Muito se fala sobre o futuro, sobre a vida depois dos quarenta. Sobre as realizações. Pra mim o mais importante que posso fazer em minha vida é ter uma vida comum. Serei realizado, sendo uma pessoa comum. Pode parecer estranho dizer isto, quase que brega, cafona. Eu não me preocupo, sei que serei feliz assim. Uma vida comum, me pouparia de desgostos, de tragédias, de grandes feitos, de grandes problemas, de grandes histórias de amor, de traições. Enfim não haveria muito que comemorar, nem muito que lamentar. Sei que isto não é compreensível, mas eu já cansei de uma vida conturbada.
É bom ter muitas mulheres, é bom ter muitos amigos, é bom ter muita farra, mas tudo em excesso pode estragar ou mesmo azedar. Vou ser mais pontual, vou falar de minhas paixões, infelizmente já tive algumas. Digo infelizmente, por que queria ter apenas uma, só uma e nada mais do que isto. Seja qual for o meu destino, sei que isto não vai acontecer. Já tive algumas paixões, como acabei de dizer e aconteça o que acontecer, no máximo terei mais uma ou mais algumas. Mas o meu sonho de fato era ter uma paixão de infância, daquelas, que desde pequeno, você sabe que é a sua cara metade. Não precisávamos necessariamente ficarmos juntos da infância até a velhice. Um pouco de vida boemia vai bem a todo mundo. Mas por mais, que eu me envolvesse com outra pessoa, e a minha cara metade com outro. No fundo saberíamos que o nosso amor é único, insubstituível, estávamos apenas passando o nosso tempo com outra pessoa. No entanto, o nosso coração se manteria inflexível a sua verdadeira paixão. Bom este era o meu sonho, não é mais. Já não é possível, passei a minha infância sem conhecer tal pessoa. E como é de conhecimento de todos, só se faz doze anos uma vez na vida, não há volta. Então terei que me contentar com algumas paixões, quem sabe milhares ao longo de minha vida.
Inicialmente isto pode parecer maravilhoso, ter milhares de paixão. Só de biografia sobre os amores, poderia escrever um livro de cinco volumes, cada um com mil páginas. E de fato um “Don Juan”, diriam alguns. Um veterano, um apaixonado, diriam outros. Eu diria que é um idiota. Teve muitas e não teve nenhuma. No fim a indústria cultura, se tornou a indústria pornográfica para este pobre rapaz. Pergunte a este Don Juan, se ele se lembra do gozo de sua amada. Primeiro ele ira perguntar, de qual amada se trata. Afinal de contas são tantas. Este é o problema, o homem de uma paixão só, não precisa perguntar de qual amada estão lhe perguntando. Ele só tem uma, a conhece como ninguém, cada pedaço do corpo, cada gesto, cada sorriso, cada olhar, cada tom de voz, cada suspiro, cada gozo, cada toque, cada beijo. Não há nada, que ele não saiba de sua amada. E isto só se consegue, tendo uma única e mais nenhuma amada. Eu não tive esta sorte e nunca terei. Sou um Don Juan, tenho muitas e nenhuma ao mesmo tempo. Já fui idolatrado por milhares de mulheres, muitas lindas, inteligentes, mulher que não se acha em cada esquina, o problema, é que as nunca conheci, no máximo algumas noites, outra apenas uma.
Sei muito bem, que posso parecer um canalha e realmente devo ser. Um grande canalha, mas não foi por que eu quis, não foi esta a minha escolha. Quis a vida que eu fosse um canalha, um Don Juan. Eu nem falei das polemicas, das brigas intermináveis, das discussões ideológicas, da minha fama de ser do contra. E tudo isto contra a minha vontade. Eu só quero ter uma vida comum. Consigo ate imagina-la, mesmo que saiba, que nunca vá acontecer, é possível pensa-la. Ela seria muito simples, sem nenhuma extravagância, imprevisibilidade, chateação, brigas, não haveria tragédias, nenhum homicídio. Alias este fato ainda não me ocorreu não me mataram. E eu não cometi nenhum homicídio. Confesso, já tive vontade de matar algumas pessoas, nada assim, fixo, foi apenas uma idéia leve, passageira, que logo se foi. Nunca ocorreu um homicídio próximo de mim também, nenhum parente, amigo ou conhecido assassinado. E ao contrário do que a grande maioria pensa, os homicídios são mais comuns do que os atropelamentos.
Voltando a minha vida comum, simples, cotidiana. Eu não ganharia na loteria, não ficaria milionário, não seria um político, nem mesmo um síndico. Não me tornaria um executivo bem sucedido, não seria diretor ou presidente de nenhuma empresa, clube ou associação. Enfim seria o que as pessoas chamam, de uma pessoa mediana, comum. Teria o meu carro, minha casa, minha família. Uns dois ou três filhos, uma esposa e talvez no máximo uma traição, bem passageira, já com quarenta anos de casamento. Não teria duas famílias, só uma. Meus filhos seriam bem educados, não se envolveriam com nada turbulento, enfim, uma família comum. Feita por uma pessoa comum. Não haveria extravagância, viagens pelo mundo, no máximo uma ou outra, feita com base em uma economia anual. Seria a família classe média. Talvez escrevesse um livro, nada fascinante, algo sobre um assunto que me interesse. Com muito custo conseguiria uma publicação, em alguma editora. Não venderia muitos exemplares, o máximo para cobrir o custo da edição, diagramação e tiragem. Sobraria-me uma merreca, mas teria algo para mostrar aos amigos.
Minha esposa, como já disse, seria uma namorada da infância, teríamos nos conhecido com oito anos de idade, ela teria tido uns três namoricos, mas nada demais. Afinal de contas teria sido o único homem que ele viu nu em toda sua vida. Minto, ela teria visto o seu filho, nu também. Algo muito comum entre mãe e filho. Não falei sobre o trabalho, nada demais, seria eu um funcionário, médio em alguma empresa privada ou pública, ganharia uma renda média e trabalharia, para não ser demitido. Sem grandes pretensões, de ser o melhor, de subir dentro da empresa, de ganhar rios de dinheiro. O meu dinheiro seria o suficiente para sustentar a família, minha mulher com a renda dela, pagava por aquelas coisas de mulher. Meus filhos teriam condições de se graduarem e até mesmo de seguir uma vida academia, se assim quisessem. E uma vez por ano, teria a viagem da família, para alguma praia ou país vizinho.
Falei basicamente, o que é uma vida comum para mim, e seria justamente este tipo de vida, que eu gostaria de ter. O mais engraçado ou irônico é que não consigo ter uma vida assim, sou sempre o centro das atenções, badalado, um verdadeiro Dom Juan, já tenho uma fortuna razoável e sem muito esforço ficarei rico. Não chego a ser uma celebridade, mas dentro do meu circulo social sou conhecido, apreciado, venerado. Enfim sou tudo, o que nunca quis ser. Não gosto de me envolver em batidas de transito, não gosto de me envolver com mulheres casadas, noivas ou comprometidas, não gosto de me envolver em ocorrências policiais, não gosto de confusão, não gosto de uma vida boemia em excesso e não gosto de ser invejado. Agora cheguei ao ponto principal de ter uma vida comum, ela não é invejada por ninguém. Não há o que temer, ninguém quer tomar o seu espaço, ninguém quer a sua mulher, que mal conversa com outro homem, ninguém quer o seu emprego, que é muito comum. O seu carro comum não é invejado. Pois bem, se eu pudesse escolher entre ser um Deus e um homem comum, não haveria dúvidas, seria um homem comum. No entanto, a vida não é feita de uma escolha simples e clara, muito pelo contrário o caminho é tortuoso, escuro e sombrio, a vida é complicada.
Um comentário:
é digno de pena
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