sábado, 4 de abril de 2009

Prefiro não saber

Eu sei que, ando sempre falando as mesmas coisas e bobagens. Tento mudar. Quase sempre em vão. As formulas se repetem, as chatices voltam e os cacoetes não me deixam. É mais ou menos como pisar na lama. Aquele bairro parece que nunca vai sair do seu sapato. Seria a minha sina? Talvez seja. Ir a todo tipo de lugar e ser olhado sempre com os mesmos olhos. As mesmas expressões nada simpáticas e os mesmos julgamentos. O meu corpo parece carregar o meu passado e parece que todos conseguem vê-lo em questão de segundos.

 

Todos nos temos qualidades, mesmo um assassino contumaz tem as suas. Eu tenho uma, que na verdade fico sempre me perguntando. Isto é qualidade? Eu tenho um super poder, leio pensamentos. Isto mesmo. Sei tudo o que as pessoas estão pensando. No entanto, só sei o que pensam de mim. Não sei o pensamento sobre a crise mundial de um economista. Sei apenas, que ele me acha um panaca. Os outros pensamentos que não são sobre mim, eu não sei. Simplesmente, não escuto. Em outras palavras o meu “super-poder” não é tão super assim. É algo bem pessoal, serve apenas pra mim e mais ninguém.

 

Isto pode parecer fantástico, saber o que as pessoas pensam de você, sem exceção alguma.  Sua mãe, seu pai, sua irmã, seu cachorro, seu amigo, sua namorada, sua amiga, seu primo, uma desconhecida, a atendente do caixa do supermercado ou mesmo sua professora. No entanto, só parece, pois isto é uma grande merda. Já “escutei” cada coisa do tipo: “Que cara mais chato”, “Que cara idiota”, “Ele se acha né? Não sabe de nada”, “Que pedante!”, “Ele não sabe nem se vestir”. Enfim é daí pra baixo, em certas situações eu não consigo nem conversar mais. Toda minha inspiração e boa vontade vão por água abaixo.

 

Minha vontade era de não saber, de não escutar. O pensamento do outro é dele, e não posso ter o direito de escutá-lo. Mas ao contrário do que pode parecer, não escolhemos ter ou não um “super poder”. É um dom, é claro que preferia ser um músico do estilo Pink Floyd, mas o que me sobrou foi escutar as asneiras que falam de mim. E como se isto não bastasse, eu sou curioso. Então quando não escutei os pensamentos, pois não estava presente. Pergunto o que fulano de tal ou sicrano falaram sobre isto e aquilo e especialmente, da minha pessoa.

Acho que isto acontece com todo mundo. Especialmente quando estamos falando de relacionamentos. Ficamos um tempo juntos com a pessoa, coisa de dois a três anos. Por fim tem uma briga o relacionamento termina e ficamos uns três meses sem nós ver. Neste intervalo saímos com outras pessoas e acontecem coisas intimas. Depois deste tempo, percebemos que o relacionamento não era tão ruim assim e o mais prudente é voltarmos com a pessoa. Como somos curiosos e bobos perguntamos: -Mas então, saiu com alguém neste tempo? – Sai sim, pessoa muito divertida. – É mesmo? – É sim.  – E teve algo? – Como assim teve algo? – Bom você sabe, foram pra cama? – Pra que você quer saber isto? – Ah só pra saber, curiosidade boba ( Espero que ela não tenha feito isto, não é possível que ela tenha ido tão cedo com alguém pra cama). – É rolou sim. – Ah ta. ( Eu sou um idiota, pensei que estava com uma mulher séria. Ela é uma qualquer). E você saiu com alguém? – Eu? É sai sim, mas não era tão divertido como o seu alguém. ( Mal sabe ela, que sai com todas as mulheres, que ela morria de ciúmes). – E ai, foram pra cama? ( É claro que deve ter ido, homens só querem saber disto). – Cama? Não, foi só uns beijinhos. ( É claro que fui, afinal de contas sou um homem. Alias todas foram muito melhor de cama do que ela). - Ah tudo bem. ( Ele pensa que vou acreditar nesta história, sei muito bem que ele levou a vagabunda da Ana Paula pra cama.)

 

No fim deste dialogo. Com certeza a conclusão não pode ser outra. Por que conversamos sobre isto? É algo desnecessário e sem utilidade alguma. Podia ser muito bem cortado. Alias o corte é o grande segredo do cinema. Só mesmo um filme bem cortado, que pode se tornar uma obra prima. Do contrário teremos um filme qualquer. Mas infelizmente não sabemos fazer isto muito bem. Tem coisas que é melhor não sabermos. Vai nos poupar de desgostos e aborrecimentos. Se um grande amigo seu dá de cima de uma garota que você também já deu, provavelmente eles falaram de você. Mas se ele não te contou nada, pra que você vai perguntar o que eles conversaram ao seu respeito? Com certeza não foi algo agradável. Esqueça o fato e siga em frente.

 

Ser o filho torto da família. É algo que pode ser trágico ou nada demais. Se eu fosse filho da minha irmã mais velha, preferia não saber. Depois de um tempo, em que você está totalmente acostumado com o fato de que sua irmã mais velha é sua irmã.  E que sua mãe é sua genitora. Eles chegam até você, quando tem uns quinze ou dezoito anos e te dizem que sua irmã, na verdade é sua mãe. E que sua mãe é na verdade sua avó. Prefiro não saber. Esta seria minha conclusão em um caso destes. Se eu fosse filho de outro pai, sabe minha mãe saiu com um cara transou com ele e ficou grávida. No entanto, o cara sumiu e ela nem teve como contá-lo. Minha mãe namorava e neste tempo tinha terminado.  O namorado ficou sabendo do caso e por gostar muito da minha mãe, me assumiu como filho e casou com ela. Uma história dessas, eu prefiro não saber. Já estou habituado que o marido da minha mãe é meu pai. Ele já se habitou com isto também, já tenho mais dois irmãos e sou o mais bem tratado de todos. Por que vou querer saber que o meu pai na verdade não é meu pai, que o verdadeiro pai, só transou com a minha mãe uma vez e nada mais do que isto. Ele nem mesmo sabe que eu existo, prefiro que continue não sabendo. Nem eu e nem ele precisamos saber da existência de um do outro.

 

Sinceramente há coisas que não devemos saber. Ao comermos um baby bife se soubermos o sofrimento que o animal passa. Teremos nojo de nossa própria futilidade. É necessário amarrar um animal, para que ele não exercite os músculos para depois comermos um bife super macio?  É preciso saber que o seu ex-namorado transou com a sua melhor amiga? É preciso saber que você nunca foi importante pra sua esposa? É preciso saber que a sua vida foi mera futilidade? Prefiro não saber de certas verdades e de certos fatos. Sou impotente diante de quase tudo, o máximo que posso faze é ficar com raiva, chorar ou me chatear. Portanto a ignorância em certos casos é necessária e de certa forma cai muito bem.

 

 

3 comentários:

Anônimo disse...

gostaria de saber o que as pessoas pensam de mim.. geralmente sei o que elas pensam uma das outras ou o que estam pensando sobre determinada situaçao

Leilah disse...

eu adoraria ler pensamentos viu...

www.leilokas.blogspot.com

bjs!

Unknown disse...

Thiago...é impressionante como consigo vivenciar o q vc escreve. Parece q vc já havia escutado a minha história de vida e aí saiu escrevendo. Não entendo como consegue perceber todos os sentimentos possíveis e impossíveis de um ser humano, com tão pouca experiência de vida.