quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Como é gostoso ouvir um não

Algumas pessoas não sabem ouvir um não. Outras são mais compreensivas. Algumas até si matam por um não. Não consigo imaginar bem como é isto. Mas vamos lá: Paula fala com João que não o quer. João se mata. Muito surreal. Sinceramente João foi estúpido. Pensando bem, talvez não. Afinal de contas depois que as sirenes chegam é muito fácil julgar. Temos de saber os fatos antes das luzes terem chegado. Não sabemos as confissões e promessas de Paula, se é que houve algo disso. No entanto, só sabemos da morte de João.

O ponto é sabemos mesmo ou não ouvir um não. Mas de fato ouvimos um não? As pessoas dizem muita coisa, na maioria das vezes futilidades, estupidez, sacanagens, besteiras, enfim não é nada aconselhável levar alguém a serio. Os seres humanos não podem ser levados a sério. O grande problema é que isto não acontece, parece que estamos fadados a levar os outros a sério. É como uma correnteza que sempre te puxa, não há como sair. Quando nos damos por si já estamos quebrando a cara com mais uma pessoa. E de fato merecemos, não seguiu a regra básica de convivência em sociedade. Não levar nunca alguém a sério.

Pois bem o grande problema é que um leva a sério e outro não. Daí surge às promessas. Alias é muito fácil prometer algo, quando não estamos falando sério. Prometo-te o paraíso, a lua, o céu, montanhas de ouro, fama, tudo o que você imaginar. Se algum dia se atrever em me cobrar parto lhe a cara. E te digo: você é uma pessoa sã? Parece que não sabe diferenciar. Meras palavras ao vento de algo sério. Alias não existe nada sério seu panaca, asno, Homer Simpson. Ninguém pode ser levado a sério. Nem mesmo a paternidade ou a castidade.

E as promessas onde é que ficam? E as conversas reveladoras onde se diz: que você é o quinto ou quarto cara que ela beija. Os desabafos sobre o pai alcoólatra, sobre a infância traumática onde ela era motivo de chacota. E os desafios vividos e vencidos. As dúvidas e indecisões realmente importantes. A vida dos amigos, dos ex-namorados, das pessoas queridas. Uma conversa sem censura e sem obrigação social. Os futuros encontros, as futuras viagens juntos. O almoço feito por ela, inclusive com o prato já escolhido. Enfim para que este papo todo para no fim dizer, que você é um idiota. Por acaso os panacas tem alguma semelhança física aos psicólogos?

Pra mim esta é a grande questão. Dizer não, de fato. Não é nenhum problema. Alias é saudável dizer não, faz bem ao coração. Eu diria que é até gostoso dizer e levar um sonoro não. Daqueles onde não há dúvidas do ato. Não há o que dizer e nem argumentar. Eu não gosto de vinho. Eu não gosto de wisky. Eu não gosto de mulheres. Eu não gosto de futebol. Eu não gosto de correr. Eu não gosto de culinária. Eu não gosto de chocolate branco. Eu não gosto de você. Enfim eu não gosto e pronto. Sem explicações, sem férula. Não há nada que se lamentar ou reclamar. Cada um tem o seu livre arbítrio de decidir pelo o que quiser. E se isto foi feito as claras não há julgamento e nem explicações.

É justamente este o problema, quase nunca isto é feito às claras. Talvez por crueldade, por maldade, por brincadeira, por não levar nada a sério, por ambigüidade, que é algo inerente ao ser humano. São raras as vezes que alguém age de forma curta e clara, por que não dizer grossa. Alias a grosseria é algo mal interpretado. Mal visto pelos demais. Ela é de fato necessária e quando bem usada muito prudente. O que acontece na verdade é que a grosseria é algo mal empregada, como a maioria dos recursos que nos seres humanos dispomos. E talvez por isso seja mal compreendida. Mas sejamos francos ser grosso na hora certa e correta é muito bom nos da uma ótima sensação de discernimento.

Voltemos à objetividade da ação de dizer um não. Evitamos muitas coisas ao dizer um não bem dado. Como por exemplo, a maldita expectativa. Pois por mais que ela nos parta a cara, não vivemos sem ela. E a vida é assim cheia de glorias e derrotas ou sem derrotas e nenhuma glória. Quando digo nenhuma é de fato um conjunto vazio. É bem simples entender isto, imagine um rosto. Um rosto de um ser humano. Vamos imaginar um rosto bonito. Feio não tem graça. Agora imagine se este rosto nunca sorriu, logo nunca ficou triste. Nunca saiu daquele estado. Permaneceu ali com o rosto fixo. Agora pense o contrário. O rosto sempre sorriu, um sorriso plástico, logo já ficou muitas vezes triste. Se ele sorri hoje é por um motivo, este pode melhorar ou piorar. A proporção de quanto ele sorri e o quanto fica triste vai depender, da sorte de cada pessoa.

Desta forma evitamos expectativas, chateações, magoações, aborrecimentos, desespero, inimigos. É não deve ser nada agradável criar um inimigo. Alimenta-lo e cria-lo para que um dia ele te destrua ou no mínimo te arruinar. É como brincar com fogo. Por estas e outras que digo: “Ouça um bom conselho, que lhe dou graça. Inútil dormir a dor não passa”. Meu humilde conselho é: Diga um não gostoso e sem ambigüidades, um não sonoro. Um não sem dúvidas dos dois lados. Um não sem reclamações. Um não que saia de sua boca como um disparo de uma arma de fogo. Mortal, rápido e indolor. Acerte bem no peito, pra não estragar o velório. Afinal de contas, nada mais humilhante do que ser velado com o caixão fechado.

2 comentários:

Jay disse...

Bem, entendo perfeitamente que o mundo gira em torno de expectativas que nós criamos em cima das coisas e concordo no uso do "não grosseiro" e nada cara.
Me lembra uma conversa que tive com um alemão na FALE em que ele dizia que os brasileiros são estranhos pq não aceitam coisas simples com facilidade...no caso dele era um amigo que não queria abaixar o som e ele não entendeu quando o mesmo se sentiu ofendido quando ele pediu pra abaixar.

Pois é, né?
Quase um "comentário post", esse meu.

Anônimo disse...

NÃO aprendi ainda a negar as coisas que mais assim necessitam em minha vida! Mas é só uma fase...