Um dia destes resolvi fazer uma excursão antropológica, não vejo lugar mais antropológico em uma cidade grande do que um ônibus, metro e caminhada. Por falar em ônibus, não entendo por que eles vivem trocando os números dos ônibus, os percursos são os mesmos, mas os números não. No meu caso, que fiquei anos sem pisar num coletivo, perdi todos os meus referenciais, os números são completamente diferentes, é como se tivesse me ausentado de minha pátria por umas quatro décadas e neste tempo tivesse tido a troca da moeda corrente no país por varias vezes. Meu referencial de preço não existiria mais, no caso do ônibus acho que é um pouco pior, pois a minha noção de espaço e de onde chegar, como e quando, não existem mais. Agora sou uma formiga, sem qualquer senso de direção.
No entanto, apesar de perdido, tenho tempo. Artigo disponível apenas na sua infância e velhice, na juventude não há tempo. Tudo é muito rápido, depois as coisas vão perdendo a velocidade e volta como era na infância, sem pressa, sem medir o tempo e sem desculpas esfarrapadas. Na juventude temos um ímpeto mais apurado é verdade, um sentimento de que tudo é pra já, algo mais ou menos assim: “haja duas vezes, antes de pensar”, mas não temos tempo. Algo que nos sobra na velhice e na infância. Mas voltamos a minha excursão antropológica, entro no ônibus, acredito que era um tal de 301E. Logo depois que sento, duas jovens sentam no banco de trás, lembro que não eram garotas tão bonitas, apenas comuns. Mas pensei se não é bonito de ver, talvez seja bom de ouvir.
Logo nos primeiros dois minutos, vi que minha presunção do que viria, estava completamente enganado. Pois, lembro que uma disse algo mais ou menos assim: “ O Carlos é o amor da minha vida, é o homem que eu quero ficar pra sempre”. Tal afirmação é uma grande besteira, qualquer um que tenha vivido um pouco mais e tenha certa noção do que é direita e esquerda, irá concordar comigo. Fiz uma cara de nojo ao ouvir tais palavras e mesmo assim a garota continuou: “Ele é lindo, alto, coisa de 1,90m, moreno claro, cabelos bem pretos e liso, uma boca enorme, um sorriso perfeito, os dentes brancos, todos certinhos”. O papo dela me deixou irritado, pensei em abandonar imediatamente a antropologia ao ouvir tamanho disparate. Mas logo comecei a refletir sobre inocência da menina e pensei quantos são assim, julgam a vida como se fosse simples.
A beleza da vida esta na sua complexidade, na sua infinitude de sentidos e significados. Em suas incompreensões, no sofrimento, na sua beleza. É como dizia o grande poeta, uma mulher precisa ter algo além da beleza, precisa ter um pouco de tristeza, um pouco de sofrimento. Com a vida não é diferente, precisamos de alguns apuros, de momentos de indecisão, contradições, uma vida simples e sem sofrimento é sem sentindo. É como ser um objeto inanimado, com sentido lógico e sem contradições, sem erro, talvez seja isto, que os suicidas enxergam ao fazerem algo inesperado. Eles nunca voltam pra contar os reais motivos, todos nós sabemos que a carta de um suicida é a maior mentira documentada do mundo. É como dizer, te amo, mas não te quero.
No caso do suicida, ele não mente por que quer, mas por que é impossível dizer a verdade. Deixo a vida, por que sou tão fundamentalista como uma pedra, seria algo mais ou menos assim, além do mais só depois de morto é que pode se dizer por que deixou a vida. Como isto não é possível, temos um documento falso, a carta de um suicida. Por isto, respeito apenas os suicidas que não escrevem nada, não deixam qualquer palavra explicando por que fizeram isto. Nenhuma linha sequer, nada. Absolutamente nenhum rastro dos motivos, apenas se matam e pronto, tão simples quanto era suas vidas, ou tão simples como o ato. Talvez Getulio Vargas seja o único suicida do mundo, que escreveu algo que não fosse mentira, mas o seu suicídio foi um ato político e não por uma questão existencial.
Mas aquela garota do ônibus me fez pensar nas pessoas que vivem, mas não respiram. É como ver tudo apenas de forma como elas são. O grande segredo é ver além do que estamos vendo. Uma guitarra por exemplo, é um objeto, de madeira, que pode variar o tipo, jacarandá, sucupira, jatobá, keyaki, guariúba e entre outras, com alguns detalhes em ferro, alumínio, aço, seis cordas de aço entre,
2 comentários:
Rapaiz, veja como escrever é uma viagem, e das boas! Escrever é tambem uma arte!
...o sofrimento ensina a viver e a perceber o quanto a vida é bela!
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