domingo, 28 de dezembro de 2008

A vida imitando a arte

Um dia desses ao ir à padaria fui abordado por um vizinho. Nunca tínhamos conversados, no máximo nos cumprimentados. Mas neste dia não teve como ele já chegou me interrogando: "E então camarada como é aquela história da professora? ". Tive um susto na hora, não entendi a pergunta e retruquei: "Que professora? Do que está falando? Não esta me confundindo com alguém, tenho um rosto muito comum". O sujeito foi decisivo e disse: "Claro que não meu camarada, é você mesmo quem publicou a história da professora que te trocou por outro". Nesta hora me veio à memória do que aquele sujeito estava falando. De uma publicação recente minha “Amores da Juventude”. Então expliquei pra ele que era tudo ficção, que há sim pedaços da realidade, mas no fim das contas é tudo fruto da minha imaginação, que sai colando os pedacinhos do real e com isto faz uma história fictícia.

O meu vizinho não ficou satisfeito com a minha explicação saiu de lá mais convencido de que a história era mesmo de fato realidade. Mas esta conversa abruta e no mínimo estranha me estimulou em publicar novamente uma explicação sobre o que eu escrevo ( Já publiquei sobre o assunto em “Ponto nos is”). O fato é que me incomoda muito ter de pensar, que o que eu escrevo vai ter reflexo na realidade. Eu sei que temos responsabilidades pelo o que falamos. Inclusive isto é a premissa da liberdade de expressão. No entanto, escrevo ficção e não posso ser responsabilizado por algo que não tenha de fato uma conexão com a realidade, pode haver sim coincidência, mas isto esta longe de ser algo que possa me responsabilizar. Não estou falando apenas de responsabilidade jurídica, o que mais me incomoda é a obrigação moral.

Certos acidentes entre o mundo real e o meu fictício me impedem até mesmo de publicar ou de escrever sobre algo. É uma verdadeira auto-censura, quando não é uma censura explicita. No mínimo é muito egocêntrico pensar que eu escrevo sobre determinada pessoa ou caso familiar. Nas minhas imaginações não existe conhecidos ou desconhecidos é um modelo ideal, imaginado por mim e pronto. Alias o meu amigo Jô sempre escreve no fim de suas publicações a seguinte explicação: “Esta é uma obra de ficção. Mesmo as figuras históricas nela apresentadas são tratadas de forma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade. Qualquer semelhança dos personagens fictícios com personagens reais não passa de fortuita coincidência.”. É mesma explicação que tenho sobre as minhas publicações, sem tirar e nem por uma linha, palavra, vírgula ou mesmo ponto.

O que me intriga nesta história toda é se as pessoas fazem isto por implicância ou por não conseguirem mesmo distinguir entre ficção e realidade. Pois a diferença é brutal. No entanto, as desconfianças e até mesmo incredulidade total que se trata de ficção estão mais vivas do que nunca. Eu já joguei a bandeira branca contra esta batalha cruel e insana. Desisto de dizer que escrevo ficção pura e simples. Só estou me resguardando para que no futuro não digam que nunca me esclareci e estou fazendo isto pela segunda vez.

Um ponto que me intriga muito é a confusão do autor com a pessoa física quem escreve. Eu autor não sou, o eu físico. Assim como crio vários personagens eu acabo sendo mais um personagem e não mera continuação física e psicológica da pessoa quem assina as publicações. Tudo bem que isto pode parecer um tanto confuso, mas isto tem uma explicação filosófica. Eu não sei dizer, pois não sou filosofo, apenas sei que tem uma elucidação do assunto ou então próximo disto. O máximo que sei dizer, que tendo um autor e a pessoa quem escreve. Separadas uma das outras, há maior liberdade de imaginação. O grau de poder da escrita se torna maior, posso inventar o personagem quem eu bem quiser que seja. A pessoa quem escreve na verdade é muito sem graça, fútil, boba, ingênua e o pior, sem muitas histórias pra contar. Então para dar mais de mim à minha única leitora dou pernas pra quem quer. E tem mais, eu autor discorda das idéias da pessoa quem escreve, enfim as opiniões de um e de outro não são necessariamente convergentes.

Tudo bem que pago caro pela minha liberdade de escrever e imaginar. Mas tudo tem o seu preço e se pagamos é por que vale o valor pago. Mas não culpo a ninguém por esta confusão. No fim das contas tudo é confuso, não há distinção tão clara entre o real e o não real ou mesmo que é a realidade? É difícil dizer até onde um quadro influencia na realidade ou o quanto ele foi reflexo do real. Enfim as coisas não são pretas e nem brancas são cinza. Não quero acabar com as coincidências, sei que elas existem. É bom que isto aconteça, mas que predomine o razoável. Se é que isto é possível.

2 comentários:

Unknown disse...

Me identifiquei com essa história...
Pq será??? Será q é pq esta é uma obra de ficção? Mesmo as figuras históricas nela apresentadas são tratadas de forma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade? Qualquer semelhança dos personagens fictícios com personagens reais não passa de fortuita coincidência?
Vc sabe do q eu tô falando...

Jay disse...

Acho que , de fato, vc resumiu toda a idéia desse txt nessa parte:
Tudo bem que pago caro pela minha liberdade de escrever e imaginar. Mas tudo tem o seu preço e se pagamos é por que vale o valor pago. Mas não culpo a ninguém por esta confusão.

Realmente, não se deve esperar nada do leitor. Nem que ele leia o texto.