sábado, 10 de outubro de 2009

Não vai embora

E aqui, que acaba a nossa história. Foi justamente isto, que eu pensei em certo momento onde já não agüentava mais ser esnobado por ela. Em uma relação entre duas pessoas, chega uma hora que as coisas acabam e quase sempre sem aviso prévio. No entanto, se uma das partes entende que não estava na hora de acabar fica algo incompleto, inacabado e o sentimento que um dia as coisas irão voltar ao normal pode permanecer pra sempre.


Pensando racionalmente, se eu conheço uma pessoa, digo ola tudo bom? e a conversa não dura mais do que quinze minutos é por que a outra pessoa não esta muito interessada no seu papo. No entanto, algo chamado intuição, que é um sentimento interior, onde estamos convictos, de que isto é para ser desta forma, nos diz que aquela pessoa é a mãe dos seus filhos ou a mulher que você vai ficar até os seus últimos dias de vida. Em outras palavras a racionalidade sempre perde para intuição.


Alias, acreditamos estar pensando racionalmente. Afinal de contas se existe a convicção de aquela pessoa vai ser a mãe dos filhos ou um de seus melhores amigos devemos realmente insistir e não desistir ao primeiro blefe. É natural que neste jogo as cartas não estejam na mesa e que as regras sejam esparsas ou quase que nulas. A grande dificuldade neste jogo é a falta de objetivo é por isto que gosto tanto do futebol.


Neste esporte o objetivo é claro e simples. Você deve meter a bola no gol adversário com os pés ou qualquer parte do corpo que não sejam os braços. O desenho do campo é simples os gols adversários ficam um de frente para o outro, as marcas no campo são poucas, uma divide o campo em tamanho igual e a outra marca a grande área, que é o local onde se houver faltas é marcado o pênalti, que é a maior punição que você pode sofrer no futebol, pior até do que uma expulsão de um dos jogadores do time, são onze homens em cada equipe.


Este esporte traz emoção por seus lances imprevisíveis e pela facilidade ou dificuldade que pode haver em fazer um gol. As partidas podem terminar sem a realização de nenhum gol, como pode haver numerosos gols. Apesar das polêmicas que podem surgir em uma partida de futebol, suas regras são claras e o objetivo mais ainda, quem fizer mais gols ganha a partida. É justamente esta objetividade e clareza que não temos na relação com outra pessoa, seja ela sua amiga, esposa, filha ou algo do tipo.


Ela, a pessoa para qual eu dedico minhas lamentações, é muito confusa e suas regras se é que existem são variáveis conforme o seu humor. Desde o dia que eu a conheci tive a convicção de que ela seria a mulher da minha vida, uma certeza boba, mas que não deixava dúvidas. Isto era mais do que o suficiente para tentar e tentar.


Inicialmente minhas previsões se confirmaram, ela gostava de mim com a mesma intensidade ou mais do que eu. Tudo era tão gostoso, nossas conversas, beijos e confidências, tudo com muita sinceridade e com regras e objetivos bem simples e claros. Não havia blefes, palavras pela metade e conversas sem ponto final.


Com o tempo as coisas mudaram e não se encaixavam mais ou ficavam sobras. Espaços e faltas que faziam tudo ruir. Inicialmente eu pensava que era uma simples questão de charme feminino. Pois as mulheres têm muito disto, elas não são de admitir que estão envolvidas, que estão gostando de ficar com você. Parece que é o mesmo, que admitir que matou alguém ou que cometeram um sacrilégio.


Minha convicção permanecia firme e não dei muita bola para as provações que ela vivia me fazendo. Dizia que não pensava mais em mim, que não gostava, dizia até que estava saindo com outros. É claro que não levava a sério tamanhas bobagens. A mulher dos meus filhos não me esqueceria e muito menos, me trocaria por outros.


Com o tempo ela se tornou agressiva, mal educada e insuportável. Comecei a evitá-la, passava semanas sem nos vermos ou mesmo trocar algumas palavras e não era por causa da distância, éramos vizinhos. No fim não sentia mais falta, mas de vez em quando me batia um sentimento, uma lembrança do seu olhar vivo e de seu sorriso lindo. Queria vê-la , beijá-la, tocá-la, então eu corria atrás dela, pensando que fosse me receber de braços abertos.


Minha desilusão era completa, mas pior do que ficar irritado e chateado era o sentimento de não acreditar que aquilo estava acontecendo. Não acreditar é pior do que o fato em si. Você simplesmente nega que isto tenha acontecido, neste caso o acontecimento por mais simples que seja torna-se uma verdadeira tragédia.


Para exemplificar o que eu falo, vou ilustrar com um caso bem banal. Você esta comendo uma torta, de repente por um lapso de memória esquece, que o pedaço que acabou de comer era o último. Você volta na geladeira para comer mais um pedaço e não há mais um pedaço. Sua reação é de perplexidade, cadê a torta? Sua memória lhe nega, como um réu nega um crime, que você tenha comido aquele pedaço.


Foi isto que aconteceu comigo em relação a ela, eu não conseguia acreditar, que ela estava indo embora, sem se despedir e o pior, sem nenhum remorso. Naquela altura eu já tinha me tornado um fardo, que ela não estava disposta a carregar. No final das contas nunca mais tivemos contato, vinte e cinco anos depois eu a vi passando pela rua, com uma garotinha, que provavelmente deve ser sua neta ou sobrinha.


Foi neste dia, vinte e cinco anos depois, que percebi que havia mesmo perdido o amor da mãe dos meus filhos, era assim que eu gostava de me referir a ela, brincava com ela carinhosamente. E como um profeta anunciava que ela seria a mãe dos meus filhos, que ironicamente não foi mãe de nenhum filho meu. Parece que ela foi mesmo embora, demorei em reconhecer, mas pelo menos não morri com isto no meu peito.

10 comentários:

Diego Janjão disse...

Mulheres partindo é tão triste quanto comum, mas ao menos, vendo pelo lado bom, abre-lhe caminho para tentar conseguiralguem melhor!

David Aragon™ disse...

Nossa! Belo texto!

Anônimo disse...

Melancolico e belo.
Faz-se suspirar!
Abraços.

Taty Battistela disse...

Adorei o texto!
Você transmitiu algumas coisas que eu também sinto!!

Perder sempre é difícil! =/

Jah disse...

Achho que posso compreender bem o que sentiste.

Momentos como esse são terríveis, mas é bom saber, que se alguém conseguiu sobreviver, talvez eu também consiga.
Mesmo que eu não queira.

Alexandre Ubaldo disse...

Enigmático como sempre pensar em suas inspirações.

Gisellle disse...

Muito bom !!! Adorei !!!

Bruna Roberta Braz disse...

adorei o post adorei o blog stou te seguindooo beijosss

Anônimo disse...

nem tudo é pra sempre..o pra sempre sempre acaba...

Unknown disse...

lindo!! O amor faz coisas inexplicáveis...é duro amar e não ser correspondido...e ter q acabar de forma dolorosa...e ter q esquecer que amou...