Se tem uma coisa que gosto do Nelson é sua obsessão. Ele não tinha nenhuma vergonha de ser obcecado por determinados assuntos e repeti-los sem nenhuma vergonha na cara. Como o próprio Nelson dizia, ele poderia ficar um ano falando do comício de 1º de maio, poderia fazer um tratado sobre a passeata, um livro, um quadro. Um assunto não acaba para Nelson, leiam em suas próprias palavras: “E de fato, sou um homem de fixações inarredáveis. Insisto em assuntos e figuras de nossa época, com uma pertinácia quase doentia”. E eu tenho obsessão pelo próprio Nelson. Leio ele, interpreto ele, penso no que ele fez, vasculho toda sua obra de fato é doentio minha fixação pelos brilhantes textos do Nelson.
O mais trágico desta obsessão é que não tenho um traço genético do Nelson. Nada em mim lembra o Nelson é um destes paradoxo incríveis. Nem mesmo a Minha Única Leitora disse pra mim ao menos uma vez, que lembro o Nelson, ninguém me disse isto, nem mesmo ela. Nem mesmo eu reconheço algo em mim que seja do Nelson. Para todos não tenho nenhuma semelhança com ele. Como explicar que minha obsessão é o Nelson. Um escritor que me fascina tanto, mas ao mesmo tempo não consigo transferir nada desta admiração para o papel. Sorrio como o Nelson, sou sarcástico como o Nelson, de fato tenho obsessão pelo Nelson, mas isto não se traduz em fatos concretos.
O Nelson me lembra a Sheyla. Uma mulher bonita, de poucas palavras e de poucos olhares. O fato é que não me curei até hoje desta obsessão, lembro do Nelson e lembro de Sheyla. Tenho obsessão pelos dois, um me traz prazer a outra desgosto e dor. No entanto, um está terrivelmente associado ao outro. Algo como prazer e dor. Sheyla não me quis, nem mesmo prestou atenção em mim. Este episódio me deixou de orgulho ferido e nunca aceitei o fato de que ela nem mesmo conversou comigo, nem por quinze minutos.
Além de obcecado por Nelson sou um defensor das minhas opiniões. A minha opinião é como um filho meu e como bom pai, que fui. Não deixo as minha crias desamparadas, quanto maior forem as críticas às minhas opiniões. Com mais afinco vou defende-las. Ao fazer isto, tenho um pouco de mim o suicida. Já disse que não há nada mais mentiroso, do que uma carta de um suicida. É com certeza, o documento mais falso que há no mundo. Mas a palavra 'suicida', vai além de um corpo estirado ao chão. Neste caso falo das pessoas de opiniões próprias. Especie cada vez mais em extinção no mundo. Hoje em dia, há uma série de coisas que pensam por você, televisão, faculdade, rádio, internet, jornais, enfim é incontável. O fato que hoje em dia, nenhum ser humano do planeta terra precisa pensar, isto não é vital para a sobrevivência de alguém. Não precisamos nem mesmo saber o que é leste e oeste. Pontos cardeais e uma série de conhecimentos como plantar um tomate, um feijão, como conservar carnes e outros tipos de alimento, que hoje se tornou inútil para qualquer tipo de sobrevivência humana. Nem mesmo precisamos saber como é a reprodução humana.
O fato que ter uma opinião própria o torna uma pessoa suicida. É uma atitude no mínimo maluca. Hoje ter opinião própria se tornou sinônimo de Nelson. O fato que ninguém tem mais opiniões próprias do que Nelson. Apesar de suas obcessões por certos assuntos, como o Antonios, D. Helder, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, os idiotas, a unanimidade, ele, Nelson é original em tudo. Não conseguimos dizer de onde ele veio, quem ele copiava. Alias, Nelson não copiava ninguém, nem mesmo D. Helder. Nelso teve uma vida trágica, mas soube melhor do que ninguém transformar toda tragédia em literatura.
Alias toda tragédia presenciada pelo Nelson virou literatura, suas frases imortais como “Toda mulher gosta de apanhar”. Está surgiu após Nelson ver um vizinho seu, considerado pela vizinhança como um banana. Surrar a esposa em plena via pública com cinto na mão. As mulheres pediam para o marido bater mais, após a surra a mulher beijou os pés do marido e depois deste dia, teve orgulho do seu marido ex-banana. Nelson chegou a conclusão trágica “Toda mulher gosta de apanhar”. O fato que tudo na mão de Nelson se dramatizava, até mesmo a merenda de levar para a escola.
Mas nada é mais dramático do que a própria vida de Nelson. Sua literatura densa e polemica não foi capaz de superar a própria vida do autor. O assassinato de seu irmão Roberto, testemunhado por Nelson dento da redação do jornal Crítica cometido por Sylvia é um fato trágico que o acompanhou por toda sua vida. Como se não bastasse, perdeu o pai, Mário Rodrigues, meses depois da morte de Roberto. Este morre por puro desgosto da tragédia. Como se não bastasse toda tragédia, Nelson passa fome e ainda descobre-se tuberculoso. Anos mais tarde, após sucessos com Vestido de Noiva, Nelson vê o seu filho Nelsinho a lutar contra a ditadura, vivendo na clandestinidade. Regime o qual, Nelson apoiava, mas o seu filho não. Pra minha sorte todas está tragédia tornou se em uma bela literatura.
Falei de polêmica, que atualmente esta falecendo, as novas gerações não querem saber de nada polêmico. Nelson foi polêmico em toda sua vida, mas não sem motivos. Hoje temos vergonha em ser polemico, melhor ser um canalha do que polemico. Até mesmo um corrupto goza de uma reputação social mais confortável. Ser obcecado é outro grave defeito, mesmo que seja pelo Nelson e sua densa literatura. No mundo de hoje, o melhor mesmo é não refletir e muito menos polemizar. Viva sua vida da mesma forma que um cão, sem maiores questionamentos e algazarras, nos dias de hoje Nelson não existiria, não há espaço para o drama.
2 comentários:
Hmm, você conseguiu expressar aos leitores como Nelson era de uma genialidade incrível. Cético para alguns, ácido para outros e ninguém pode negar sua inteligência e genialidade, sempre foi visto e analisado pelo seu lado mais polêmico, extravagante, erótico (que por vezes beirava a pornografia - para os puritanos de plantão). Chris.
Nossa que texto! Adorei tudo o que li, na verdade li seu blog quase todo daqui do escritório. O serviço? Bom, ficou para terminar na segunda-feira rsrs. Espero que nunca perca a motivação, os textos são inteligentes, realistas, fiquei me perguntando: Será que ele lê Drummond? A visão de mundo é bem parecida. Abraços... e PARABÉNS!
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