sábado, 6 de fevereiro de 2010

O centro do mundo

Demorei a perceber que sempre me achei o centro do mundo. E isto, foi algo que me perseguiu a vida inteira. Uma perseguição constante, implacável, silenciosa e em alguns momentos terrível. Posso até dizer que foi sofri por muitos anos uma verdadeira e nostálgica tortura chinesa, aquela que te colocam debaixo de um cano e por ele escorre um filete de água, quase que em conta gota e cai bem em cima da sua testa. Depois de algumas horas, pode ter certeza que a loucura vai lhe bater a porta.

A meu carma sempre foi sutil, discreto e nunca se declarou. É como aquelas amizades onde um ama e outro não vê nada além da amizade. O apaixonado por saber que ele ama uma pessoa, que não lhe vê como alguém do sexo oposto é discreto, sutil e chega até ser mentiroso para que a verdade não venha à tona. E ele não faz isto para manter um amor platônico, puro e idealizado. Ele apenas não quer ter o trauma de ser rejeitado pela pessoa amada, é como não entrar em uma guerra onde é claro, que o seu exercito irá perder.

A minha infância, juventude e fase adulta sempre foram permeadas por este estranho sentimento de me sentir um messias, o escolhido, o ator principal. Nunca me vi como o ator coadjuvante, mesmo que isto fosse visível. O fato é que isto me controlava é como se tudo existisse em função de mim. O mundo estava ao meu comando, vivia pra mim, bilhões de pessoas faziam tudo em função de mim e de mais ninguém. Na minha visão egocêntrica até Deus vivia em função de mim, fatos históricos no fim foram motivados por mim, eu me sentia o verdadeiro centro do mundo.

As duas guerras mundiais não teriam acontecido se não fosse a minha existência, eu motivei toda aquela destruição. Pra mim isto tudo fazia muito sentido, era uma terrível lógica que tomava conta de todos os meus pensamentos. Engraçado como às vezes apareciam alguns sinais para colaborar para a minha loucura. Lembro bem do episódio do meu ex-chefe.

Em certa época, quando trabalha em um órgão público, onde me aposentei. Lembro que iria ser transferido de setor. Em qualquer ambiente de trabalho de órgãos públicos, você pode ter certeza de uma coisa. A fofoca corre a solta, todo funcionário por mais humilde e insignificante que seja tem a sua “ficha” que corre na boca do povo. Como iria para um setor onde não conhecia ninguém, resolvi recorrer as fofocas para saber como era o meu chefe, um tal de Walter.

Perguntei como era o meu chefe Walter e todos foram unânime e resumiram em algo mais ou menos assim: Você está frito. Descreveram o cara como um daqueles chefes bem malas, insuportáveis, Sabe aquele chefe que você se pergunta: Este cara não tem filhos? Mulher? Amante? Amigos? Qualquer diversão, atividade que não seja este trabalho chato? No fim de algumas perguntas você conclui: Este cara realmente não tem nada pra fazer a vida dele é este trabalho medíocre. Lamentável, tenho pena dela.

O fato é que na época da transferência eu estava de licença médica, havia sofrido um acidente de carro, no qual morreu uma filha e minha esposa. Mas não vamos falar disto, quero falar do meu ex-chefe. Minha licença estava pra vencer, mas o médico me deu mais trinta dias, pois não tinha condição alguma de voltar para o trabalho. Fui ao novo setor e lá conversei com um colega de trabalho, para ter idéia do que eles faziam lá e como eram mais ou menos as coisas. Enquanto conversava com este colega de trabalho o meu chefe Walter apareceu lá na sala em que estávamos e este colega me apresentou para o chefe.

Ao dizer que iria ficar mais trinta dias de licença o Walter quase teve um troço, ficou nervoso e claramente irritado me disse: Você não quer trabalhar? Quer ficar atoa? Só me mandam porcaria pra trabalhar comigo, preciso que você dê adiantamento no serviço. Minha vontade era de mandar o babaca pra puta que pariu e se possível lhe socar a cara. No entanto, me contive e disse que poderia dar adiantamento no serviço em casa, tentei a política da boa vizinhança. O cara seria o meu novo chefe e não queria começar aquela relação com problemas, nesta época eu estava com muitos e queria voltar ao mar de calmarias.

No entanto, esperava que aquele pulha do Walter não aceitasse que eu levasse serviço pra casa de licença médica. Afinal de contas, ele não tinha nenhuma autoridade para questionar o documento médico. Por fim o canalha aceitou e ficou muito satisfeito com a minha puxação de saco. Sai de lá puto da vida com aquele idiota do Walter e pior, o cara era o meu futuro chefe ou atual, tecnicamente eu não tinha voltado a trabalhar. O fato é que fiquei trinta dias de licença e durante este tempo toquei o serviço, claro que não terminei tudo. O idiota me passou serviço de dois anos.

Lembro que ao chegar no serviço, estava pensando se o canalha iria me xingar por não ter terminado aquele pequeno serviço. Lá no setor encontro o mesmo colega, que havia conversando há pouco mais de trinta dias e logo ele me diz: Você está sabendo? Apenas disse: Sabendo do quê? E ele me respondeu de uma forma simples: Seu chefe morreu. Lembro que disse algo mais ou menos assim: O quê? Como assim morreu? Conversei com ele há pouco mais de um mês, ele parecia estar super bem. Você está falando do Walter? O que foi? Infarto? Aneurisma? Ele me respondeu: Nada disto, foi encontrado morto dentro do carro com um tiro na nuca, disseram que foi suicídio.

Nesta hora eu nem sabia o que falava, estava feliz. Segurei-me para não abrir um belo sorriso de felicidade. Afinal de contas o cara parecia ser um mala, um chefe insuportável e ele estar morto significava que eu estava livre dele. E isto era mais um sinal de que eu era o centro do mundo. Fiquei um pouco envergonhado do meu sentimento egoísta, pois estava vendo um lado positivo da morte de alguém. O fato é que isto confirmou pra mim, que eu era o centro do mundo. Na minha lógica bizarra o Walter morreu para que eu ficasse livre dele. O outro chefe sempre me tratou bem, ficava me perguntando se ele sabia que o Walter morreu por minha causa. Talvez soubesse, talvez não, na dúvida ele não quis arriscar.

Um comentário:

Unknown disse...

"É egoísmo pensar somente em nós próprios como centro do mundo e construir um mundo fechado que nos isola das oportunidades que a vida pode oferecer."