Tenho um estranho sentimento ao ver os idosos, me alegro com eles, gosto de ouvi-los falar, gesticular, tudo o que eles fazem me agrada. Ao mesmo tempo em que me alegro, me sinto mal, por vê-los assim, idosos. Penso logo em mim, como seria a minha velhice, como serei eu idoso. Prefiro não pensar, esta é a minha conclusão final, mas é claro que penso no lado bom, serei eu um velho sábio ou concluirei na minha velhice que nunca serei sábio, no fim isto é uma grande sabedoria. Por enquanto tenho que me contentar com a falta dela. Os jovens são muito cheios de energia e de estupidez também. Parece ser do ser humano a ambigüidade, sempre carregamos elas, o bom e o lado negro da força, a velhice e a sabedoria, a jovialidade e a estupidez, a pressa e os erros, a paciência e a perfeição é tudo uma grande ambigüidade. Uma dualidade terrível, que não podemos separar.
Mas vamos ao que interessa, por que falei dos idosos, pelo mais obvio de tudo, eu vi uma idosa. No campo, roça, enfim este lugar onde as pessoas vivem em hábitos bem diferentes das pessoas da cidade. Aposto que o meu leitor esta pensando, ainda vivem pessoas fora da cidade, te digo que sim, elas ainda existem e são felizes, talvez mais do que você um ser humano urbano, doméstico eu diria. Ah se soubesse como é bom ser um ser humano selvagem veria o que é a felicidade. Infelizmente você que foi domesticado, pela televisão, pela escola, pelas revistas, pela moda, pelo comportamento urbano, pelos pais também urbanos, por seus amigos urbanos, pela internet urbana e por tudo mais urbano, jamais poderá ser um selvagem, você não sabe caçar, se proteger dos seus predadores naturais, você mal os conhece, mal entende a velha frase "Viver é perigoso" ou "A vida é dura", isto pra você é pura besteira. Ir ao supermercado não é nada perigoso, abrir uma lata de ervilhas menos ainda, ligar a televisão é um tanto simples, já ouviu falar de alguém que morreu ao ligar a televisão? Este pequeno eletrodoméstico explodiu como uma granada e matou a pessoa ali mesmo? Pode ter acontecido, mas com certeza a probabilidade é mínima, quase irrelevante como diria os matemáticos é próximo do infinito. Pois bem você esta condenado a urbanidade eternamente, ou melhor, até o dia em que pertencer a este mundo. Mas voltemos à idosa, tinha ido à roça, o campo, juntamente com a minha namorada, fomos visitar uns familiares dela, a idosa era avó dela. Ao me ver a idosa nada disse para mim, depois de um tempo ela comentou brevemente, em poucos segundos, que eu lembrava tal pessoa, agora não me lembro o nome e isto nem é importante. Pois bem eu lembrava alguém, eu sou semelhante há alguém. Não sei quem é esta pessoa, provavelmente nunca o vi, mas somos semelhantes. O fato de nunca tê-lo visto não muda isto. A semelhança existe independente que eu queira, ou que tenha visto o meu semelhante. Isto independente da minha vontade, como muitas coisas em nossas vidas, mas pense bem, não podemos controlar nem quem são os nossos semelhantes. Não sei quanto a você, mas isto me espanta.
Depois ver a idosa e ouvi-la por aproximadamente duas horas fiquei refletindo sobre o que ela falou. Não tudo, pois não era possível, mas apenas ao que me era acessível. Pensava naquele pequeno comentário: "Você parece com fulano de tal". Tive um raciocínio simples e claro, realmente pareço, é um caso de mera semelhança, mas não é um caso único, somos todos parecidos. Isto acontece com todo ser humano do planeta, seja ele ser humano urbano, selvagem, aborígine, indígena, mulato, caboclo, ianque, branco, negro, mameluco, enfim não importa qual ser humano ele é. No fim ele é semelhante há alguém. Pense bem, você é único, mas mesmo assim há um semelhante seu, como uma inspiração, assim como uma música inspira outra, um livro inspira outro, enfim um ser humano inspira outro. Não sei qual é o espanto que isto pode causar a outro ser humano, mas a mim me causa e muito. Nunca pensei que houvesse um semelhante meu andado por ai em qualquer lugar do planeta, é como se tivesse um filho e não soubesse, que ele esta por ai vagando. Acredito que para idosa isto não é nenhuma novidade, ela já sabe do seu semelhante há anos, faz tempos que ela entende perfeitamente "Qualquer semelhança não é mera casualidade", sabe se lá quantos semelhantes ela já viu. Eu quase nunca os vejo, só ouço comentários do tipo: "Você parece com fulano de tal". Alias acho que isto já aconteceu com todo mundo, sempre alguém nos diz: "Você me lembra o João", já viram como elas falam isto com espanto, pois é elas estão pensando no semelhante delas, que estão por ai também.
Depois desta tremenda reflexão, consigo entender a teoria dos seis graus. Vou explicá-la para os desavisados. É uma teoria bem simples, ela funciona da seguinte forma, a sua máxima diz: "Todo mundo conhece todo mundo", ou seja, todas as pessoas do planeta terra, que nele agora habitam, ou vivem, conhece todas as outras. Você leitor conhece todas as outras pessoas do planeta terra, inclusive eu autor. Pois bem, como isto é provado? Bem simples, eu conheço A, e A conhece B, logo eu conheço B em segundo grau. B conhece C, logo eu conheço C em terceiro grau. C conhece D, logo eu conheço D em quarto grau. D conhece E, logo eu conheço E em quinto grau. F conhece G, logo eu conheço G em sexto grau. A teoria é esta, mas falar em axiomas não ajuda, vou dar exemplos de pessoas. Minha mãe conhece o Presidente Lula, logo eu conheço Lula em segundo grau. Lula conhece Bush, logo eu conheço Bush terceiro grau. Bush conhece Osama Bin Laden, logo o conheço em quarto grau. Osama conhece Bono Vox, logo o conheço em quinto grau, errado, o Lula conhece o Bono Vox, logo o conheço em terceiro grau. Bom não irei passar do quarto grau, pois é difícil dar um exemplo do quinto e do sexto, mas acredito que a teoria do sexto grau é quase irrefutável, talvez mais sólida que a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. Isto tudo, graças a mera semelhança ou será a idosa? É realmente difícil não haver nenhuma ambigüidade.
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