sábado, 6 de dezembro de 2008

Amores da juventude

Estava me lembrando estes dias do tempo em que era jovem, quando eu ainda tinha os meus vinte e poucos anos. Bons tempos aqueles. Tudo bem, que o jovem é por sua própria natureza, é estúpido. Comigo não era muito diferente. Lembro-me bem dos meus abafamentos, das minhas inquietudes, das minhas consternações. Agia por impulso, me envolvia piedosamente nas minhas paixões. Entregava-me de corpo e alma. Eu não devia entender muito bem, aquela famosa frase: “Quanto maior a altura, maio é o tombo.” Pois bem, os meus tombos eram dignos de registro.

Falando assim da minha juventude, lembrei de uma paixão desta época, esta foi um caso singular. Não digo isto, por causa da garota, que era linda, inteligente, extrovertida, única. Neste caso, o contexto, que é o inusitado. Primeiro pela forma que eu a conheci. Foi na época da faculdade, ao contrário de que todos dizem, não tenho muitas saudades desta época, não houve nada de mágico na minha vida de universitário, os meus colegas de faculdade, na sua grande maioria eram todos insuportáveis, um bando de idiotas. Esta garota chegou a ser minha colega de faculdade, mas não tivemos contato, só fui percebê-la, quando ela se tornou minha professora substituta. Muito irônico, eu ainda não havia me formado, e ela, que era alguns períodos na minha frente, já era professora, tudo bem que substituta, mas é inegável, que ela estava em uma posição muito mais confortável que a minha. O fato é que ela ser minha professora, foi à única forma que o destino teve de nos encontrarmos. Desde a primeira aula, trocavamos olhares fulminantes, confesso, que não sabia bem o que os olhares dela queriam dizer, os meus eram claros, eu tinha achado ela fabulosa e não havia nada que eu pudesse fazer para controlar os meus olhares. Já ela, poderia ser simples nervosismo, já que aquela situação não era nada confortável. Ser professor novato deve ser uma experiência muito difícil.

Estava me esquecendo de um pequeno detalhe, nesta época, eu tinha um namorico. Estes namoros, que a gente não sabe bem por que começou e damos graças a Deus de terem terminado. É muito similar a aquelas festas que vamos e no meio dela pensamos: “O que eu estou fazendo aqui”. Mas passado dois meses de aula, este namorico já havia acabado, sem nenhum trauma é claro. O resultado mais interessante do termino dele, foi o meu súbito interesse pela professora. É engraçado chama-la de professora, ela era muito mais a minha veterana do que o contrário. Desta vez eu não apenas olhei, resolvi me aproximar e por fim me declarar apaixonado. Tudo ocorreu de forma muito rápida. Não foi nada planejado, as coisas foram evoluindo, aos poucos a idéia me parecia natural. Tive um medo natural, que tudo desce errado e nada pior, do que levar um belo não da sua professora.

No entanto não foi isto que aconteceu, a professora me correspondeu, é claro, que ela achou aquela história toda complicada. Assim como eu, ela já tinha tido relacionamentos polêmicos, aquele seria apenas mais um. No inicio foi tudo perfeito, escrevi algumas cartas de amor pra ela, ela lia tudo, me respondia e correspondia. É claro, que no começo era tímida, quase não dizia um sim, mas aos poucos foi ficando mais a vontade. Já me escrevia cartas de amor também, naturalmente saímos, trocamos carinhos, nos beijamos. Nas aulas seguintes era um tanto estranho vê-la como a minha professora. Mas disfarçávamos e ninguém desconfiava de nada. Fora da faculdade éramos um casal comum, sem nenhuma diferença do habitual.

Infelizmente, nosso relacionamento não durou muito. Eu esqueci de contar, mas quando ainda estava nas minhas investidas sobre a professora, inclusive fiz uma música pra ela, que era mais ou menos assim: “Espero de você um sinal de viver, uma marca de um doce ou um afago qualquer...Espero que não me entenda mal, afinal eu só quero te amar.. Carla me cala, Carla me ama”, mas nesta época havia uma certa resistência por parte da minha professora. Ela dizia que havia saído de um relacionamento muito chateada e que não se sentia disponível para outro caso, naquele momento. Não dei bola para isto, sabia que era uma questão de tempo e de fato foi. O que eu não sabia, é que este relacionamento ainda estava muito vivo. No momento, em que eu não media as palavras para me declarar, em que me entregava de corpo e alma nas nossas noites de amor, quando tudo era azul. Aconteceu o trágico, o inexplicável. O cara, que havia literalmente chutado a bunda da minha professora, resolveu procura-la.

Não vejo que o cara fez mal, eu no lugar dele teria feito o mesmo. Os homens são canalhas por natureza. Ele saiu do relacionamento, para arrumar algo melhor na opinião dele. Não aconteceu nada, naturalmente ele volta para o ponto onde estava. O raciocínio dele é simples, como de um canalha. O que me surpreendeu nesta história toda, não foi ele e sim ela. Afinal de contas, ela já havia se declarado pra mim, já tínhamos dois meses de relacionamento, já tínhamos tido noites de amor incríveis. Até cartas de amor ela já havia escrito. Eu não esperava outra atitude dela, era natural, que ela lhe desse um não bem dado. Mas como tudo na vida é confuso, ela não fez isto, pelo contrário, reatou com ele no mesmo instante, em que ele terminava de falar a sua intenção. Alias, ele nem acabou de falar, ela já tinha dito: tudo bem, eu volto pra você. Naquele mesmo dia, ele foi para a casa dela e lá fizeram amor a noite toda. Bem parecido com aquela música: “Eu faço samba e amor à noite inteira, e tenho muito sono de manha”.

O mais obvio é pensar no que me aconteceu. Foi bem simples, três dias depois, vou atrás de minha professora e pergunto o que teria acontecido. Era notável a mudança drástica dela nos últimos três dias, não conversamos no telefone, não trocamos e-mails, não nos vimos, enfim ela me evitou este tempo todo. Não houve muitos rodeios por parte dela, ela disse o que aconteceu, em partes é claro, não me falou sobre a noite de amor. Talvez isto fosse ser sincera demais. Primeiro ela me disse o obvio, que eu era lindo, muito, mas muito interessante, que estava gostando muito de mim, que era tudo perfeito. No entanto, o outro tinha aparecido primeiro, ela já tinha uma história com ele, e ela não sabia tomar outra atitude naquele momento, mas talvez um dia pudéssemos ficar juntos. Confesso, meu primeiro sentimento foi de humilhado. Nada pior para um homem, do que ser trocado por outro. O amor pode acabar, as coisas podem não dar certo mais, pode haver muitas brigas, os dois podem ficar confusos, pode haver falta de respeito, traições, mas ser trocado por outro é o fim. E justamente isto que pensei logo em seguida, é o fim. Não havia mais volta, mesmo que ela mudasse de opinião na semana seguinte, não havia como eu aceitar aquele ato, imperdoável. Talvez Deus em sua infinita bondade não haja para ele, nenhum ato imperdoável. Já eu na minha infinita canalhice sou cheio de atos imperdoáveis.

Desde aquele momento, eu sabia, que era o fim, ainda combinei de almoçarmos, mas nos últimos trinta minutos, liguei e inventei uma desculpa qualquer para não nos vermos. Depois deste dia, não a procurei, quando nos vimos nas aulas, eu era um aluno comum. Todo o meu encanto por ela foi embora, em questão de dias, tudo se foi. Hoje me relembrando desta história, acho um pouco de graça em tudo. Depois não tive mais noticias de minha professora, logo formei. Não me enveredei pelo meio acadêmico, muito político em minha opinião. Não sei quanto tempo este relacionamento dela durou, se casaram, se noivaram. Enfim, desconheço todo o desfecho do caso. Foi um bom amor da minha juventude, apesar do fim traumático. Se pudesse, viveria tudo novamente, talvez apenas diminuísse o tombo, que neste caso foi bem frustrante.

Um comentário:

Leonardo R. disse...

ótimo texto...

muito bom mesmo...

olha que num tenho coragem de ler textos tão grandes.. rsrs...


eu ainda dou bem jovem... mas me vejo no caso.. rsrs