sábado, 14 de fevereiro de 2009

É o que eu sei fazer

As pessoas têm uma constante desculpa no dia a dia e ao longo das suas vidas, os criminosos em especial usam este pretexto com mais freqüência. Vou me utilizar principalmente destas pessoas “criminosas” para falar o que eu sei. Confesso me intriga o crime e mais ainda os criminosos. Fico pensando o que separa os bons dos maus ou os dentro da lei e os foras da lei. Por que um não é necessariamente bom e o outro não é de fato mau. Acredito que esta separação é um pouco mais complexo do que o nosso código penal. Mas sempre penso, seria eu algum dia um criminoso? Será que nunca vou cometer um homicídio? E afinal de contas o que é um crime.

Não consigo concordar que crime seja apenas o que esta no código penal. Afinal de contas, estes crimes variam conforme o tempo e a circunstância. Matar pode deixar de ser um crime, basta pensarmos na guerra. Para efeitos práticos é claro, devemos adotar o código penal e não discutirmos. Mas enfim o criminoso contumaz sempre vai dizer: “É o que eu sei fazer”. Isto acontece com outras profissões também, advogados criminais, jornalistas de tragédias. Enfim é o que eles sabem fazer. É o que eles sabem ser. È justamente isto, que não entendo. Qual atitude pode ser tomada com uma pessoa que só sabe fazer aquilo? O que fazer com um profissional, que teve sua profissão extinta? Enfim é o que fazer com o lixo humano.

Sempre me incomodou o crime perpetuo, ser condenado pela eternidade ou pro resto da vida, não deve ser nada confortável. Imagine o relato de um homem depois de morto, digamos que este homem foi condenado a prisão perpetua aos vinte e um anos. Então ele conta uma história mais ou menos assim: Tive uma infância ruim, fui criado por péssimos pais e logo me abandonaram, depois morei na casa de vários parentes. Aos quinze anos não sei por qual motivo, já me virava e não tinha casa. Não tinha estudo algum, acredito que parei na quinta série do colegial. Conhecia os marginais do bairro e convivia com eles. Naturalmente cometi alguns delitos e aos vinte um anos cometi um grande crime. Fui condenado à prisão perpetua e morri aos sessenta e quatro anos. Alguns funcionários da penitenciaria compareceram ao meu enterro e foi só. Não deixei filhos, não escrevi nenhum livro ou mesmo algumas páginas, nunca trabalhei e nem mesmo um lápis eu construí. Enfim o mundo não percebeu a minha chegada e nem a minha saída. Sou um eterno criminoso.

No final das contas a condenação perpetua é mais comum do que imaginamos. Quantas pessoas eu já condenei eternamente. Garanto que foram muitas. Algumas nunca mais troquei nenhuma palavra. É o que eu chamo de silêncio perpetuo. Outras pessoas foram condenadas como os chatos perpétuos Enfim as condenações são diversas e são feitas de várias formas. Mas qual é lógica da eterna condenação? O erro eterno, isto existe? Penso que todo erro tem sua conseqüência, mas ela não pode ser algo infinito. Além do mais é muito fácil resolvermos os nossos problemas desta forma. Defeito de fábrica, solução simples: Joga fora.

É o que eu sei fazer. Justifica-se tudo assim, de uma forma simples e objetiva e isto serve para todos os lados. Para os criminosos, os trabalhadores, os malandros federais, os digníssimos magistrados, a sociedade. Enfim é o que eu sei fazer. Sei matar, sei roubar, sei condenar, sei prender, sei escrever, sei tirar fotos, sei fofocar, sei imitar, sei mentir, sei dizer bobagens, sei vender o meu corpo. Vamos jogar todos os nossos erros em nossa incompetência de mudar? Somos mesmos limitados assim? Isto me cheira a comodidade. É muito mais cômodo continuarmos o que está por ai, mudar a pergunta é muito mais complicado, que a resposta.

É engraçado eu não sei o que fazer, não sei como me comportar. Na verdade me perco no mundo das certezas. O mundo é cheio de verdades e de soluções corretas. Não há dúvidas do perigo que um criminoso pode trazer. Afinal de contas antes de ser criminoso, por mais reincidente que seja a pessoa. Um dia ela foi um cidadão de bem. E o que fez esta pessoa mudar? Onde é que erramos se é que houve algum erro. Afinal de contas os criminosos são de certa forma admirados. É uma admiração discreta e velada, disto não há dúvidas, mas ela existe esta lá. Basta uma observação mais atenta.

Vem-me na memória agora o grande falsário Frank Abagnale Jr é inegável que ele tem admiradores por todo o planeta. E qual é o motivo dele ter pessoas que o admiram? As grandes fraudes que ele cometeu ora bolas. Este é o único motivo. Ele escreveu um livro sobre suas arte-manhas, vendeu milhões, virou um filme de um famoso diretor e ainda por cima ganhou milhões prestando consultorias de como evitar fraudes. E aquela famosa frase: “O crime não compensa”. Acredito que não deu muito certo com Frank esta máxima. Aos malandros federais muito menos.

E no final das contas, é melhor ganhar dinheiro fácil ou com muita dificuldade? Prefiro a lei do menor esforço, quem prefere o maior desgaste possível ou não é filho de Deus ou não tem amor próprio. E justamente isto que o crime oferece: dinheiro fácil, vida boa, status social, respeito e temor. No fim das contas é o que todo mundo quer ter. Acredito que ser criminoso não é tão desejado ou tão concorrido, por causa do medo. Afinal de contas o crime é perigoso. O bom criminoso sabe que mais cedo ou mais tarde ele será preso. Não por que a policia seja eficiente, mas é aquela velha história. O policial pode errar mil vezes, o criminoso não pode errar nenhuma. Quanto isto acontecer ele é preso e o policial é o herói. Enfim as pessoas no geral são medrosas e não querem correr riscos ao nível de um criminoso. Além do mais a vida na prisão pode ser terrível para a maioria dos cidadãos de bem. Fica então a pergunta não somos criminosos por que não queremos ou por que não sabemos fazer.

Parece que no mundo das verdades, tudo se tornou muito confuso. No fim temos que escolher uma profissão, uma forma de ser no mundo. E quando digo ser, leia se grana. Pois é isto que nos faz ser alguém. Nossos valores são calcados nisto e se há dúvidas, basta fazer o teste. Saia de casa sem a sua preciosa carteira e me diga como foi o seu passeio. Estas imposições de vida, que são barreiras intransponíveis e nos obrigam a ser alguém e fazer algo. E na corrida da vida só importa chegar até o final. Não adianta, temos prazos a cumprir, contas a pagar, cadáveres pra enterrar, filhos pra criar, monografias por fazer, vestibular pra passar, emprego pra viver. Enfim, é o que eu sei fazer ou é o que tenho de fazer.

Um comentário:

Renato Ziggy disse...

"Fico pensando o que separa os bons dos maus ou os dentro da lei e os foras da lei."

Interessante que essa sua frase me fez lembrar o que Cristo disse: todos nós, humanos, somos maus. Ele se referiu ao pecado, ou seja, todos nós somos falhos, cometemos erros. Mas o que diferencia uns dos outros é a moral e a ética, a criação, as condições em que a pessoa viveu. Por isso cada um faz uma escolha. Uns comentem erros abomináveis aos olhos da sociedade. Outros não. Faz parte da vida.

E a gente tem que conviver com isso, com o erro, com a imperfeição. O lance é quem luta pra melhorar, quem luta pra piorar e quem cruza os braços, não fazendo nada pra mudar. E é isso, velho. Hehehehe!

Abraço!