sábado, 7 de março de 2009

Você não existe pra mim

Como é bom voltar à inspiração, sei que a minha única leitora não vai acreditar. Pode parecer mero recurso estilístico, mas passei por período um bem amargo. Vamos ao que interessa.

Há pessoas que nos encantam, nos deixam transtornados, amargurados, desesperados ou até mesmo a beira da loucura. E tudo isto pode acontecer sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso prévio. Aquela frase: o que é combinado não sai caro. Não funciona bem neste caso. Assim como o Big Bang, onde não sabemos por que começou e muito menos o motivo da continuação, assim é com estas pessoas que nos cativam. Quando vemos já estamos sedados e encantados por aquela pessoa. No primeiro momento isto pode parecer ótimo, formidável, excelente. Mas como quase tudo não é o que parece ser. Isto pode ficar muito mal no final.

Lembro agora de uma linda garotinha que eu conheci. Na época era um garoto também, apenas uns dois ou três anos mais velho. Ela era linda tinha uns quinze anos de idade, branquinha, cabelos ruivos e lisos, olhos cor de mel, lábios finos, algumas pintas no ombro e um lindo corpo. Ela também nunca dispensava uma boa maquiagem e um formidável figurino. Não existia possibilidade de eu não me encantar por ela. Além de tudo, ela tinha um ótimo papo. Em poucas palavras, nos entendíamos muito bem. Como já disse me encantei com ela em questão de poucos segundos, mas houve algo que ela me contou, que nunca mais esquecerei.

Não lembro bem o nome dela, acho que era Clarice ou Clara. O que interessa é que ela me encantou, me deixou a beira da loucura, mas no final eu sobrevivi. A história que ela me confidenciou era sobre uma doença infantil que ela teve. Catapora ou sarampo, pensando bem acho que foi caxumba. Enfim sei que esta doença foi um pouco mais grave do que o habitual e por causa desta complicação, ela perdeu noventa por cento de visão do olho direito. Nesta época ela tinha uns dez anos de idade. Com o passar do tempo este olho dela, perdeu os movimentos e ela usava o cabelo para tampá-lo. Praticamente um tapa-olho natural. Passado um tempo, ela foi ao médico e ele fez a observação sobre a mania de esconder o olho com o cabelo. Por incrível que pareça, ela não percebia que estava fazendo isto. Era algo quase que inconsciente. Mas depois desta “bronca” do médico, ela chegou em casa e passou a treinar o movimento deste olho na frente do espelho.

O treinamento era bem simples, ela ficava bem próxima do espelho, com o dedo indicador fazia movimentos para que o olho acompanhasse. Inicialmente o olho quase que não obedecia, ele ficava lá parado. Depois de uns dias treinando o olhou começou a responder. Ela fez isto por três meses, com isto o olhou voltou a ter movimentos normais como o esquerdo. Ela nunca mais teve problema com este olho, ele apenas continuou um pouco “cego”, mas em perfeita harmonia com o outro, pelo menos em questão de movimentação. Depois disto ela nunca mais precisou do seu tapa-olho natural. Se antes de ouvir esta história eu já era encantado com ela, depois disto ela entrou pra eternidade. Mas não foi isto o que mais marcou.

O que de fato ficou foi o sentimento lindo que eu tinha por ela, mas que não foi correspondido. É claro que houve sim uma correspondência, mas o dela foi fugaz, passageiro. Como um perfume logo o cheiro se foi. Eu permaneci ali encantando, bêbado por ela. Mas nada disto fazia muito sentido pra ela, pelo menos foi assim depois de um tempo. Já se passaram décadas que isto aconteceu e até hoje eu sou encantado por ela, não sofro por isto é apenas a forma que me lembro dela. Não quero falar de uma pessoa em especial, ao longo de nossas vidas são muitas as pessoas que nos encantam, Clara ou Clarice foi apenas mais uma e não estou dizendo encantar apenas no sentido amoroso. Há amigos, colegas, políticos, celebridades, atletas, escritores, músicos, um universo de pessoas que nos cativam.

Encantar é assim mesmo, sem explicação. É como gostar de azeite. Sabemos que é ótimo, um verdadeiro néctar dos Deuses, mas qual é a explicação para isto? É mais ou menos assim, que acontece com as pessoas. O que torna tudo ruim é quando não somos correspondidos. Estamos ali olhando pra pessoa e ela não nos olha. Mandamos uma carta pra pessoa e ela não responde. Fazemos mil elogios e ela nem se mostra grata. Você a cheira e ela nem sente o seu cheiro. Você beija e ela não sente. No final das contas você esta encantando por alguém, que nem sabe da sua existência.

Uma vez conheci uma mulher em uma cidade há cem quilômetros ou centro e trinta quilômetros de distância da minha cidade natal. O nome dela era Lorena ou Gabriela, não me lembro bem. Foi um gostar instantâneo, inicialmente isto aconteceu com os dois. Ela me adorava e eu também. Ela tinha um ótimo senso de humor, um lindo sorriso, uma linda boca, cabelos cacheados e pretos e era muito meiga. Nunca vi mais frágil do que ela, o meu encanto por ela era lindo. Eu não cansava de elogiá-la, pra mim ela era quase perfeita. Depois de um tempo ela se cansou de mim e deixou de me olhar, de me ver, de conversar por fim eu era um estranho. Um verdadeiro desconhecido, enquanto pra mim ela era tão interessante quanto a Natalie Portman. Pra ela, eu não passava de um mendigo, destes que você vê deitado na rua, há dias sem tomar um mísero banho e com uma caneca do lado para as pessoas deixarem suas moedinhas. Ao passar por mim, nestas condições. Nem mesmo esmolas ela me daria, passaria ao meu lado e ignoraria a minha presença, nem mesmo um olhar discreto e rápido eu receberia.

Tem pessoas que a gente cisma com elas e nem sempre ou quase nunca elas cismam conosco. Então fica aquela coisa inútil, que não serve de nada e no fim das contas nem existiu. É muito engraçado quando isto acontece. Sabemos a vida da outra pessoa, o que ela fez, o que deixou de fazer e o que faz atualmente. Com quem casou, namorou, noivou, quantos filhos teve, onde morou, onde nasceu, o que já escreveu, qual música gosta de ouvir, quais livros são de cabeceira, quantos amores ela já teve. No entanto, quando alguém pergunta pra esta pessoa sobre você. Ela simplesmente, não sabe de quem se trata, ou seja, você não existe pra mim. Ela não sabe o seu nome, de onde veio, o que já fez e muito menos o que vai fazer. E nem desconfia o quanto ela é importante pra você. Assim há muitas pessoas que te marcam eternamente e nunca mais vão sair da sua memória, mas esperar que isto aconteça também é um tanto infantil demais.

Alias não importa que você, não exista para a pessoa. O sentimento de carinho não deve fenecer por meros detalhes. Tem pessoas que vimos umas cinco ou quatro vezes na vida e isto foi o suficiente para você lembrar-se dela pra sempre em sua mente. E não é aquela lembrança defunta, muito pelo contrária, é viva, forte e singular. E estas coisas podem acontecer com quem você menos espera, pode ser com a sua vizinha, com alguém que mora longe, com alguém que viu uma única vez ou algumas vezes, com uma pessoa que você atendeu no trabalho ou mesmo com uma que você viu no ponto de ônibus. Neste mundo de possibilidades é difícil mensurar quem vai deixar de existir ou não pra você.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo
Emocionante
Não sabia que escrevia tão bem!
Aliás...não sei nada sobre vc, não é mesmo? rsrsrsrs
Abraço

ju vaz disse...

realmente... em minha vida tive alguem por um tempo tão curto, mas que será eterno... e ele sempre existirá pra mim, seja perto ou distante...
otimo texto!

Anônimo disse...

é clichê, mas há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia.

Procure um livro chamado Banalogias. O autor se chama Francisco Bosco. Vai gostar.

Unknown disse...

Estive com um homem q me encantou...o amor era tanto q me tornei cega...esqueci de como era importante gostar da gente em primeiro lugar. Movi terras e céus por ele, nunca me deu o valor,a única coisa q eu pedia prá ele era ter o mínimo de respeito por mim. Mas acho q era pedir muito..mas o amor materno falou mais alto, agora sim aprendi q tenho q realmente amar a mim e aos meus filhos em primeiro lugar.Só assim serei feliz!!