Sempre me incomodou a rotina, não digo esta que chamamos de cotidiano. Estou dizendo sobre o paradigma, a forma como somos domesticados a pensar. Sempre lemos da esquerda pra direita, começamos da página número um e não da quatrocentos e oitenta e nove. Ao acordarmos escovamos os dentes. Dormimos entre as 22h00min até as 10h00min, enfim existe toda uma domesticação do homem, para ele ser o homem. Eu fico pensando é necessário à padronização até onde não há necessidade disto, o leitor deve estar perguntando: Do que ele esta falando? Ah meu caro leitor estou falando dos romances, da literatura, do cinema, da sétima arte, esta de contarmos histórias.
Por que devemos ter sempre o padrão o mocinho, o vilão imperdoável, implacável e com certos princípios, a mocinha, o início, o drama e por fim o final feliz ou não. Já houve vários que tentaram subverter esta ordem, já tentaram contar história pelo fim para chegar ao início, vilões e mocinhos ambíguos, enfim já tentaram de tudo. Inclusive já escreveram isto em música vejam: "O meu refrigerador não funciona. Eu tentei tudo. Eu tentei de tudo. Não funciona, Não, não, não O meu, o meu O meu refrigerador não funciona." Mas nada adiantou as novidades acabam por virarem velhos paradigmas com o passar do tempo. Em suma, nunca da certo, não funciona. Alguns chegaram perto entre eles o obvio ululante Nelson Rodrigues, que escreveu A vida como ela é. Por que este título? Pelo mais obvio de tudo, a vida é uma ótima contadora de histórias, temos de observa - lá e conta-la. Não precisamos fazer mais nada. Meu caro leitor veja a minha observação.
Lá estava ela, linda, limpa, reluzente, nova e intacta, no meio de milhares ela foi escolhida. Por quem? Ah isto não interessa, o importante é que ela foi a selecionada. Pois bem a geladeira, marca cônsul, modelo Z220, cor branca, número de série 151118891984. O seu destino era um bar, que estava localizado em um clube, este onde as pessoas se reúnem, batem um papo, tomam um sol, jogam uma peladinha, pulam na piscina e entre outras atividades. O bar era bem movimentado, havia um constante entra e sai, a geladeira vivia sendo aberto, fechada, esvaziada, preenchida, um tremendo burburinho. Não podemos dizer que a Geladeira teve muita sorte, poderia ter sido escolhida por um casal de idosos, desta forma ela teria mais tempo para descansar. Nada como a ociosidade, o ócio, é uma palavra esquecida na modernidade.
Não posso de deixar de mencionar Lessing "Preguiçosos em tudo, menos no amor e no beber, menos na preguiça" há existe um provérbio espanhol que diz "Descansar é saúde". Enfim a Geladeira trabalhava muito neste bar, é verdade que havia o lado bom, pois conhecia muitas pessoas, já que o bar era freqüentado por diversas pessoas, de diferentes credos e convicções. Sem falar das Histórias que a Geladeira presenciou, numerosas, paixões, amores, algo que não caberia em qualquer livro. Pois bem, o bar em pleno vapor, mas o clube não, este é abandonado, jogado as traças, ou melhor, as moscas. Prepare-se leitor, este é ponto fundamental por que a vida conta ótimas histórias. Estive refletindo sobre isto e percebi que a falta de nexo, a falta de coesão lógica entre causa e conseqüência é o principal responsável por boas histórias, eu resumiria em uma palavra o "inusitado". Como a Geladeira poderia sofrer com a ociosidade do clube, que foi jogado ao leu. Pelo o que sabemos a Geladeira jamais poderia tomar um banho de sol ou mesmo dar uma mergulhada, quem sabe boiar. Imagine a cena meu caro leitor, a Geladeira boiando no meio da piscina, refletindo sobre a vida. Seria no mínimo diferente. Mas eis que o clube foi tomado por mosquitos e não são mosquitos quaisquer, não mesmo. São os mosquitos da dengue, que nas enormes piscinas do clube ploriferam, o clube que antes era um lugar sociável se torna em um pesadelo para Secretária de Saúde da Cidade, que sem outra escolha interdita o local.
O clube se tornou um ponto de ploriferação dos mosquitos da dengue, que aterrorizam a cidade inteira. A Geladeira imune ao vírus não se preocupa com a situação, mas eu no lugar dele me preocuparia. Eis que ao interditar o clube, os bares que lá estão também são interditados. Qual é a explicação racional desta medida? Nenhuma isto mesmo meu caro leitor, uma medida puramente idiota. Os bares já estavam funcionando, quando o clube foi jogado as moscas e nada impedia que o clube fosse interditado e estes bares continuassem a funcionar. Pois bem tudo é interditado e a Geladeira permaneceu lá no bar, junto com os demais objetos, freezer, liquidificador, televisão, cadeiras, mesas e entre outros.
A Geladeira agora descansava, não fazia nenhuma atividade, mas sua vida social de fato se tornou paupérrima. E com o passar do tempo o inevitável aconteceu. Saqueadores invadiram o clube e os bares levando tudo o que encontravam pela frente. E como o local foi interditado a Prefeitura da cidade não permitiu a contratação de um vigia por parte dos donos e não colocou ninguém para vigiar o local. O resultado não poderia ser outro, numa sociedade onde o lucro vem da miséria. Os saqueadores levavam tudo, e o que era muito complicado levarem como, por exemplo, um freezer, levavam o motor. A Geladeira permaneceu no bar por um bom tempo, viu muitas coisas sendo levadas, ela sempre aguardava a sua vez, e quando os saqueadores iam embora ficava um sentimento ambíguo alívio ou frustração, o que seria pior ficar ali ou ser levada? A Geladeira nunca sabia qual era o melhor, o que de fato não tinha dúvida é que a angustia já tomava conta de sua vida.
Pois bem, o dia chegou os saqueadores resolveram levar a Geladeira, não sabemos se por necessidade, comodidade ou por falta de escolha. A Geladeira preferiu ficar na dúvida. Os saqueadores carregaram a Geladeira até o muro que dá acesso para a via pública e foram embora, a Geladeira ficou lá não sabendo o motivo, será que desistiram do furto? Calma eu diria a Geladeira, eles foram apenas arrumar um jeito de carrega - lá não desistiram de furta-lá. Dito e feito, horas depois os saqueadores voltam com uma carroça e no momento que iriam transportar a Geladeira chega a Polícia. Isto mesmo leitor a Polícia flagrou os saqueadores, que eram dois no momento, em flagrante delito.
Foram todos para a Delegacia, o saqueador, por que o outro conseguiu fugir e a Geladeira. Lá é feito o Auto de Prisão em Flagrante Delito o saqueador é preso e encaminhado a Penitenciara e a Geladeira é imediatamente devolvida ao seu dono. O dono não à leva, deixa lá dizendo que posteriormente ira pega-lá. Legalmente a Geladeira não estava mais na Delegacia, ela tinha sido entregada ao dono pelo documento que este assinou. Enfim para os olhos do Estado ela não estava ali mais, tinha retornado ao seu proprietário, conforme o recibo.
O fato é que a Geladeira permaneceu ali por muito tempo, viu coisas que nunca pensou em ver ou presenciar, se quer sabia da possível existência. Viu muitas pessoas sendo presas, soltas, uns apanhando, outros batendo, alguns espancando, outros se divertindo com o sofrimento alheio, uns vendendo a liberdade. Como se a liberdade pudesse ser negociada. Outros negociando a proteção aos desamparados, propina, corrupção, abuso de poder e outras mazelas sociais. Ali na Delegacia a Geladeira presenciou a sociedade sem o seu véu característico, bem ali na sua frente, sem o jogo do esconde-esconde, sem vergonha na cara, sem politicagem, sem oba-oba, sem medo de ser feliz.
O velho tapete social que varre todas as sujeiras para debaixo dele não estava ali e ninguém presente fazia questão de colocá-lo lá. Por fim a Geladeira tinha esquecido do seu dono, não tinha mais remorsos dele, para ser sincero nem lembrava mais dele. Quem era o seu dono mesmo? A Geladeira já se sentia dona de si. O fato é que passado algum tempo o escrivão Policial que fez todo o processo burocrático, Auto de prisão em flagrante delito, prisão do saqueador, já que o outro tinha fugido, restituição da Geladeira ao dono, percebeu que já havia meses, que a Geladeira, estava ali na ante-sala da cela e de sua sala, bem no meio do caminho. Ele passou o resto da noite pensando na Geladeira e por fim raciocinou o seguinte, o empregado humilde dele necessitava de uma Geladeira, já havia comentado no assunto.
O dono daquela Geladeira não iria voltar para pega-la, já havia passado muito tempo. Legalmente ela já tinha sido devolvida, não via por que não da - lá ao seu empregado. O escrivão Policial depois de fazer esta profunda reflexão de justiça, memorizou isto e posteriormente iria comentar com o seu empregado. Passado uma semana, o escrivão Policial já em sua casa, lembra de sua reflexão e pergunta ao empregado se ele não queria uma Geladeira. Este responde que sim e pergunta quanto ele teria que pagar. O escrivão Policial responde que nada, que o empregado apenas deveria ir à Delegacia em um dia de serviço do escrivão e lá fazer uma encenação. Teria o empregado que se portar como o legítimo dono da geladeira para leva - lá.
E ele foi até a Delegacia lá se comportou como dono e o escrivão Policial como um servidor público, os dois encenaram, deram um sorriso irônico e intrigante, a Geladeira foi levada para a casa do humilde empregado. Lá tudo era diferente da suas ultimas duas moradias, não era luxuoso como o bar, não tinha um circulo social, não havia o inusitado, o inacreditável, a loucura humana bem a sua frente, não havia muito que fazer. Agora a Geladeira poderia realmente se dedicar ao ócio, enfim a preguiça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário