Sonhar é difícil, lembrar mais ainda. Incomoda-me este estado, onde custo a sonhar sendo ainda mais ardoroso recordar do que sonhei. Fiquei assim por um bom tempo, sonhando pouco e não me lembrando de quase nada. Pra mim este é o estado vegetativo, se não sonho, não vivo. O pior é estado de inércia, em que estamos fadados a cair, é difícil injetar o veneno antimonotonia na veia e dizer boas palavras em um bom português, ou seja, é complicado desabafar, por mais que você tenha muito a dizer.
De fato eu preciso muito destas injeções de veneno antimonotonia, anda preocupante o meu estado de inércia fútil, que ando me arrastando. Mas posso fazer uma autodefesa, se faço isto é para sair do mais do mesmo. Não quero passar décadas falando o mesmo discurso por mais revolucionário que seja. Revolução não é ser coerente, não é dizer o que os outros querem ouvir e muito menos dizer a mesma coisa por vários anos. Tenho medo de cair neste arcabouço comum e de me copiar. O erro mais fatal que posso cometer é um auto-eu infinito, onde digo coisas que eu mesmo já disse, da mesma forma, com o mesmo olhar, da mesma perspectiva. E no fim das contas eu ser uma cópia continua do que já fiz há muitos anos atrás. É como entrar em um estúdio e gravar um Nevermind, In útero, The Dark Side Of The Moon ou um Thriller a cada ano que passa. Nenhuma obra artística é revolucionária quando você esta fazendo o que já fez, por melhor que seja a qualidade desta obra.
Talvez para evitarmos nos copiar indefinidamente devêssemos parar. Dar um tempo e ver no que vai dar. Foi mais ou menos isto que tentei fazer, mas ainda me vejo com o mesmo discurso repetitivo, revolucionário e vazio. Além do mais é intrigante se vamos sempre ter algo a dizer, a fazer, a criar, a construir. É como se fossemos infinitos e como o universo estamos sempre em expansão. Tenho minhas dúvidas, acho que a minha falta de fôlego em alguns momentos é o sinal, que a corrida esta chegando ao fim. "Amanha vai ser outro dia" é sem dúvida. Uma frase de esperança de um sentimento inabalável, de que dias melhores viram e que vamos estar sempre construindo um futuro mais agradável. Não sei, sou um tanto cético e sempre questiono até coisas deleitosas como: amanha vai ser outro dia.
Eu continuo discursando coisas tão vagas quanto discursava aos meus vinte anos. Tenho a leve impressão de ser um eco de mim mesmo. Faz alguns anos, que sempre penso: deveria ler mais, deveria me dedicar mais a música, ao canto, a vida social, aos prazeres da vida, sempre digo que logo farei isto. O fato é que este logo, já são algumas décadas. Eu sempre estou deixando algo para logo. Faço depois, digo sempre ao ver algo que me interessa e me deixa em estado de êxtase. O “faço depois” vira um bolo tão volumoso e incontrolável que o melhor é esquecê-lo. Recomeçar sim, mas por um novo caminho, o problema é que penso estar em um novo traçado, mas quando percebo estou no antigo, no velho, no ultrapassado. Estou novamente me copiando.
Como um revolucionário chinês, igual a mim tem mais um bilhão. Me sinto como uma rosa no meio de um ramalhete de rosas, quero ser a rosa de Léon Werth, sendo ela única não por ser a mais bela ou mais formosa. Ela é diferente por ser a rosa de Léon Werth, isto lhe torna única. Léon só tem aquela rosa, nenhuma outra é capaz de substituí-la por mais que semelhante que seja. É uma particularidade difícil de ser constatada e ainda mais de ser percebida, geralmente não damos bola para isto. Já tive a melhor mulher do mundo e não dei muita veemência, quando me dei conta não a tinha mais. Ela se foi, sem dizer adeus, nem mesmo um até mais. E assim continuo me copiando, sempre pensando: vai passar.
Guimarães Rosa dizia, que para falarmos do universal, devíamos partir do nosso quintal de casa. Sempre que leio, vejo, ou lembro-me de Guimarães Rosa, penso que deveria ler mais sobre este cara. É o que penso também ao cruzar as pontes de Madison, necessito dar mais valor a simplicidade da vida. As vezes eu me sinto o bêbado, que bebia para esquecer a vergonha que sentia por beber. Sinto-me responsável pela minha única leitora. Desculpe pelo meu sumiço. Mas nem sempre consigo ser um revolucionário chinês, que em sua verborragia dispara mil palavras. Às vezes me sinto tão impotente, quanto um cão, que só é capaz de latir, mais grave, mais agudo, mas intenso e menos intenso, sua variação é entre o latido e rosnar. Em ultimo caso, o grito latente de dor, aquele de momentos inesperados e de extremo pavor.
Deixo agora de ser um revolucionário chinês, que sempre acredita estar dizendo e fazendo coisas imprescindíveis para a humanidade. Percebo, que não, que não faço nada que outros não poderiam realizar. Estou apenas no lugar de alguém, por ter sido mais esperto em certo momento, mais ágil, mais trapaceiro, mais maldoso ou mais estúpido. Quem me garante, se estou no melhor lugar ou no máximo confortável. É aquela velha coisa: você já sabe, o que eu já sei, que você já sabe, que eu já sei, e não sabemos se vamos para onde não vamos, e não sabemos se amamos, quem não amamos, e não sabemos se fazemos, o que não fazemos, você já sabe, o que eu já sei...
Um comentário:
Esperanças/sonhos/esperanças/sonhos... é um ciclo natural da vida, sem sonhos e esperanças a vida perderia totalmente o sentido.
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