terça-feira, 5 de maio de 2009

Destinos diferentes


Conheci duas mulheres tão diferentes que foi impossível não compará-las. Uma era linda, cor de jambo, voz de menina doce,rosto de uma pessoa bem vivida e feliz apesar das angustias. Lorena já não era linda, tinha os traços bonitos, negra e alguns quilos acima do peso, seu rosto não era de felicidade e sim de sofrimento. Este sofrer que alguém só tem quando passa todos os dias pensando no que vai comer amanha. Lorena nasceu em 1978, assim como Lucia. Fora o ano, a letra L e o fato de serem mulheres, elas não tinham mais nada em comum.

Lorena teve seis filhos, Lucia não teve nenhum. (Pelo menos é assim até o presente momento, nunca se sabe quando uma mulher vai dar a luz). Lorena teve dois amores, Lucia não teve nenhum. Lorena nasceu na capital em um berço faminto. Lucia é de ótima família e nasceu nas Veredas. Lorena não conheceu o mundo da arte, não sabe quem é Pixinguinha, desconhece Jimi Hendrix e nunca sonhou em tocar um piano. Lucia tocava piano muito bem, sempre foi uma moça prendada, linda para uns e graciosa para outros. Lorena trabalhava em uma empresa comunitária de reciclagem de lixo. Lucia era médica. São tão poucas as coincidências na vida destas duas mulheres, enquanto Lorena ri, Lucia chora. Lorena ama e Lucia esta angustiada por que não conhece o seu amor.

Falei de Lucia e Lorena. Na verdade conheço Lucia e muito bem, até mais do que gostaria de conhecer. Por que tem certas pessoas que conhecemos e gostamos, mas não é algo planejado e esquematizado. Pode ser que no início pensamos em nos envolver e abusar da pessoa, depois de um tempo descartamos. Pelo menos é assim que pensamos algumas vezes no nosso intimo. Com certo receio e reprimindo a nos mesmo, mas usamos sim as pessoas e fazemos isto quase sempre de forma planejada. Quando conheci Lucia pensava isto, iria usar e abusar dela, depois não iria querer mais e independente do que ela pensasse ou sentisse iria desaparecer da vida dela. Foi assim no começo, mas com o passar do tempo Lucia foi tomando conta de mim e como naquela música, feito um posseiro se apossou do meu coração.

Um verdadeiro tiro pela culatra. Saia comigo quando queria, me beijou quando quis e me dispensou quando pode. Me fez viajar para irritar, me fez ligar para aborrecer. Até me fez compor um poema, para jogar na primeira lixeira que aparecesse. Só fui lembrar de Lucia ao conhecer Lorena. O ano de nascimento das duas era o mesmo 1978. O que aconteceu neste ano? Roubaram o corpo de Chaplin. As ilhas Salomão adquirem sua independência. Morre o Papa João Paulo I depois de 33 dias de pontificado. O cardeal Karol Jozef Wojtyla é eleito papa e adota o nome de João Paulo II. O presidente Geisel envia emenda ao Congresso Nacional para o fim do AI-5. É iniciada a abertura lenta e gradual. Acontece o suicídio em massa dos seguidores do Pastor Jim Jones, morrendo 912 pessoas. Nasce o grande filme O Muro, do Pink Floyd. O São Paulo vence o Campeonato Brasileiro de 1977 ao bater o Atlético Mineiro nos pênaltis, que perdeu o campeonato invicto. São lançados os filmes Superman, A dama da lotação. A Grécia adota a sua bandeira atual. Publica-se pela primeira vez a tira de quadrinhos Garfield, do cartunista norte-americano Jim Davis. Nascem Lorena e Lucia.

Se Lorena não tivesse nascido em 1978 ela não seria nada especial pra mim. Ela tinha sim a cara de sofrimento, o rosto de alguém que viveu todos os dias da sua vida pensando no pão de amanha. Nem por isto Lorena deixou de amar, de sofrer, de dar a luz, de sorrir e de agradecer a Deus a vida que teve. Lucia tinha tudo, mas sua angustia sempre esteve com ela. Parece que ela sabe que ser feliz era algo que ela não poderia ser. Mesmo tendo tudo pra ser, mesmo tendo todos aos seus pés. Mesmo podendo sempre escolher. Lucia não nasceu para ser feliz, não veio ao mundo pra dar a luz, não veio para amar. Sua sina era a infelicidade. Enquanto Lorena, que não tinha nada pra ser feliz, era e muito.


Falei que Lorena teve dois amores, todos os dois foram tirados de sua vida. Saíram de sua vida assassinados. Lucia foi trocada por outra algumas vezes. Enquanto uma teve a decepção de não ser amada como queria a outra teve o amor interrompido por uma ação violenta e inesperada. Afinal de contas um homicídio é sempre algo inesperado, por mais que saibamos de sua alta probabilidade em acontecer. É quase inevitável perguntarmos “Ele morreu mesmo? Está morto? Não tem mais chances? Não é possível, vi ele vivo horas mais cedo”. Mas o que é pior ter um amor vivo ou morto? Afinal de contas o morto não é por que os dois não se deram bem, já o vivo é por que ficou faltando algo. Lucia não teve um amor morto, todos estavam vivos e não queriam nada com ela. Lorena teve dois amores mortos e nenhum vivo.


Lucia era pra mim um assunto encerrado, até o dia em que conheci Lorena. Por falar nisto, é duro ouvir tal afirmação. Você é passado, um assunto encerrado. É bom de dizer e ruim de ouvir. Como dizia a minha professora “Tudo o que é ruim de passar é bom de contar.” O problema é ter coragem de contar, de dizer de desabafar. Gostaria muito de dizer como é na música “Deixa, eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar”, mas não tenho coragem esbarro sempre na minha moderação absoluta e intransigente. Precisamos ser flexíveis com nos mesmos, caso contrário nos tornamos uma Lucia.


Depois disto conheci Carlos e cedo, sem me conhecer dizia “Francisco você é um amigão”. Sempre achei engraçada esta forma dele falar comigo, pois só tínhamos a data de aniversário em comum vinte de abril. Fora isto ele era bombeiro hidráulico e eu um poeta, sem versos é verdade, mas um poeta. Minha mãe sempre me dizia “Menino mais um pouco e você tinha nascido no dia de Tiradentes”, nasci no dia vinte faltando apenas quinze minutos pra ser vinte e um de abril. Mas prefiro ser poeta a ser herói. Assim como prefiro Lucia ao invés de Lorena.

7 comentários:

ainda mais estórias disse...

estou passando pare te fazer um convite: conhecer meus blogs.

Cada um deles, três, tem um propósito diferente, mas, na sua indifrença, se completam.

Passa lá quando tiver um tempinho e deixe seu oi.

http://estoriasmediocres1.blogspot.com



http://aindamaisestorias.blogspot.com



http://blogcafeexpresso.blogspot.com

Alexandre disse...

Histórias de dar calafrios...

Interessante a temática do teu blog.

Abração.

Marcela disse...

é estranho como as coisas acontecem na vida... Lucia não vive da mesma forma que Lorena (em todos os sentidos) e, ainda assim, existe a tendência de sempre preferirmos "Lucia"s a "Lorena"s!

Anônimo disse...

A diferença entre Lúcia e Lorena?Lúcia definitivamente não era humana!

kilder disse...

muito bacana o teu blog! parabéns e boa semana!

Fabrício Bezerra disse...

eu li um pouco do seu texto.eu não tenho paciência pra ler textos grandes,principalmente num computador,mas pelo que eu li eu gostei(claro se eu li pouco não posso julgar)

Unknown disse...

Muitos preferem as Lúcias, acredito que não preferem as Lorenas por questões de preconceitos.Bacana o texto...tento vivenciá-los...deve pensar q sou uma leitora louca: mas de "louco todo mundo tem um pouco".