantando, bêbado por ela. Mas nada disto fazia muito sentido pra ela, pelo menos foi assim depois de um tempo. Já se passaram décadas que isto aconteceu e até hoje eu sou encantado por ela, não sofro por isto é apenas a forma que me lembro dela. Não quero falar de uma pessoa em especial, ao longo de nossas vidas são muitas as pessoas que nos encantam, Clara ou Clarice foi apenas mais uma e não estou dizendo encantar apenas no sentido amoroso. Há amigos, colegas, políticos, celebridades, atletas, escritores, músicos, um universo de pessoas que nos cativam.

Encantar é assim mesmo, sem explicação. É como gostar de azeite. Sabemos que é ótimo, um verdadeiro néctar dos Deuses, mas qual é a explicação para isto? É mais ou menos assim, que acontece com as pessoas. O que torna tudo ruim é quando não somos correspondidos. Estamos ali olhando pra pessoa e ela não nos olha. Mandamos uma carta pra pessoa e ela não responde. Fazemos mil elogios e ela nem se mostra grata. Você a cheira e ela nem sente o seu cheiro. Você beija e ela não sente. No final das contas você esta encantando por alguém, que nem sabe da sua existência.

Uma vez conheci uma mulher em uma cidade há cem quilômetros ou centro e trinta quilômetros de distância da minha cidade natal. O nome dela era Lorena ou Gabriela, não me lembro bem. Foi um gostar instantâneo, inicialmente isto aconteceu com os dois. Ela me adorava e eu também. Ela tinha um ótimo senso de humor, um lindo sorriso, uma linda boca, cabelos cacheados e pretos e era muito meiga. Nunca vi mais frágil do que ela, o meu encanto por ela era lindo. Eu não cansava de elogiá-la, pra mim ela era quase perfeita. Depois de um tempo ela se cansou de mim e deixou de me olhar, de me ver, de conversar por fim eu era um estranho. Um verdadeiro desconhecido, enquanto pra mim ela era tão interessante quanto a Natalie Portman. Pra ela, eu não passava de um mendigo, destes que você vê deitado na rua, há dias sem tomar um mísero banho e com uma caneca do lado para as pessoas deixarem suas moedinhas. Ao passar por mim, nestas condições. Nem mesmo esmolas ela me daria, passaria ao meu lado e ignoraria a minha presença, nem mesmo um olhar discreto e rápido eu receberia.

Tem pessoas que a gente cisma com elas e nem sempre ou quase nunca elas cismam conosco. Então fica aquela coisa inútil, que não serve de nada e no fim das contas nem existiu. É muito engraçado quando isto acontece. Sabemos a vida da outra pessoa, o que ela fez, o que deixou de fazer e o que faz atualmente. Com quem casou, namorou, noivou, quantos filhos teve, onde morou, onde nasceu, o que já escreveu, qual música gosta de ouvir, quais livros são de cabeceira, quantos amores ela já teve. No entanto, quando alguém pergunta pra esta pessoa sobre você. Ela simplesmente, não sabe de quem se trata, ou seja, você não existe pra mim. Ela não sabe o seu nome, de onde veio, o que já fez e muito menos o que vai fazer. E nem desconfia o quanto ela é importante pra você. Assim há muitas pessoas que te marcam eternamente e nunca mais vão sair da sua memória, mas esperar que isto aconteça também é um tanto infantil demais.

Alias não importa que você, não exista para a pessoa. O sentimento de carinho não deve fenecer por meros detalhes. Tem pessoas que vimos umas cinco ou quatro vezes na vida e isto foi o suficiente para você lembrar-se dela pra sempre em sua mente. E não é aquela lembrança defunta, muito pelo contrária, é viva, forte e singular. E estas coisas podem acontecer com quem você menos espera, pode ser com a sua vizinha, com alguém que mora longe, com alguém que viu uma única vez ou algumas vezes, com uma pessoa que você atendeu no trabalho ou mesmo com uma que você viu no ponto de ônibus. Neste mundo de possibilidades é difícil mensurar quem vai deixar de existir ou não pra você.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Do contra

Muitas vezes já me disseram que sou o do contra. Dizem que a minha posição é sempre contrária a de todos. Sinceramente, não gosto que me classifiquem desta forma, alias não gosto de nenhuma classificação, Mario Quintana dizia: “O estilo é a uma dificuldade de expressão”. Pois então, me classificar é justamente me limitar, me amarrar, me subjugar, me colocar uma camisa de forças. E não estou disposto a ser limitado, já bastam às limitações físicas. Não vou dizer como Nelson, que se limitou ao dizer que era reacionário. Pode até ser que o meu auto-ego, no fim goste de ouvir “Você é do contra”, “Você é um crítico”, tenho de confessar que isto massageia o ego. Mas é uma perspectiva idiota. Não há nada critico em me rotular como “do contra”. Além do mais, não é isto que eu faço.


Não vou tentar necessariamente me explicar, apenas irei levantar alguns pontos para serem refletidos. Primeiro se um caminho pode ser feito como uma linha reta ou como um rio, cheio de meandros. Fico com o segundo. É claro que isto não é sempre. O mais provável é que eu fique com o caminho tortuoso. Este é o ponto, as coisas nunca são pra sempre, as escolhas não são eternas. Há o mais provável, o mais comum, o cotidiano, mas isto não quer dizer que o inusitado vá deixar de existir. Observamos a natureza, ela se comporta quase sempre na sua probabilidade, há o ciclo da água, o ciclo do carbono, existe todo um comportamento regular. No entanto, vemos catástrofes acontecerem, tsunamis, vulcões em erupção, tempestades, furações. Então cadê a regularidade, nem mesmo a natureza é sempre a mesma, há dias bons e os dias ruins. Eu não sou favorável a morte do inusitado, do bizarro, do avesso, do contra e muito menos de mim.

Na verdade me incomoda me posicionar sobre algo, dizer sim ou não, marcar um x. Escolher é sempre a perda de algo. E isto me incomoda. Eu gostaria de ficar em uma posição confortável. Nesta eu não teria que escolher, sofrer, renunciar. Seria como ficar em cima do muro. Pra mim este é o ponto ideal. Não escolher, mas este não opinar, não é uma negativa e muito menos uma afirmação. É a posição na qual não houve nenhuma pronuncia de valor. Neste caso ele não disse nem sim, nem não. Eu prefiro assim, infelizmente esta dádiva não foi me dada. Sempre me vejo na posição de escolher, não consigo chegar à neutralidade. Refletindo sobre o que acabei de falar, vejo que Deus é muito parecido com isto. Deus não se intromete em nossos assuntos, ele nos deu o livre-arbítrio. Fico na curiosidade se isto foi para nos favorecer ou para favorecê-lo, afinal de contas é justamente esta posição, que vejo como o ponto ideal. Não há dor na consciência, não há culpa. Não há participação seja nas vitorias ou nas derrotas. Não há nem mesmo a torcida.

E qual é a minha posição, se não é a esta de não opinar, de me ausentar de qualquer parcela de culpa. Ser do contra como todos dizem? Se todos tivessem uma visão clara da situação eu concordaria com eles, mas não é este o caso. Eu não sou do contra, sou apenas o defensor dos oprimidos, diria em uma visão poética. Mas sem romantismo, apenas defendo lado que ninguém quer defender. E qual é a razão disto. Simples, acredito que as diferenças sejam um dos fatores que mais contribuem para evolução da raça humana. Há outros que pensam o contrário, um bem famoso é Adolf Hitler. Este acreditava na supremacia da raça ariana. Voltaire já dizia: “Posso não concorda com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”. E este o meu objetivo, defender o lado que esta perdendo, ou mesmo sem defensores. Afinal de contas vivemos em mundo pós-moderno, dito democrático e como dizia Nelson: “Toda unanimidade é burra”.

Um motivo plausível é que gosto de desafios, qual é a graça de torcer para Michael Phelps. Eu não vejo nenhuma. O impossível é que me agrada. Muitas coisas já foram impossíveis, hoje são banalidades. Além do mais imagine, qual seria a graça se todos os seres humanos do planeta terra pensassem da mesma forma. Imagine só que monotomia que seria o mundo, da sono só de pensar. Talvez eu defenda justamente isto as diferenças, a irregularidade, as polêmicas. Sei que isto pode parecer maquiavélico, mas não é esta a minha intenção. Eu simplesmente não sei me calar. Confesso que isto, não é bom o tempo todo, às vezes o silêncio é a melhor resposta ou a resignação. Mas não adianta, não consigo me conter, tenho que me pronunciar sempre que falam aquela frase: “fale agora ou cala-se pra sempre”. Afinal de contas nunca é uma palavra muito pesada, imagine não me pronunciar mais sobre tal assunto, nunca mais. Não sei ser um sujeito mediano. Não sei pensar como a maioria, todo jogo da vida é muito complicado pra mim. Eu resumiria a minha vida no seguinte dilema, um dia, um novo drama ou um dia, um filme.

Como diziam os Mutantes: “Dizem que sou louco, por ser assim, mas louco é quem me diz, que não é feliz, não é feliz”. É justamente este o ponto que incomoda a grande maioria. Não me comporto como eles querem. Sou uma doença, um vírus. Realmente não sei levar a vida sem questionamentos, sem dramas, sem polêmicas. Não consigo levar a vida da mesma forma que um cão. Lembro agora do meu cachorro. Na minha adolescência havia um em minha casa. Sempre o observei e confesso. O animal me incomodava, ele nunca estava preocupado com o seu futuro. Com a vida que levava. Os comportamentos dele eram sempre os mesmos, as manias, irritações e ansiedades não mudavam. Comecei a relacioná-lo com as pessoas, foi nesta hora, que percebi por que eu era considerado do contra. Eu não sabia imitar o cão. O meu grande problema era a falta de simulação e naturalidade em ser um cachorro. Não sabia agir como a grande maioria. Como eu gostaria de ser aquele animal simples e singelo, infelizmente não tive esta sorte, serei eu sempre um ser irracional.

Obs: Trata-se de um desabafo de um eterno desconhecido, não havendo nenhuma proximidade, semelhança ou qualquer coisa parecida com o autor do blog. No caso o autor só teve o trabalho de registrar o choro de um homem brasileiro e ignorado.

domingo, 1 de março de 2009

No fim ninguém é feliz

Atualmente vivemos com a síndrome do pânico, viver sempre foi perigoso, mas ultimamente prega-se que é ainda mais difícil manter-se vivo. Nunca se sabe quando vai haver um novo ataque terrorista, um homem bomba, uma chacina, um homicídio ou até mesmo um seqüestro relâmpago. O mais catastrófico disto tudo é que todos são suspeitos. É como um homicídio que ocorreu em uma mansão, onde o mordomo e todas as pessoas presentes sãos suspeitas. Além disso, todos são alvos potenciais, nunca se sabe quem vai ser a vítima, antes o criminoso era mais seletivo, escolhia os homens de terno, hoje não importa a vestimenta.  

             Como temos o livre arbítrio de agirmos conforme bem entendermos. Depois temos a conseqüência de nossos atos. E nesta onde do perigo constante a frase: “Salve-se quem puder”, entrou definitivamente em voga. É a famosa lei, olho por olho, dente por dente. Daí cada um com o recurso que tem em mãos da o seu jeito de se virar. Alguns se tornam Policiais, outros bandidos, alguns políticos, outros lixeiros, mendigos, médicos, no fim todos querem sobreviver e viver conforme o seu luxo permite. Cada pessoa conforme sua posição social tem a sua “segurança”, mas no fim todos são vitimas potenciais. É como costumo dizer: qualquer pessoa pode ser morta.

             Mas como eu ia dizendo as pessoas fazem a sua segurança, no entanto, acaba existindo pequenos grupos, que se organizam para facilitar o combate. Há diversas formas de associações destes grupos. Uma bem comum é o circulo social comum. É bem engraçado, mas não percebemos como fazemos isto quase que involuntariamente. Nossos amigos, conhecidos e entre outros são pessoas muito parecidas conosco, gostam das mesmas coisas, fazem as mesmas atividades e tem empregos similares, quando não iguais. Tudo bem que isto é muito natural, o problema é que rejeitamos as pessoas diferentes da nossa tribo e fazemos isto na maior tranqüilidade possível. É claro tudo sem nenhuma educação, hoje em dia ser educado não é nenhuma qualidade. Isto é para os fracos.

            Nesta luta selvagem e dificílima os homens tiveram uma geniosa idéia, inclusive isto é algo muito antigo. Cercar as cidades com muros e/ou fazer o mesmo com os criminosos. Fazemos um buraco e os prendemos, assim eles vivem lá como ratos, pois é isto que eles são. Como acabei de dizer, esta forma de separas as pessoas por muros é algo muito antigo. E o muro nos dá uma falsa sensação de segurança, as pessoas esquecem que podemos treinar e pula-lo. Mas se ver o muro nos conforta, então vamos por um, bem à nossa vista.  

            Esta coisa de murar as cidades durou por muitos anos, em meados do século XVI e XVII isto entrou em declínio. No entanto, em pleno século XXI surgiram os condomínios fechados de luxo. Neste caso são formadas pequenas “cidades” onde os habitantes têm um alto padrão de vida, ou seja, são ricos. Esta divisão econômica e de certa forma, cultural e política tem se a impressão de que todos irão viver harmonicamente. As pessoas pensam o seguinte, não haverá mais brigas, roubos, furtos e nem barracos. É a terra prometida, onde jorra leite e mel, ou seja, é o paraíso.

            Tudo se explica assim, os pobres furtam, os pretos ainda mais, os latinos são burros, os africanos primatas, os americanos visionários, os europeus intelectuais, filósofos, os asiáticos esforçados, dedicados e disciplinados. Então pela mera localização geográfica e social sabemos quem é quem. É como um baralho de cartas marcadas. Então se vivemos com vizinhos estudados, qualificados, bem preparados, ricos, com um amplo conhecimento cultural e bem educados.  Não há com o que nos preocuparmos, não iremos ser assassinado, roubado, furtado pelo vizinho, muito menos trapaceado. Nesta vizinhança não há espaço para o velho um sete um, o malandro aqui não tem vez.

            Então neste lugar dito o paraíso, é onde viveremos com pessoas do nosso nível. Lá que criaremos os nossos filhos, lá é que eles vão ter amigos, iram pra escola, pro clube, por ponto de encontro da “galera”. O lugar é bonito, luxuoso, bem cuidado, vigiado por câmeras e cercado por um imenso muro. Eu diria que é uma prisão cinco estrelas. O mais engraçado é que esta prisão é voluntária, ninguém ali cometeu um crime pra esta ali, ou pelo menos, ninguém ali foi condenado por algum crime. São pessoas “livres” que só querem ter uma vida confortável e segura, afinal de contas que mal há nisso? Estas pessoas não têm culpa se os outros, são um bando de bárbaros, ratos e violentos, capazes de matarem, roubarem e fazerem o que até o Diabo dúvida a qualquer momento.

            Os burgueses pensaram no mais obvio, é como costumo dizer, pensar simples é a melhor solução. Então se não posso conviver com estas “pessoas” sem lei, sem educação, estudo e sem princípios, eu mesmo vou me isolar delas vivendo em um condomínio luxuoso com pessoas iguais a mim. Incrível como esta solução é tão brilhante e simples. O grande problema é que não pensaram no mais obvio ululante. Por mais que estes dois mundos estejam separados. De um os ricos, bonitos, limpos e bem vestidos. Do outro os pobres, sujos, feios e mal vestidos. Pois bem, façam muros, coloquem câmaras, vigias, guardas, viaturas, o que for. Nada vai impedir o contato entre os dois seres humanos. Isto é inevitável, cedo ou mais tarde vai acontecer. E não podemos esperar que pessoas de mundos diferentes tratem o outro bem. É a mesma coisa de pedir para um leão tratar bem um javali.

            A minha pergunta é: No fim quem é feliz. É possível comer um caviar, sabendo que algumas pessoas comem os restos dos porcos? No fim ninguém deixa de comer o caviar, as pessoas não ligam os fatos desta forma. Afinal de contas por que o azeite que eu uso interfere no prato de comida de um miserável? É realmente não há conexão entre estes fatos. Posso viver a vida que eu tiver condições de pagar, afinal de contas vivemos em mundo onde todos são iguais e se tornam desiguais pela iniciativa de cada um. Quem mandou não estudar? Quem mandou não trabalhar? Quem mandou ter este tanto de filho? Vejam a culpa do miserável ser miserável é dele e de mais ninguém. Eu ainda tenho que gastar rios de dinheiro, para viver em um condômino luxuoso, onde tem segurança máxima. E no fim, eu sou feliz e de vez em quando tenho o importuno de ver um mendigo, que me pede esmola ou me mata.