terça-feira, 11 de novembro de 2008

Emoção à distância

Li estes dias sobre emoção à distância. Dizia algo como a emoção que acontece em você depende da distância que o fato ocorreu. É algo obvio, mas como diria a minha mãe: O ovo de Colombo também era muito obvio. Alias os idiotas da objetividade sempre fazem isto. Vamos imaginar a cena. Em uma taverna estão todos enchendo a cara, contando piadas e zombando dos outros. Eis que chega Colombo e desafia todos ali presentes, havia algo em torno de cinqüenta pessoas.

O desafio era bem simples, Colombo perguntava quem ali era capaz de fazer um ovo ficar em pé, sem nada escorando, ou seja o ovo teria que apoiar-se em uma de suas extremidades. Alguns riram outros desprezaram, houve uns que debocharam sem o menor cinismo. Colombo já sabendo do resultado final, não retrucava nada, absolutamente nada, nem mesmo um sorriso plástico lhe saia do rosto. Os idiotas, que se achavam mais espertos, foram os primeiros a tentar, tentaram uma duas, três, milhares de vezes. Houve todo o tipo de tentativa, mas ninguém conseguia colocar o ovo em pé. Depois de todos desistirem e pedirem por clemência de Colombo, eis que ele sem anunciar o gesto, em questão dê segundos, pega o ovo, bate ele com uma pequena força contra o balcão e quebra uma pequena ponta do ovo e ele fica em pé, com o pequeno achatamento provado pela colisão. E diz: O ovo esta em pé, vejam. Ohhh todos dizem, mas logo os idiotas da objetividade falam, mas se eu soubesse que poderia quebrar uma pequena ponta dele ou mesmo achatar, para que o ovo ficasse em pé, eu mesmo teria feito. E logo todas as cinqüenta pessoas ali falam em coro, que coisa mais obvia senhor Colombo, você nos trapaceou, assim qualquer um coloca o ovo em pé.

O que vou falar é tão simples como ovo de Colombo, o que é a morte de um ser humano para outro ser humano? No mínimo a morte de um semelhante, algum leitor já viu um homicídio ocorrer bem à frente dos seus olhos? Eu nunca presenciei tal cena, mas imagino que a emoção seja tremenda, imaginem se for um irmão seu? Ou mesmo um amigo? Um tio? Sua esposa?, sua mãe? Enfim a emoção se torna cada vez mais plástica conforme vai se aproximando de você. Alguns iriam objetar, não espero a unanimidade e nem á quero, nada pior do que levar um dez. Passa a impressão que não foi corrigido ou mesmo lido. Um dez é a morte. Mas leitor se não viu o homicídio, você já viu o atropelamento de um cão ou vai dizer que não? Não precisa ser necessariamente um cão, pode ser um gato, uma zebra, um cavalo, enfim qualquer animal, que produza sons e demonstre sua dor em público.

Um belo dia, estou saindo de minha casa. Ao por os pés no passeio público vejo a trágica cena, que nunca mais iria sair de minha memória. Passa um automóvel em alta velocidade e atropela um cachorro, um vira-lata que sempre me incomodava quando eu chegava em casa, mas ele estava ali agora agonizando sua morte, que neste momento era inevitável e o pior com as tripas pra fora, muito sangue, uma cena plástica. A emoção em mim era inevitável, sofria por aquele cão como se fosse meu desde que nasceu, eu e o cão éramos agora inseparáveis, ele agonizava e eu também. O resto do meu dia não foi nada agradável, o cão sempre estava na minha memória, o seu atropelamento me chocava mais do que a morte de um menino na África por inanição. Só assim compreendia, por que nada me abalava. Eu sabia da miséria do Vale do Jequitinhonha, da indústria da seca no Nordeste, do trabalho escravo que acontece até os dias de hoje, dos trabalhadores Chineses, das milhares de Guerras que acontecem pelo mundo, dos milhares de homicídios que ocorrem a minha volta, nada disso me abala. Convivo pacificamente e harmonicamente com todas as catástrofes que ocorrem por ai, e isto pelo simples motivo da distância, estou distante de tudo isto. A simples distância me faz não sofrer ou sentir emoções quanto aos tristes fatos.

Lembra quando damos a notícia: “Vou a um velório”. A primeira pergunta sempre é esta: “Morreu algum parente seu?”. Se você quer aliviar qualquer sentimento de pêsames você responde: “Não, é um conhecido de um conhecido, vi ele algumas vezes”. A pessoa que perguntou muda de assunto e até se esquece, que você vai ao velório daqui a trinta minutos. Agora imaginem se você dissesse: “Sim, minha mãe”. Não será preciso dizer mais nada, a plasticidade desta frase é o suficiente para a tragédia ser instaurada, na mesma hora você ganhara folga, presentes, sentimentos de pesares, todos a sua volta serão delicados com você, por um bom tempo você não será irritado por ninguém. Toda esta diferença entre duas mortes, que são identicas. Dois seres humanos vieram a falecer, o resultado produzido é o mesmo. A única diferença entre uma e outra é apenas à distância entre elas e você.

Nenhum comentário: