domingo, 1 de março de 2009

No fim ninguém é feliz

Atualmente vivemos com a síndrome do pânico, viver sempre foi perigoso, mas ultimamente prega-se que é ainda mais difícil manter-se vivo. Nunca se sabe quando vai haver um novo ataque terrorista, um homem bomba, uma chacina, um homicídio ou até mesmo um seqüestro relâmpago. O mais catastrófico disto tudo é que todos são suspeitos. É como um homicídio que ocorreu em uma mansão, onde o mordomo e todas as pessoas presentes sãos suspeitas. Além disso, todos são alvos potenciais, nunca se sabe quem vai ser a vítima, antes o criminoso era mais seletivo, escolhia os homens de terno, hoje não importa a vestimenta.  

             Como temos o livre arbítrio de agirmos conforme bem entendermos. Depois temos a conseqüência de nossos atos. E nesta onde do perigo constante a frase: “Salve-se quem puder”, entrou definitivamente em voga. É a famosa lei, olho por olho, dente por dente. Daí cada um com o recurso que tem em mãos da o seu jeito de se virar. Alguns se tornam Policiais, outros bandidos, alguns políticos, outros lixeiros, mendigos, médicos, no fim todos querem sobreviver e viver conforme o seu luxo permite. Cada pessoa conforme sua posição social tem a sua “segurança”, mas no fim todos são vitimas potenciais. É como costumo dizer: qualquer pessoa pode ser morta.

             Mas como eu ia dizendo as pessoas fazem a sua segurança, no entanto, acaba existindo pequenos grupos, que se organizam para facilitar o combate. Há diversas formas de associações destes grupos. Uma bem comum é o circulo social comum. É bem engraçado, mas não percebemos como fazemos isto quase que involuntariamente. Nossos amigos, conhecidos e entre outros são pessoas muito parecidas conosco, gostam das mesmas coisas, fazem as mesmas atividades e tem empregos similares, quando não iguais. Tudo bem que isto é muito natural, o problema é que rejeitamos as pessoas diferentes da nossa tribo e fazemos isto na maior tranqüilidade possível. É claro tudo sem nenhuma educação, hoje em dia ser educado não é nenhuma qualidade. Isto é para os fracos.

            Nesta luta selvagem e dificílima os homens tiveram uma geniosa idéia, inclusive isto é algo muito antigo. Cercar as cidades com muros e/ou fazer o mesmo com os criminosos. Fazemos um buraco e os prendemos, assim eles vivem lá como ratos, pois é isto que eles são. Como acabei de dizer, esta forma de separas as pessoas por muros é algo muito antigo. E o muro nos dá uma falsa sensação de segurança, as pessoas esquecem que podemos treinar e pula-lo. Mas se ver o muro nos conforta, então vamos por um, bem à nossa vista.  

            Esta coisa de murar as cidades durou por muitos anos, em meados do século XVI e XVII isto entrou em declínio. No entanto, em pleno século XXI surgiram os condomínios fechados de luxo. Neste caso são formadas pequenas “cidades” onde os habitantes têm um alto padrão de vida, ou seja, são ricos. Esta divisão econômica e de certa forma, cultural e política tem se a impressão de que todos irão viver harmonicamente. As pessoas pensam o seguinte, não haverá mais brigas, roubos, furtos e nem barracos. É a terra prometida, onde jorra leite e mel, ou seja, é o paraíso.

            Tudo se explica assim, os pobres furtam, os pretos ainda mais, os latinos são burros, os africanos primatas, os americanos visionários, os europeus intelectuais, filósofos, os asiáticos esforçados, dedicados e disciplinados. Então pela mera localização geográfica e social sabemos quem é quem. É como um baralho de cartas marcadas. Então se vivemos com vizinhos estudados, qualificados, bem preparados, ricos, com um amplo conhecimento cultural e bem educados.  Não há com o que nos preocuparmos, não iremos ser assassinado, roubado, furtado pelo vizinho, muito menos trapaceado. Nesta vizinhança não há espaço para o velho um sete um, o malandro aqui não tem vez.

            Então neste lugar dito o paraíso, é onde viveremos com pessoas do nosso nível. Lá que criaremos os nossos filhos, lá é que eles vão ter amigos, iram pra escola, pro clube, por ponto de encontro da “galera”. O lugar é bonito, luxuoso, bem cuidado, vigiado por câmeras e cercado por um imenso muro. Eu diria que é uma prisão cinco estrelas. O mais engraçado é que esta prisão é voluntária, ninguém ali cometeu um crime pra esta ali, ou pelo menos, ninguém ali foi condenado por algum crime. São pessoas “livres” que só querem ter uma vida confortável e segura, afinal de contas que mal há nisso? Estas pessoas não têm culpa se os outros, são um bando de bárbaros, ratos e violentos, capazes de matarem, roubarem e fazerem o que até o Diabo dúvida a qualquer momento.

            Os burgueses pensaram no mais obvio, é como costumo dizer, pensar simples é a melhor solução. Então se não posso conviver com estas “pessoas” sem lei, sem educação, estudo e sem princípios, eu mesmo vou me isolar delas vivendo em um condomínio luxuoso com pessoas iguais a mim. Incrível como esta solução é tão brilhante e simples. O grande problema é que não pensaram no mais obvio ululante. Por mais que estes dois mundos estejam separados. De um os ricos, bonitos, limpos e bem vestidos. Do outro os pobres, sujos, feios e mal vestidos. Pois bem, façam muros, coloquem câmaras, vigias, guardas, viaturas, o que for. Nada vai impedir o contato entre os dois seres humanos. Isto é inevitável, cedo ou mais tarde vai acontecer. E não podemos esperar que pessoas de mundos diferentes tratem o outro bem. É a mesma coisa de pedir para um leão tratar bem um javali.

            A minha pergunta é: No fim quem é feliz. É possível comer um caviar, sabendo que algumas pessoas comem os restos dos porcos? No fim ninguém deixa de comer o caviar, as pessoas não ligam os fatos desta forma. Afinal de contas por que o azeite que eu uso interfere no prato de comida de um miserável? É realmente não há conexão entre estes fatos. Posso viver a vida que eu tiver condições de pagar, afinal de contas vivemos em mundo onde todos são iguais e se tornam desiguais pela iniciativa de cada um. Quem mandou não estudar? Quem mandou não trabalhar? Quem mandou ter este tanto de filho? Vejam a culpa do miserável ser miserável é dele e de mais ninguém. Eu ainda tenho que gastar rios de dinheiro, para viver em um condômino luxuoso, onde tem segurança máxima. E no fim, eu sou feliz e de vez em quando tenho o importuno de ver um mendigo, que me pede esmola ou me mata.   

Um comentário:

Unknown disse...

Excelente texto! Incrível que nós seres humanos, esquecemos que o final é idêntico para todos...
e, a única coisa que realmente carregamos no fim da vida é a sabedoria ou melhor a cultura...
isso ninguém tem o poder de nos tirar.