segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Tem que ser assim

Sempre vai ter de ser assim? é uma boa pergunta, sendo assim não há respostas, ou pelo menos não temos uma conclusão. Quando as coisas vão bem, não nos questionamos muito sobre a sina, que persiste em nos perseguir. Alias não valorizamos a sorte, só mesmo quando estamos com muita azar é que lembramos como é bom ter sorte. Faz sentido, se formos olhar que somos seres humanos e como tal naturalmente cometemos estupidez. Logo é muito obvio que não demos nenhum valor a sorte.





Eu já disse aqui sobre o Alma Seca. Dispensa comentários a dose de maldade que ele possui dentro de si, um lado negro difícil de suportar. Será que ele tinha de ser assim? Se o Alma Seca tivesse em um lar estruturado teria sido diferente? Difícil de saber, mas Alma Seca tem uma pessoa incomum e ao contrário dele esta pessoa é de bom coração, ou pelo menos deixou pistas quanto a sua bondade. Estou falando de Sandro, uma pessoa que Alma Seca nunca viu pessoalmente, mas teve muita inveja dele.





Sandro é um criminoso, foi internado várias vezes em sua adolescência, na maioridade foi preso e passou por diversas carceragens. Ele sempre esteve no crime, mas nunca foi mau. Seu espirito é bom, o mau não lhe faz bem, não lhe agrada. Sandro nunca desejou o mal de ninguém, nunca teve inveja, nunca ficou satisfeito por roubar alguém, apesar de ter feito isto várias vezes. O crime sempre esteve em Sandro, mas Sandro nunca foi do crime. Estava ali por circustâncias, por uma sina que o perseguiu durante toda a sua curta vida. É claro que não estou defendendo o crime por uma questão social, apesar de ser, o fato é que os criminosos deviam entender que a maioria das pessoas batalham para ter algo confortável em suas vidas. Eu não sou o caso, sempre tive sorte, desde a família que nasci e em tudo o que eu fiz, mas sou uma exceção e sei disto. No entanto, milhares de pessoas percorrem vinte, trinta quilómetros até chegar ao local de trabalho ficam lá o dia inteiro, não tempo nem para dar uma ligação e ainda correm o risco de ficar no meio do caminho.





Sandro quando tinha seis anos viu a sua mãe gravida de cinco meses ser assassinada na sua frente, em um assalto ao Bar/mercearia que ela era proprietária. Três assaltantes pé de chinelos levaram uns tostões de sua mãe e não satisfeitos a mataram com golpes de facas, deixando o objeto do crime cravado nas costas da mãe de Sandro, que em desespero e agonizando pelos ferimentos caiu e aumentou ainda mais a sua dor com a faca cravada em suas costas. Sandro viu tudo, inclusive o seu futuro irmão agonizando na placenta por falta de oxigênio que a mãe já não lhe supria mais.
Sandro ainda seria uma das vítima sobrevivente da Chacina da Candelária, o garoto abandonado pela sua própria sorte após o assassinato de sua mãe, sobreviveu por muita sorte deste terrível episódio em pleno centro do Rio de Janeiro. As autoridades não lhe apararam, ele não teve qualquer apoio psicológico em nenhuma das duas tragédias, Sandro sempre esteve entregue a sua própria sorte, sempre foi midiático, mas sempre solitário.





No dia 12 de Junho de 2000, Sandro faz sua ultima aparição em público. Em cadeia nacional, ao vivo, em quase todas emissoras nacionais de TV aberta do país esta Sandro, como personagem principal. É ele quem dá as regras, Sandro se viu em uma posição que nunca pensou que fosse alcançar, mesmo que fosse fazendo o que ele não sabia fazer, ou seja, praticando maldade contra pessoas inocentes. De repente, Sandro se viu inundado de jornalistas, fotografos, Rede Globo, Bandeirantes, SBT, Folha de São Paulo e diversos outras mídias. O invisível tomou conta do noticiário nacional. Sandro ficou eufórico e nem sabia o que fazer diante da situação. Sandro era agora o crime de mais visibilidade do país e a troco de quê? De nada, Sandro não ganhou e nem ganharia nada com o sequestro do ônibus 174. Seria apenas o fim apoteótico de sua curta vida. Morreria logo depois de uma tremenda lambança de um ofícial do BOPE ( Batalhão de operações Policiais Especiais da Policia Militar do Rio de Janeiro, em outras palavras, a Tropa de Elite). O Policial da Tropa de Elite dá um tiro a  queima roupa em Sandro, mas erra o alvo e acerta a refém. Detalhes que o Policial fez o golpe da municiar a arma momentos antes do disparo, movimento suficiente para chamar a atenção de Sandro que ao virar se ‘esquiva’ do tiro. Sandro sem nenhum ferimento é colocado na viatura entrando com ele mais três Policiais, inclusive o autor do disparo. Sandro morre no caminho sufocado pelos Policiais, sufocado pelos Agentes do Estado, sufocado pela sociedade, sufocado pelo Governo do Rio de Janeiro, sufocado pelo estado Brasileiro.





Sandro não é heroi e nem simbolo de nada, a sociedade o despreza como sempre fez durante toda a sua curta vida. Muitos aplaudiram a morte dele por sufocamento dentro da viatura da Policia. O sequestro do ônibus 174 é divulgado pelo mundo inteiro e se tornou um celebre caso de tudo o que uma Policia não pode fazer em um caso de sequestro. É um perfeito manual do que não se deve fazer, ironicamente, Sandro mais uma vez vê o Estado falhar, falhou no assassinato de sua mãe, falhou na Chacina da Candelária e agora falha no sequestro cometido por Sandro, que não foi planejado, foi como toda a vida de Sandro, um acaso, uma sina do que tinha de ser assim.





Alma Seca como já disse é um sujeito esquecido. Perverso, maldoso, mas esquecido. Abandonado em sua própria maldade. O que o Sandro fez de maldade em sua curta vida, Alma Seca fez em uma tarde. Um se tornou conhecido, o outro é inexistente. Apenas a vida de criminosos unem os dois, um é mal o outro é bom, na medida do possível. Alma Seca daria tudo para estar no lugar de Sandro, dentro do ônibus 174, ele mataria todas os reféns, um a um, em cadeia nacional o Brasil iria ver a violência escancarada. Sandro não matou nenhum refém sequer, parece que acertou dois tiros na refém, na qual o Policial acertou, quem matou Sandro ou o Policial de Elite, que errou o alvo, acertou a refém e criou uma situação de pânico? Para o governo do Estado do Rio de Janeiro foi Sandro, já eu tenho as minhas dúvidas.





No enterro de Sandro compareceu uma única mulher, que o adotou como filho, sua mãe de coração, uma cena difícil de não se emocionar. Sandro só tinha esta pessoa na face da terra capaz de demonstrar qualquer sentimento humanitário com a sua pessoa. Sua tia disse que não compareceu por medo. Medo da opinião pública, de ser linchada por populares, de ter o seu rosto em todos os jornais do Brasil. Medo este que a mãe de coração de Sandro não teve, ou pelo menos não se preocupou com isto. Ela não foi linchada, não foi mal vista por ninguém. É impossível dizer uma palavra contra esta mulher, é preciso ter muita coragem para apoiar alguém na situação de Sandro. E nem mãe biológica de Sandro ela foi, o conhecia há pouco mais de dois anos, mas o adotou como filho, tentou dar a ele todo amor que ele não teve. Foi a única pessoa capaz de tentar tirar Sandro de sua sina maldita, de uma vida de percalços, de suplicio, de sofrimento, de tragédias.





Assim como Sandro tenho uma sina. Não consigo me agradar, por mais que eu me esforçe. Sou um frustrado na arte de escrever, como dizia Truman Capote “Isto não é escrever. Isto é bater à maquina”, melhor definição sobre o meu dom de escrever não conseguiria dizer. Nem Nelson Rodrigues conseguiu definir tão bem de um idiota como eu. Eu sempre pensei na minha juventude que com a minha velhice conseguiria me superar, mas os anos foram passando e a minha superação não chegou. O que me restou foi a minha única leitora, minha indignação com a incompetência das autoridades públicas e ouvir o babaca do Arnaldo Jabor, que apesar de ser um idiota ululante, merece respeito e além de tudo, merecer ser ouvido. Ele é o tipo de idiota, que eu não concordo, mas gosto de ouvir. Tudo bem que temos, certas afinidades, temos preferências políticas equivalentes, temos repudio as autoridades públicas e sempre que podemos estamos apontando as falhas dos órgãos públicos. Mas por mais, que eu concorde com o Jabor, ele vai continuar sendo um eterno idiota.





Estava falando de Sandro, talvez minha única leitora esteja curiosa com o que aconteceu depois do sequestro do ônibus 174. Bom, não aconteceu absolutamente nada. Enterraram a refém morta no local, Sandro que foi sufocado dentro da viatura Policial e ninguém foi responsabilizado de nada, nem mesmo a família da refém recebeu qualquer indenização, já que quem a matou foi Sandro, pelo menos esta é a versão oficial. Parece que tudo voltou ao normal, Sandro  enfim foi descartado como o lixo que sempre foi para a sociedade,  um criminoso, que cursou até a 2 ª série do primário, um deliquente, que passou metade da sua vida em cadeias e internações de menores, outra boa parte passou dormindo em passeios públicos no centro do Rio de Janeiro, enfim a sociedade expurgou de nosso convívio um individuo que em nada acrescentou para o planeta. Como se viver fosse uma questão de acrescentar ou não algo para o planeta.

Nenhum comentário: