Hoje quero esclarecer alguns pontos ou alguns is. Pois bem, primeiro quero dizer que não estou escrevendo sobre a minha vida, nunca escrevi um diário, não gosto e não estou contando episódios que ocorreram necessariamente comigo ou com conhecidos ou mesmo que tenha visto, presenciado, ou ouvido falar. Pensar assim é de uma simplicidade muito idiota. A escrita serve para nos libertarmos, aqui e somente aqui pode se falar o que quiser, inventar o que quiser e contar qualquer história. Se não fosse assim qual seria o objetivo de escrever? Alguns dirão espera ai, e os diários, leis, códigos, jornais, revistas e entre outros meios de escritas, que não tem outro sentido há não ser servir de documentação. Pois bem, não os desconheço e nem os negos. Existe sim uma infinidade de coisas idiotas escritas pelo mundo, os livros didáticos, leis e códigos, documentos oficiais e entre outros.
Agora vamos ser sinceros há algo de prazeroso ao ler o código civil? Documentos confidenciais da guerra fria? Nossa nem falei dos processos, no entanto, há sim certa utilidade em todos estes documentos idiotas, não nego, mas o prazer da leitura deste tipo de escrita eu nego veemente. Enfim na escrita eu vejo a verdadeira liberdade. Mesmo que ela seja um tanto enigmática, já dizia Cecília Meireles: “Liberdade não há quem explique, e não há quem não entenda”.
Pois bem do que escrevo? Objetivamente falando ou capitalistamente falando, não escrevo sobre nada, não há um propósito final, não espero salvar os meninos africanos que morrem agora de fome, não espero acabar com o tráfico de drogas no mundo, não espero combater a lavagem de dinheiro, não espero abolir a corrupção de nosso país, não espero baixar a taxa de homicídio por habitante da grande Belo Horizonte e entre outros objetivos louváveis desta corrente, sei que não sou capaz de realizar nenhum, enfim não vou mudar o mundo e nem tenho esta ambição, alguns tiveram e de fato mudaram, mas estes são os gênios, já eu sou uma pessoa comum.
Primeiro eu escrevo pra mim mesmo, é isto mesmo. O leitor mais assíduo de qualquer escritor é ele próprio, e estou dizendo de qualquer escritor seja ele Shakespeare, Machado de Assis, Mario Quintana, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Dostoievski, Truman Capote, Bernardo Vasconcelos, enfim há lista é infinita, mas independente do calibre do escritor todos terão isto em comum, serão eles próprios os leitores mais vorazes de suas escritas.
E tem algum porque disto, talvez tenha, pois devemos saber que necessariamente as coisas não precisam ter uma razão lógica. Acredito, que o autor ao escrever se liberta, isto no sentido mais profundo que a palavra liberdade pode chegar. Inventa se um mundo único, só entendível para aquele escritor e ninguém mais, as pessoas podem gostar deste mundo, podem apreciá-lo, podem despender tempo e dinheiro, mas nunca o entenderam na plenitude do autor, por mais que se conheça aquela pessoa. As pessoas se desconhecem nelas mesmo, imagina o outro. Por isso o autor se rele, ele pensa: o que eu quis dizer com isto? Depois de refletir com o seu próprio eu, ele lembra vagamente o sentido do que escreveu. Vejam nem o autor chegar à plenitude do que escreveu, esta é passageira, em questão de segundos o autor ira perde-la e nunca mais irar tê-la como teve algum dia. Por isso devemos reler, já dizia Nelson Rodrigues “A arte da leitura é a releitura.”, não é o propósito aqui dizer todos os motivos que me fazem escrever. Só quero esclarecer algumas coisas, que parecem um tanto obvias.
Segundo ponto, não procuro dar sentido ao que escrevo, não sou um livro didático e adoro a falta de conexão lógica das coisas. O inusitado eu diria. Não há como me criticarem pela falta de sentido, não é este o meu objetivo. Alias dizer: ”Não entendi bulafas do que escreveu!”. É um grande elogio, só não é perfeito, pois se entendeu algo é um bom sinal. Afinal de contas algo pode ser inteligível para mim e para outra pessoa pode ser totalmente indecifrável. E qual é o mau nisso? Nenhum é obvio, ou melhor, não há nenhuma canalhice nisto. Outro fato que me incomoda é a ligação do que eu escrevo com o real (isto que consideramos real, sem maiores discussões filosóficas sobre o assunto), quando digo que comi um bife à role, isto não é necessariamente verdade, posso não ter comido o tal prato, posso ter visto alguém comer, um conhecido pode ter me confidenciado, posso ter visto em um filme, seriado, vídeo clipe, ter sonhado, imaginado, enfim a infinitas possibilidades, por que devemos pensar na mais obvia que eu comi um bife à role, será que não viram MATRIX, lembram da cena do traidor, ele disse, não ligo se este bife que estou comendo não é real, isto não importa. Aqui é a mesma historia não importa de onde isto saiu, ou de qual quebra-cabeça saiu o que eu disse ou me disseram. O fato é que não estou escrevendo um diário e ponto final e no i.
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